#1 Museus e quarentena: o melhor da semana

Depois de quase 1 mês em casa, você que é apaixonado por museus, estuda, trabalha ou visita com frequência, já está sentindo falta de visitas, conteúdos, palestras, etc. Então, enquanto durar a quarentena, farei uma curadoria de conteúdo disponibilizando o melhor para casa semana.

13/03 – SEGUNDA-FEIRA às 18:00
MASP LIVE NO INSTAGRAM

O diretor artístico Adriano Pedrosa e a curadora adjunta de histórias Lilia Schwaecz conversam sobre os conceitos de histórias que deram origem à 3 exposições em 2016 e uma em 2018: Histórias da Infância, da sexualidade e histórias afro-atlânticas além de História das mulheres e histórias feministas. Acessar o perfil @masp no Instagram.


14/03 – TERÇA-FEIRA
Baixar GOOGLE ARTS & CULTURE E VER A EXPOSIÇÃO “A ARTE DE EXPOR ARTE”

A exposição “A arte de expor arte”, sob curadoria de Regiane Cintrão, apresenta um texto muito interessante que envolve a história das exposições, expografia e museografia no Brasil e no mundo. Bastante conciso, o texto dá um panorama das mudanças ocorridas no âmbito da expografia, desde o tempo em que a arte de expor ficava a critério do próprio artista até o momento em que os arquitetos e designers começam a transformar este panorama. Pode ser acessado no computador também, através do link: https://artsandculture.google.com/exhibit/a-arte-de-expor-arte/sgICVbQQ8IsKJA

16/04 – QUINTA-FEIRA- 10:30 às 12:00
Curso online: filosofia e arte contemporânea: Louise Bourgeois.

Aula dada pela incrível Magnólia Costa, online, através do MAM. Valor da aula: R$ 105,00. Conheci Magnólia em um curso sobre arquitetura de museus e posso afirmar que ela é uma excelente professora. Não conheço as aulas sobre filosofia, mas acredito que sejam tão boas quanto, pois ela é dotada de conhecimentos profundos sobre o que fala, além de um humor bastante peculiar. https://mamcursos.byinti.com/#/ticket/eventInformation/G7snSQU7HhmqjK47f8Wc

17/04 – 19-04 – SEXTA-FEIRA E FINAL DE SEMANA
Curso GRATUITO sobre Velazquez no Museu do Prado.

Conta a história da criação do edifício e a suas polêmicas até a transformação em museu público. Considera Velazquez como o pintor dos pintores neste museu que se considerada mais de artistas do que de história da arte.

Sobre a usabilidade: escolher a versão gratuita do curso (o valor é somente para quem deseja um certificado). Para quem não entende tão bem espanhol, recomendo fortemente assistir em versão mais lenta. (clicar em detalhes no canto direito do vídeo e escolher a velocidade de reprodução 0.75).

https://miriadax.net/web/velazquez-en-el-museo-del-prado-3-edicion-/inicio

CURSO VELAZQUEZ

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Crítica Expográfica é escrito por Renata Figueiredo Lanz, que, além de produtora de conteúdo neste blog também é diretora de criação da Renata Figueiredo | design gráfico + expografia . Para entrar em contato envie um e-mail para renata@refigueiredo.com.br

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Como acertar na iluminação da exposição?

Já fiz diversas críticas aqui em que eu falava sobre a iluminação de uma exposição que visitei. Mas, afinal, o que é uma boa iluminação em exposições? Depende.

Uma vez ouvi: aquele que não sabe usar iluminação em exposições, melhor utilizar luz difusa. Ou seja, seria o “pretinho básico”, em que se tem poucas chances de erro. Mas, em um universo com dezenas de opções, porque não ir além?

E então, quais são as alternativas? Vamos por partes: temos, a princípio, duas opções: luz natural e artificial.

A luz natural é a luz do dia, do sol, enfim, a “luz de Deus”. A grande vantagem da luz natural é que ela tem um excelente IRC (índice de reprodução de cor). A desvantagem é que ela varia ao longo do dia e, obviamente, não existe a noite. Então, podemos contar com ela, mas não pode ser a única fonte de luz. Também deve-se tomar cuidado com a forma como ela incide sobre as obras de arte, por exemplo, para não causar danos a estas.

Quando incide sem filtros, a luz natural direta, incide diretamente sobre o ambiente e provoca sombras e marcas de sol bastante constrastantes e marcadas, como no exemplo abaixo, da Pinacoteca de São Paulo, a Pina.

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Luz natural direta na Pina. Fonte:  revistadecorar.com.br

 

Já a luz natural difusa, conta com um “difusor”, ou seja, um elemento como um vidro ou acrílico com certa opacidade que faça com que os raios não incidam diretamente, mas se difundam. Ela também não está diretamente direcionada para o elemento a ser iluminado.

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Jonh & Mable Ringling Museum of Art Sarasota. Fonte: dispatch.com

 

A luz difusa (seja natural ou artificial) se espalha no ambiente e não gera sombras marcadas, fortes.

A iluminação artificial apresenta uma grande gama de possibilidades:

A Iluminação difusa direta geral, segue o mesmo princípio da natural, só que é produzida por uma fonte artificial de luz (lâmpada).

fonte: http://images.adsttc.com/media/images/5671/c845/e58e/ce6d/b500/0034/medium_jpg/07119_151130-033D.jpg?1450297405
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Iluminação difusa focada: não voltada diretamente para o objeto, tem a sombra mais suave.

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Iluminação de realce: destaca um objeto importante da exposição.

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Iluminação Focal Mista: no caso abaixo temos a combinação entre luz difusa e luz focada.

Screen Shot 2016-05-17 at 6.00.24 PM.png

 

 

Estes são apenas alguns dos tipos de iluminação possíveis. Em geral, em uma boa exposição são combinados diversos tipos de iluminação. Algumas focando ou realçando objetos e algumas fazendo a iluminação geral.

No próximo post, falaremos um pouco sobre os problemas que ocorrem na iluminação de exposições.

 

Para saber mais, veja alguns aspectos mais técnicos sobre iluminação:

http://angelaabdalla.blogspot.com.br/2010/07/iluminacao-de-museus.html

Clique para acessar o iluminacao_de_museus_galeias_e_objetos_de_arte.pdf

 

 

 

A primeira crítica: Museu do Futebol

A primeira crítica não poderia ser sobre outro espaço que não o Museu do Futebol dado que foi um dos principais objetos de pesquisa da autora deste blog na sua dissertação de mestrado: “Expografia contemporânea no Brasil: a sedução das exposições cenográficas”.

Inaugurado em 2008, o Museu do Futebol que segue um padrão internacional de exposições blockbusters, que em geral contam com uma equipe de produtores de exposições e cenografia renomados e, no caso do Brasil, em geral é financiado parcialmente pela fundação Roberto Marinho.

Só no Brasil, há pelo menos dois grandes museus recentes que seguem a mesma narrativa: o Museu do Amanhã e o Museu da Língua Portuguesa.

Infelizmente este museu de um dos temas que mais apaixona os brasileiros decepciona quando tentamos nos aprofundar nos conteúdos.

A exposição de longa duração é dividida em três eixos: história, emoção e diversão. Porém parece prezar essencialmente pelos últimos dois, emocionando e divertindo o seu público.

Sala Exaltação. Foto: Luciano Mattos Bogado

Você pode então questionar esta autora: mas um museu não pode divertir? Pode, é claro. Mas se limitar ao entretenimento é oferecer pão e circo a semelhança dos romanos: desviando a atenção do povo para o seu direito a educação e ao questionamento. Uma sociedade desacostumada a refletir e a questionar, aceita com muito mais facilidade as imposições que lhe são feitas por seus governantes. 

Você pode então argumentar: ah, mas tem muito conteúdo histórico no museu! Fato. Não há dúvidas de que existe conteúdo histórico em excesso na sua exposição de longa duração. E essa é uma outra estratégia interessante dos museus recentes. Oferecer informações em excesso. E neste excesso o visitante se perde, o individual se torna abstrato e é desvalorizado em função do coletivo.

Alguns exemplos bastante significativos são vistos neste museu, em especial na seqüência de salas do eixo história: Origens, Heróis e Sala das Copas. 

Sala Origens. Foto: Luciano Mattos Bogado
Sala Heróis. Foto: Luciano Mattos Bogado
Sala das Copas. Foto: Juan Guerra

Em todas elas se desvia o foco do individual para o coletivo. Se reforça o lugar comum do povo brasileiro como um povo mestiço e que a riqueza do povo viria desta mestiçagem, ignorando todas as questões raciais nada poéticas que enfrentamos no século XXI.

Ignora-se as derrotas como fruto do fortalecimento individual e coletivo. Todo o negativo é apagado e o visitante tem o seu senso crítico e argumentativo.

No artigo “A imagem como substituto do patrimônio material: a fotografia como desvalorização do objeto”, apresentado no “5º seminário internacional museografia e arquitetura de museus: fotografia e memória”, descrevo mais detalhadamente, sala a sala, como essas estratégias se desenvolvem. 

Outra questão relevante se deve à denominação museu. Se esse espaço tivesse chamado de Centro Cultural do Futebol ou ainda “Futebol Experience” (fazendo uma analogia direta ao CampNou Experience que conta a história do time do Barcelona) ele teria uma responsabilidade menor.

Já um museu, em sua denominação original e plena, tem a responsabilidade de ser um centro de pesquisa que exibe em suas exposições os resultados desta pesquisa. O Museu do Futebol, neste sentido, foi feito do avesso: primeiro se criou a exposição e depois das portas abertas e o museu em funcionamento, se começou a produzir um  plano museológico. Como diz uma funcionária do próprio museu: “Tivemos que trocar as rodas com o carro andando”.

No artigo deste blog:  “Museus: para que e para quem?” é feita uma descrição detalhada de como o Conselho Internacional de Museus (ICOM) define como museu. 

Os questionamentos finais então deixo para você, o meu leitor refletir tentar responder:

  • Vale a pena gastar aproximadamente 40 milhões de reais para emocionar o público?
  • Eu acredito que a exposição tenha valido quando você sai do museu com vontade de conhecer mais sobre o assunto, de saber mais. E você? Concorda com isso? Se não, qual a razão de ser de um museu?
  • A questão racial no Brasil, tão presente no futebol, pode ser deixada de lado em virtude de um espetáculo? Ou no futebol não devemos pensar nisso?
  • Seria mais um museu em que os apagamentos históricos são evitados para não “incomodar” o público? Mas não são justamente esses “incômodos” que trazem transformações sociais importantes? E não é o museu um ligar-se educação não formal que tem a liberdade de trazer isso a tona?

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Desvallées

André Desvallées tem um capítulo dentro do livro Manuel de muséographie: petit guide à l’usage des responsables de musée (Manual de museografia: pequeno guia para uso dos responsáveis pelo museu), que define de maneira muito competente certos termos referente ao universo dos museus, entre eles: Expografia, Expologia, Museografia e Museologia.

Eu só conheço a versão em francês deste livro, mas talvez haja alguma tradução para o inglês ou espanhol. Se alguém conhecer, me avise que eu posto aqui!

Da versão em francês, segue a referência bibliográfica completa:

DESVALLÉES, Andre. Cent quarante termes muséologiques ou petit glossaire de l’exposition. In: BARY, Marie-Odile; TOMBELEM, Jean-Michel (Dir.). Manuel de muséographie: petit guide à l’usage des responsables de musée. Haute-Loire: Séguier, 1998.