Os apagamentos históricos que nos mobilizam (e nos fascinam)

Fogo! E agora?

“(…) a longevidade dos museus e de suas coleções está relacionada ao seu uso social. Edifícios repletos de coisas não bastam para que o museu funcione, é preciso que haja uma interação eficaz com as pessoas e a comunidade do seu entorno.” (Ewbank, 2019)

Em um interessante artigo sobre o aparecimento e desaparecimento dos museus do Rio de Janeiro, Cecilia Ewbank nos conta um pouco da história do surgimento do Museu Nacional e do seu desaparecimento.

O ponto mais interessante desta história é perceber como o Museu ressurgiu diante da sua morte. Após o incêndio, a mobilização nacional fez com que inúmeras pesquisas se iniciassem e uma nova relação de apreço a sua coleção desaparecida – ou os seus restos mortais coletados – surgisse.

A possibilidade do apagamento da memória nacional nos deixou carente de informações e cuidados com o acervo, mesmo para aqueles que jamais passaram na frente do museu.

Caso semelhante ocorreu há alguns anos com o MASP, quando duas obras foram roubadas e a visitação nos dias seguintes explodiu.

Tendemos portanto a criar uma relação de apego ao acervo material apenas depois que ele desaparece, como se precisamos entrar em contato com aquilo que perdemos para nos despedir. A grande questão é que, na maioria das vezes, sequer sabíamos que aquele objeto – ou um museu inteiro – existia.

Fica então a questão: por que essa relação de perda, de uma história quase inexistente para nós inicialmente, se cria? Qual o sentimento despertado em nós?

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Crítica Expográfica é escrito por Renata Figueiredo Lanz, que, além de produtora de conteúdo neste blog também é diretora de criação da Renata Figueiredo | design gráfico + expografia . Para entrar em contato envie um e-mail para renata@refigueiredo.com.br

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A primeira crítica: Museu do Futebol

A primeira crítica não poderia ser sobre outro espaço que não o Museu do Futebol dado que foi um dos principais objetos de pesquisa da autora deste blog na sua dissertação de mestrado: “Expografia contemporânea no Brasil: a sedução das exposições cenográficas”.

Inaugurado em 2008, o Museu do Futebol que segue um padrão internacional de exposições blockbusters, que em geral contam com uma equipe de produtores de exposições e cenografia renomados e, no caso do Brasil, em geral é financiado parcialmente pela fundação Roberto Marinho.

Só no Brasil, há pelo menos dois grandes museus recentes que seguem a mesma narrativa: o Museu do Amanhã e o Museu da Língua Portuguesa.

Infelizmente este museu de um dos temas que mais apaixona os brasileiros decepciona quando tentamos nos aprofundar nos conteúdos.

A exposição de longa duração é dividida em três eixos: história, emoção e diversão. Porém parece prezar essencialmente pelos últimos dois, emocionando e divertindo o seu público.

Sala Exaltação. Foto: Luciano Mattos Bogado

Você pode então questionar esta autora: mas um museu não pode divertir? Pode, é claro. Mas se limitar ao entretenimento é oferecer pão e circo a semelhança dos romanos: desviando a atenção do povo para o seu direito a educação e ao questionamento. Uma sociedade desacostumada a refletir e a questionar, aceita com muito mais facilidade as imposições que lhe são feitas por seus governantes. 

Você pode então argumentar: ah, mas tem muito conteúdo histórico no museu! Fato. Não há dúvidas de que existe conteúdo histórico em excesso na sua exposição de longa duração. E essa é uma outra estratégia interessante dos museus recentes. Oferecer informações em excesso. E neste excesso o visitante se perde, o individual se torna abstrato e é desvalorizado em função do coletivo.

Alguns exemplos bastante significativos são vistos neste museu, em especial na seqüência de salas do eixo história: Origens, Heróis e Sala das Copas. 

Sala Origens. Foto: Luciano Mattos Bogado
Sala Heróis. Foto: Luciano Mattos Bogado
Sala das Copas. Foto: Juan Guerra

Em todas elas se desvia o foco do individual para o coletivo. Se reforça o lugar comum do povo brasileiro como um povo mestiço e que a riqueza do povo viria desta mestiçagem, ignorando todas as questões raciais nada poéticas que enfrentamos no século XXI.

Ignora-se as derrotas como fruto do fortalecimento individual e coletivo. Todo o negativo é apagado e o visitante tem o seu senso crítico e argumentativo.

No artigo “A imagem como substituto do patrimônio material: a fotografia como desvalorização do objeto”, apresentado no “5º seminário internacional museografia e arquitetura de museus: fotografia e memória”, descrevo mais detalhadamente, sala a sala, como essas estratégias se desenvolvem. 

Outra questão relevante se deve à denominação museu. Se esse espaço tivesse chamado de Centro Cultural do Futebol ou ainda “Futebol Experience” (fazendo uma analogia direta ao CampNou Experience que conta a história do time do Barcelona) ele teria uma responsabilidade menor.

Já um museu, em sua denominação original e plena, tem a responsabilidade de ser um centro de pesquisa que exibe em suas exposições os resultados desta pesquisa. O Museu do Futebol, neste sentido, foi feito do avesso: primeiro se criou a exposição e depois das portas abertas e o museu em funcionamento, se começou a produzir um  plano museológico. Como diz uma funcionária do próprio museu: “Tivemos que trocar as rodas com o carro andando”.

No artigo deste blog:  “Museus: para que e para quem?” é feita uma descrição detalhada de como o Conselho Internacional de Museus (ICOM) define como museu. 

Os questionamentos finais então deixo para você, o meu leitor refletir tentar responder:

  • Vale a pena gastar aproximadamente 40 milhões de reais para emocionar o público?
  • Eu acredito que a exposição tenha valido quando você sai do museu com vontade de conhecer mais sobre o assunto, de saber mais. E você? Concorda com isso? Se não, qual a razão de ser de um museu?
  • A questão racial no Brasil, tão presente no futebol, pode ser deixada de lado em virtude de um espetáculo? Ou no futebol não devemos pensar nisso?
  • Seria mais um museu em que os apagamentos históricos são evitados para não “incomodar” o público? Mas não são justamente esses “incômodos” que trazem transformações sociais importantes? E não é o museu um ligar-se educação não formal que tem a liberdade de trazer isso a tona?

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Desvallées

André Desvallées tem um capítulo dentro do livro Manuel de muséographie: petit guide à l’usage des responsables de musée (Manual de museografia: pequeno guia para uso dos responsáveis pelo museu), que define de maneira muito competente certos termos referente ao universo dos museus, entre eles: Expografia, Expologia, Museografia e Museologia.

Eu só conheço a versão em francês deste livro, mas talvez haja alguma tradução para o inglês ou espanhol. Se alguém conhecer, me avise que eu posto aqui!

Da versão em francês, segue a referência bibliográfica completa:

DESVALLÉES, Andre. Cent quarante termes muséologiques ou petit glossaire de l’exposition. In: BARY, Marie-Odile; TOMBELEM, Jean-Michel (Dir.). Manuel de muséographie: petit guide à l’usage des responsables de musée. Haute-Loire: Séguier, 1998.