3 exemplos de porque os museus devem repensar a política de selfies

Mesmo antes do fechamento e reabertura dos museus, havia um grande dilema em relação a fotos e selfies tiradas em frente as obras: preservar a integridade das obra em detrimento do crescimento do público ou permitir a divulgação dos museus nas redes sociais através de fotos e selfies e correr o risco da sua destruição?

Antes das redes sociais propiciarem a divulgação dos museus e gerar a atração do público, a preservação das obras era a prioridade. Se quiser uma recordação, compre na lojinha.

Muitos museus proibiam fotos por inúmeras razões sem medo, desde a preservação da obra até a forma como atrapalhavam o fluxo das exposições, como era o caso do Museu do Futebol no Brasil, em 2009, quando entrevistei Daniela Alfonsi, hoje diretora técnica do museu.

Depois da popularização das selfies em redes sociais, os museus se encontram em uma situação delicada: claramente há prejuízos em permiti-las – seja na destruição do patrimônio ou em outros âmbitos – mas o lucro também é importante, afinal o museu precisa sobreviver. O que fazer então?

Foram inúmeros casos até hoje de visitantes destruindo parcialmente obras ou até derrubando parte de uma exposição para fazer uma selfie.

No dia 31 de julho desse ano ocorreu novamente um incidente, dessa vez na Itália, em que um visitante senta em uma escultura para tirar uma foto e quebra os dedos dos pés da estátua de Paolina Bonaparte, feita há mais de 200 anos pelo escultor Antonio Canova, como mostra o vídeo abaixo:

Escultura de Paolina Bonaparte, de Antonio Canova (1757-1822), que teve 3 dedos dos pés quebrados por um turista que se sentou para fazer uma foto.

Neste outro episódio em 2017, uma visitante destrói uma instalação em Nova Iorque, “14h Factory”, gerando um efeito dominó impressionante.

Em 2016, um brasileiro derrubou uma escultura em madeira de “São Miguel” do século XVIII.

Escultura derrubada por um turista brasileiro em Lisboa.

Esses são os exemplos mais conhecidos e mais graves. Mas a política de permitir as selfies e fotos para divulgar os museus causa prejuízos em quase todos eles.

Fica então a questão: Será que existe um “caminho do meio” entre a permissão de selfies e a preservação do patrimônio ou vamos ter que optar por um deles?

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Crítica Expográfica é escrito por Renata Figueiredo Lanz, que, além de produtora de conteúdo neste blog também é diretora de criação da Renata Figueiredo | design gráfico + expografia . Para entrar em contato envie um e-mail para renata@refigueiredo.com.br

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#3 Museus, exposições e arte: 8 cursos gratuitos

Fizemos uma seleção de 8 cursos sobre museus, exposições e arte oferecidos gratuitamente durante a quarentena.

EXPOGRAFIA

O Curso “Para fazer uma exposição” faz parte do programa Saber Museu do Ibram (Instituto Brasileiro de museus). Disponível apenas no formato podcast no momento. disponível em 4 módulos:

  1. O que é uma exposição
  2. Pensando a exposição
  3. Planejando a exposição
  4. Executando a exposição

MUSEUS

O Curso museus e patrimônio, da UFRGS, trata de uma ampla gama de assuntos que envolvem o museu.

• Módulo I: definições teóricas de museu, histórico e políticas.
• Módulo II: planejamento e gestão estratégica, sustentabilidade e inovação em museus e leis de financiamento da cultura.
• Módulo III: relações entre museus e economia, sobre a administração de museus como empresas e também sobre modelos de negócios e economia digital.
• Módulo IV: Marketing social, posicionamento estratégico, ferramentas de comunicação e estratégias de internacionalização para museus e patrimônio.
• Módulo V: utilização de tecnologias nos museus, a inovação tecnológica e formatos de acesso virtual.

ARTE

A Casa do Saber está com acesso liberado até 30/04/2020, inicialmente. Quatro cursos sobre arte bastante interessantes, vale fazer o cadastro e entrar nos links abaixo.

  1. Caravaggio
  2. Leonardo da Vinci
  3. Introdução a história da arte
  4. Arte contemporânea nos dias de hoje

O MoMa possui diversos cursos bastante interessantes e gratuitos, dos quais se destacam:

  1. What is Contemporary Art?
  2. Art & Activity: Interactive Strategies for Engaging with Art

MAIS CURSOS, PALESTRAS E LIVES.: toda semana publicamos nos stories do nosso Instagram @criticaexpografica os mais interessantes de cada semana.

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#1 Museus e quarentena: o melhor da semana

Depois de quase 1 mês em casa, você que é apaixonado por museus, estuda, trabalha ou visita com frequência, já está sentindo falta de visitas, conteúdos, palestras, etc. Então, enquanto durar a quarentena, farei uma curadoria de conteúdo disponibilizando o melhor para casa semana.

13/03 – SEGUNDA-FEIRA às 18:00
MASP LIVE NO INSTAGRAM

O diretor artístico Adriano Pedrosa e a curadora adjunta de histórias Lilia Schwaecz conversam sobre os conceitos de histórias que deram origem à 3 exposições em 2016 e uma em 2018: Histórias da Infância, da sexualidade e histórias afro-atlânticas além de História das mulheres e histórias feministas. Acessar o perfil @masp no Instagram.


14/03 – TERÇA-FEIRA
Baixar GOOGLE ARTS & CULTURE E VER A EXPOSIÇÃO “A ARTE DE EXPOR ARTE”

A exposição “A arte de expor arte”, sob curadoria de Regiane Cintrão, apresenta um texto muito interessante que envolve a história das exposições, expografia e museografia no Brasil e no mundo. Bastante conciso, o texto dá um panorama das mudanças ocorridas no âmbito da expografia, desde o tempo em que a arte de expor ficava a critério do próprio artista até o momento em que os arquitetos e designers começam a transformar este panorama. Pode ser acessado no computador também, através do link: https://artsandculture.google.com/exhibit/a-arte-de-expor-arte/sgICVbQQ8IsKJA

16/04 – QUINTA-FEIRA- 10:30 às 12:00
Curso online: filosofia e arte contemporânea: Louise Bourgeois.

Aula dada pela incrível Magnólia Costa, online, através do MAM. Valor da aula: R$ 105,00. Conheci Magnólia em um curso sobre arquitetura de museus e posso afirmar que ela é uma excelente professora. Não conheço as aulas sobre filosofia, mas acredito que sejam tão boas quanto, pois ela é dotada de conhecimentos profundos sobre o que fala, além de um humor bastante peculiar. https://mamcursos.byinti.com/#/ticket/eventInformation/G7snSQU7HhmqjK47f8Wc

17/04 – 19-04 – SEXTA-FEIRA E FINAL DE SEMANA
Curso GRATUITO sobre Velazquez no Museu do Prado.

Conta a história da criação do edifício e a suas polêmicas até a transformação em museu público. Considera Velazquez como o pintor dos pintores neste museu que se considerada mais de artistas do que de história da arte.

Sobre a usabilidade: escolher a versão gratuita do curso (o valor é somente para quem deseja um certificado). Para quem não entende tão bem espanhol, recomendo fortemente assistir em versão mais lenta. (clicar em detalhes no canto direito do vídeo e escolher a velocidade de reprodução 0.75).

https://miriadax.net/web/velazquez-en-el-museo-del-prado-3-edicion-/inicio

CURSO VELAZQUEZ

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Como acertar na iluminação da exposição?

Já fiz diversas críticas aqui em que eu falava sobre a iluminação de uma exposição que visitei. Mas, afinal, o que é uma boa iluminação em exposições? Depende.

Uma vez ouvi: aquele que não sabe usar iluminação em exposições, melhor utilizar luz difusa. Ou seja, seria o “pretinho básico”, em que se tem poucas chances de erro. Mas, em um universo com dezenas de opções, porque não ir além?

E então, quais são as alternativas? Vamos por partes: temos, a princípio, duas opções: luz natural e artificial.

A luz natural é a luz do dia, do sol, enfim, a “luz de Deus”. A grande vantagem da luz natural é que ela tem um excelente IRC (índice de reprodução de cor). A desvantagem é que ela varia ao longo do dia e, obviamente, não existe a noite. Então, podemos contar com ela, mas não pode ser a única fonte de luz. Também deve-se tomar cuidado com a forma como ela incide sobre as obras de arte, por exemplo, para não causar danos a estas.

Quando incide sem filtros, a luz natural direta, incide diretamente sobre o ambiente e provoca sombras e marcas de sol bastante constrastantes e marcadas, como no exemplo abaixo, da Pinacoteca de São Paulo, a Pina.

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Luz natural direta na Pina. Fonte:  revistadecorar.com.br

 

Já a luz natural difusa, conta com um “difusor”, ou seja, um elemento como um vidro ou acrílico com certa opacidade que faça com que os raios não incidam diretamente, mas se difundam. Ela também não está diretamente direcionada para o elemento a ser iluminado.

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Jonh & Mable Ringling Museum of Art Sarasota. Fonte: dispatch.com

 

A luz difusa (seja natural ou artificial) se espalha no ambiente e não gera sombras marcadas, fortes.

A iluminação artificial apresenta uma grande gama de possibilidades:

A Iluminação difusa direta geral, segue o mesmo princípio da natural, só que é produzida por uma fonte artificial de luz (lâmpada).

fonte: http://images.adsttc.com/media/images/5671/c845/e58e/ce6d/b500/0034/medium_jpg/07119_151130-033D.jpg?1450297405
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Iluminação difusa focada: não voltada diretamente para o objeto, tem a sombra mais suave.

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Iluminação de realce: destaca um objeto importante da exposição.

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Iluminação Focal Mista: no caso abaixo temos a combinação entre luz difusa e luz focada.

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Estes são apenas alguns dos tipos de iluminação possíveis. Em geral, em uma boa exposição são combinados diversos tipos de iluminação. Algumas focando ou realçando objetos e algumas fazendo a iluminação geral.

No próximo post, falaremos um pouco sobre os problemas que ocorrem na iluminação de exposições.

 

Para saber mais, veja alguns aspectos mais técnicos sobre iluminação:

http://angelaabdalla.blogspot.com.br/2010/07/iluminacao-de-museus.html

Clique para acessar o iluminacao_de_museus_galeias_e_objetos_de_arte.pdf

 

 

 

Deutscher Werkbund: uma exposição sobre exposições

Cartaz Deutsher Werkbund
Cartaz Deutsher Werkbund

A Exposição “Deutsher Werkbund – 100 anos de Arquitetura e Design na Alemanha” , no Centro Cultural São Paulo, pode ser considerada uma exposição sobre exposições.

Com conteúdo bastante interessante, ela mostra o crescimento deste movimento e as mudanças que ocorreram nele ao longo da história e também por consequência dos acontecimentos de cada época. Ao percorrer os inúmeros painéis de conteúdo, vê-se que cada painel fala de uma exposição representativa feita por aquele movimento para divulgar as suas inovações. E algumas delas traziam inovações nas suas formas de expor, como a exposição no Grand Palais em 1930, feita por Walter Gropius, na qual o arquiteto e antigo diretor da Bauhaus deu destaque a dois pequenos apartamentos – ou seja, uma montagem cenográfica – apresentando uma nova forma de habitar.

Diz o painel da exposição: “Para o enorme sucesso da muito admirada mostra contribuiu, em especial, o novo modo de apresentação. A partir de uma rampa com várias mudanças de direção, constituída por uma grela de aço era possível ver a partir de diferentes níveis, a decoração dos diferentes interiores das cinco salas. Os objetos estavam parcialmente empilhados uns sobre os outros nas paredes, fotografias de grandes dimensões foram montadas suspensas em vários ângulos de acordo com a linha de visão do observador. A percepção alterada e a encenação simultânea de arquitetura e objetos do quotidiano davam uma maior profundidade a impressão de se poder lançar um olhar sobre o mundo da habitação e da vida de um futuro determinado pela técnica, a mobilidade e a internacionalidade. A mostra, de uma modernidade radical, revelou não só uma atitude totalmente diferente da do anfitrião, mas também desencadeou uma discussão na França sobre as diferenças nacionais e os valores culturais”.

 

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Desta maneira, a exposição “Deutsher Werkbund – 100 anos de Arquitetura e Design na Alemanha”, vai se desenvolvendo e mostrando o quanto foram importantes as exposições para o crescimento e divulgação do movimento alemão. Com um conteúdo extremamente interessante para alguém que ama design e também exposições, a mostra lembra um pouco o Deutshes Museum, em Monique pela maneira que compõe o ambiente. E lembra este primeiro museu também pela exaustão causada bem antes do final da exposição.

Apesar de ocupar um pequeno espaço, os inúmeros paineis (mais de 50) apresentando o conteúdo, parecem apresentar a forma de um livro. Além disso, os textos em português estão na parte inferior, o que nos obriga a dobrar a cabeça para ter que lê-los. Fato esse que, claro, não faria tanta diferença se fossem um ou 2 painéis. O cansaço físico e intelectual é enorme e, ao fim da exposição o visitante está exausto. Mesmo que não tenha conseguido ler mais da metade dos painéis.

 

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Porém, como parece ser uma expo itinerante ela tem algumas caracteristicas interessantes: os paineis com imagens, são de alta qualidade, protegidos por um vidro e com legendas em duas línguas (alemão e inglês). Já os painéis com textos são claramente adaptados aos países em que estão. De qualidade inferior, mas seguindo a mesma linguagem e provavelmente o mesmo padrão de 2 linguas.

A imersão na exposição ocorre aos poucos, ainda na parte de fora da sala, com a contextualização histórica. Sem grandes pirotecnias conta a história de maneira precisa e direta. Bem alemã.

Mas não há dúvidas de que, pelo menos comigo, a exposição cumpriu o seu papel: despertar o interesse pelo assunto e fazer com que se continue buscando mais conhecimento sobre o assunto fora da exposição. Em breve, quem sabe, consigo postar aqui sobre as expos do Deutsher Werkbund.

 

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A cidade como espaço expositivo | Projeto Giganto

Projeto Giganto. foto: http://projetogiganto.com
Projeto Giganto. foto: http://projetogiganto.com

O uso da cidade como espaço de exposições não é uma novidade, mas sempre podemos nos surpreender com as novas iniciativas.

Desta vez temos o Projeto Giganto, em que gigantografias são cololocadas nas colunas do Minhocão, usando a arquitetura da cidade como suporte para a exposição fotográfica.

Projeto Giganto. foto: http://projetogiganto.com
Projeto Giganto. foto: http://projetogiganto.com

Segundo o site do projeto (projetogiganto.com): “A proposta é uma fotografia ativa, onde obra e espectador se confundem. Cada Giganto é único, pois o local onde será instalado inspira o tema e conduz a pesquisa pelos personagens. Diluindo barreiras entre arte, antropologia visual e intervenção urbana, o projeto propõe captar a potência dos olhares e revelar a essência dos retratados. ”

A iniciativa é muito interessante como projeto de democratização do espaço expositivo – ou da arte – já que leva esta até o público e não o contrário. É interessante também como crítica, já que, aumentando significativamente o rosto dos moradores e comerciantes da região, somos obrigados a olhar para as pessoas e, principalmente, para as suas expressões faciais. Ou seja, temos que olhar para algo que, cada vez mais, ignoramos: o outro.

Projeto Giganto. foto: http://projetogiganto.com
Projeto Giganto. foto: http://projetogiganto.com

Museu Guimet: é importante orientar o visitante?

fonte: Flickr. fotografo: Hanuman.
Musée Guimet. fonte: Flickr. fotografo: Hanuman.

O Museu Guimet, em Paris, é um museu de artes asiáticas. Foi criado originalmente por Emile Guimet para ser um museu das religiões, em especial, das asiáticas.

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Museu Guimet. Biblioteca de Emile Guimet. Fonte: Flickr.

 

O museu oferece gratuitamente um audioguia e um mapa para fazer o percurso. Pegando o audioguia e entrando no espaço expositivo, o aparelho sugere um percurso.

Olhando no mapa, eu, como visitante, já estava perdida: este percurso não corresponde à entrada da exposição, seguindo em frente – como na maioria dos museus – e começa então uma busca do visitante por encontrar onde seria este suposto início, pela India. Algo confuso, para quem entra e espera seguir em frente, atraído pelas estátuas em pedra.

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Museu Guimet. fonte: site do museu.

Persisti. Mas não consegui saber qual a conexão ou estabelecer uma continuidade entre as salas, muito menos definir qual seria o percurso pensado para um suposto visitante modelo – definição proposta pelo autor Jean Davallon, que diz existir, durante o processo de produção de uma exposição, a figura de um visitante dito “modelo” usado para pensar e prever os movimentos esperados de um visitante durante a sua visita a uma exposição. O visitante modelo ajuda a pensar a lógica de construção de uma exposição.

Não sou antropóloga, arqueóloga ou estudo ciência afins. Sou apenas uma mera visitante de exposições, que precisa (sim, precisa!), como a maioria dos seres humanos (os mortais, ao certo), entender a lógica e a sequencia de uma exposição quando entra nela ou olha um mapa. Segundo Giulio Carlo Argan, o ser humano tem essa necessidade de ordenar e classificar as informações. Eu, como ser humano, preciso, portanto, dessa idéia.

Analisando então mais minuciosamente a comunicação do museu, me dei conta que no percurso das salas é percebida também a abundância de informações, seja na entrada das salas ou nas placas auxiliares. Porém, muitas vezes, a organização e sequência dessas informações não é clara.

Percorrendo o espaço e observando os dispositivos comunicacionais, é possível perceber alguns pontos interessantes:

• as placas de legenda tem um interessante suporte que permite uma boa flexibilidade. Caso as peças sejam movidas de lugar, eles podem facilmente fazer a alteração. É uma pena que eu tenha perdido as minhas fotos da visita, pois este recurso realmente é interessante. Segue abaixo uma foto encontrada no Flickr, que mostra um pouco como é este recurso.

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Placas de legendas no Museu Guimet. foto: Flickr. fotografo: Jerry Akieboy.

• o ambiente que fala de Mianmar, apesar da pequena quantidade de peças, destaca-se por um interessante artificio utilizado para “quebrar”  a sequência do percurso: um pequeno ambiente construido em madeira, que mostra ao visitante que está passando por uma outra cultura, mas não perde a harmonia do ambiente.
Porém o que fica para o visitante deste museu – apesar da abundância de placas de sinalização e informação sobre o conteúdo das salas – é a grande sensação de estar no caminho errado. De repente você se descobre no início da China mas, em um momento anterior, achou que estava do lado errado do budismo (pois a cronologia percorrida foi dos dias atuais ao início dos temos).
Uma outra confusão comum, se dá com os idiomas. Comum em alguns museus franceses, diga-se de passagem, já que o Musée du quai Branly sofre do mesmo mal. As placas informativas estão todas em francês. Já os textos sobre de contextualização histórica, estão em francês e inglês e francês. E, finalmente, o audioguia é mais rico em idiomas, mas ignora a língua portuguesa.
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A experiência do Inhotim: um deleite dos sentidos

Jardins do Inhotim vistos atráves do grande caleidoscópio.
http://www.matraqueando.com.br/tag/inhotim/

Passei alguns anos querendo conhecer este lugar, sobre o qual nunca ouvi nenhuma crítica negativa, muito pelo contrário: os comentários são sempre apaixonados.

Finalmente surgiu uma oportunidade de conhecê-lo, numa manhã ensolarada de um feriado. Como boa parte dos percursos do museu são a céu aberto, o fato de estar sol colaborou de maneira definitiva na experiência. Caso estivesse chovendo, a experiência certamente seria diferente. Diferente, não pior ou melhor.

O percurso de Belo Horizonte ao Inhotim é longo. Não tanto pela quilometragem, que é de menos de 70km, mas sim pela estreita, sinuosa e arborizada estrada. A ansiedade torna ainda cada quilômetro mais comprido.

Por outro lado, este percurso faz parte de um rito de passagem. O francês Jean Davallon cita inúmeras vezes a necessidade de um rito de passagem para a entrada em uma exposição. O visitante deve passar por uma transformação antes de imergir no universo expográfico e assim conseguir viver parte desta experiência. Pois bem, este longo percurso em um simpático e arborizado faz isso: um rito de passagem, onde o visitante vai, pouco a pouco, acostumando os seus olhos a uma nova realidade.

Chegando finalmente ao museu é possível perceber três das grandes marcas da experiência: organização, gentileza e facilidade. A sensação de acolhimento é imediata. Uma linda entrada arborizada, direcionada por gentilíssimos funcionários, mostra que você, visitante, entrou em um lugar que vai viver uma experiência realmente diferente.

Você então pega a sua pulseira na portaria e segue para o exuberante museu que, em grande parte, é a céu aberto. Com o mapa em mãos o visitante é informado sobre tudo que há e como chegar aos lugares.

O visitante segue o caminho buscando desvendar o lugar. Percebe-se então mais uma característica interessante do percurso: os pontos focais. Você então começa a ser atraído, continuamente, para a próxima obra, para o próximo pavilhão, etc. Se não tiver um mapa em mãos, ainda assim será “guiado” de uma obra para a outra, fazendo um percurso expográfico em que ela não se perde mas sim é constantemente estimulado a seguir em frente. Mesmo quando entra em uma mata fechada, as trilhas te conduzem até o próximo ponto focal.

Apesar de acreditar que está seguindo um caminho de acordo com a sua vontade e aleatório, acredite: você está sendo guiado. Isso faz parte do planejamento da exposição. Qualquer exposição bem feita é conduzida desta maneira. Você não precisa de guias, sinalização excessiva por todos os lados: os pontos focais simplesmente te conduzem à próxima informação.

A experiência de entrar e sair dos pavilhões também é única. Uma quebra acontece na entrada e saída de cada pavilhão, fazendo com que o visitante viva uma experiência sensorial que se alterna a cada movimento entre os pavilhões.

Esses movimentos de contração e expansão são muito importantes e interessantes para um visitante. Quando você entra no ambiente – em geral silencioso – é um movimento de contração, de absorção de informações. Quando sai, ocorre uma expansão, na qual é possível absorver as informações recebidas, processá-las, eventualmente descansar o corpo e a mente e ir para o próximo. Jean Davallon chama este movimento de jogo de retenções.

O apelo sensorial é, sem dúvida, uma das grandes características expográficas do Inhotim.

As obras de arte, arquitetura dos pavilhões, esculturas a céu aberto e o paisagismo de de Burle Marx fazem um interessante jogo visual. O visitante se sente estimulado a entrar em um pavilhão, apreende o seu conteúdo e, saindo deles, descansa o olhar em meio a natureza.

Qual a intenção disso?

Enquanto o visitante descansa os olhos, ele consegue também refletir, pensar sobre o que viu, fazer conexões, antes de chegar ao próximo ponto focal, que vai novamente trazer novos conhecimentos para o cérebro e possibilitar novas conexões. Ou seja, o espaço entre um ponto e outro permite ao visitante atingir o principal objetivo de um museu: levar a reflexão.

A mesma quebra ocorre também nos outros sentidos: a audição estimulada pela obras sonoras descansa ao som da mata. A dura sensação tatil do reto concreto dos edificíos, ou a frieza do metal das esculturas a céu aberto se contrapõe à irregularidade e ao calor dos trocos das árvores. O mesmo ocorre com as variações olfativas percebidas a cada entrada e saída.

E o paladar? Bom, ai é que o Inhotim mostra a sua característica de vender facilidades: o mapa já indica, mas o visitante certamente vai “tropeçar” em vários pontos de alimentação. Todos marcados pela elegância. Seja no restaurante da entrada onde é possível saborear longamente um buffet ou no ponto de hot-dog em que o visitante come rapidamente o seu lanche embaixo de uma frondosa árvore, o Inhotim oferece uma gama de opções para o visitante saborear aquilo que lhe convier. Sempre em um local agradável, pois a experiência do paladar também vem seguida de outras igualmente agradáveis e acolhedoras.

Para finalizar a questão da experiência resta fechar com a qualidade já citada no início: a facilidade. Um interessante recurso para facilitar a visita são os carrinhos de golf, que percorrem o parque levando os visitantes de um ponto ao outro. São pagos à parte, é claro. Mas trazem conforto, acolhimento, bem-estar.

É certo que toda essa estrutura tem um preço, pago parcialmente pelo visitante. O custo da visita é bastante alto, para padrões de museus brasileiros. Mas vale lembrar que nenhum museu no mundo se sustenta pela bilheteria.

Para finalizar, é importante lembrar que o foco desta análise discute a experiência do visitante e a forma como ele é conduzido e acolhido pelo museu. Discussões políticas, de relevância social ou até mesmo sobre arte serão feitas em outros artigos.

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A cidade como espaço de exposições

Há muitos anos ouço falar de alguns tipos interessantes de propostas de visitas guiadas por exposições a céu aberto na cidade. Ou melhor, da cidade sendo utilizada como pano de fundo para uma grande exposição.

Certa vez um professor de história da arte comentou sobre uma iniciativa em Nova York, em que a pessoa alugaria um audioguia e sairia pela cidade, sabendo sobre os museus, parque, etc. Isso parece ter causado um furor inicial, mas antes que os museus privados tentassem vetar a experiência, perceberam um aumento significativo da sua visitação.

 

Há alguns anos, morando em Paris, percebi a evolução desta intenção: um aplicativo para iPhone que traz diversos tipos de informação sobre o patrimônio. Funcionando associado ao Google Maps, ele pode dizer ao usuário quais são os locais de interesse (monumentos, museus, parques, entre outros) próximos do local onde este visitante se encontra. É possível também escolher roteiros de visita, como, por exemplo, um passeio denominado “Vestígios da Paris da Antiguidade” que envolve museus (como as ruínas dos os banhos romanos do Museu de Cluny), pontes, praças e criptas.

São Paulo então criou no ano passado uma intessante iniciativa neste sentido, chamada “Arte fora do museu”.  Este projeto, que envolve pelo menos um site e um aplicativo para iPhone (não verifiquei as outras possibilidades de smartphones) faz com que a arte pública se torne acessível a qualquer um que esteja conectado a internet.

Foram mapeados grafites, esculturas, murais, prédios e outras obras urbanas espalhadas pelas ruas. Nele, você pode ouvir o artista falando sobre a própria obra ou, por exemplo, um outro arquiteto falando sobre a obra de Oscar Niemeyer.

Segundo Adriana Delorenzo, em “ blog das cidades” este site começou a ser traduzido no ano passado para o inglês, pretendendo ser acessível a turistas estrangeiros. Veja mais em: http://revistaforum.com.br/blogdascidades/2012/07/10/arte-fora-do-museu-mapeia-obras-que-estao-nas-ruas-de-sao-paulo/

O projeto, uma iniciativa de Felipe Lavignatti e Andre Deak, nos faz ter um olhar diferente sobre a cidade. Podemos parar alguns minutos no meio da cidade e descobrir as obras de arte em meio ao caos, nos mostrando que a nossa cidade pode ter um valor cultural muito maior do que supomos.

 

 

A primeira crítica: Museu do Futebol

A primeira crítica não poderia ser sobre outro espaço que não o Museu do Futebol dado que foi um dos principais objetos de pesquisa da autora deste blog na sua dissertação de mestrado: “Expografia contemporânea no Brasil: a sedução das exposições cenográficas”.

Inaugurado em 2008, o Museu do Futebol que segue um padrão internacional de exposições blockbusters, que em geral contam com uma equipe de produtores de exposições e cenografia renomados e, no caso do Brasil, em geral é financiado parcialmente pela fundação Roberto Marinho.

Só no Brasil, há pelo menos dois grandes museus recentes que seguem a mesma narrativa: o Museu do Amanhã e o Museu da Língua Portuguesa.

Infelizmente este museu de um dos temas que mais apaixona os brasileiros decepciona quando tentamos nos aprofundar nos conteúdos.

A exposição de longa duração é dividida em três eixos: história, emoção e diversão. Porém parece prezar essencialmente pelos últimos dois, emocionando e divertindo o seu público.

Sala Exaltação. Foto: Luciano Mattos Bogado

Você pode então questionar esta autora: mas um museu não pode divertir? Pode, é claro. Mas se limitar ao entretenimento é oferecer pão e circo a semelhança dos romanos: desviando a atenção do povo para o seu direito a educação e ao questionamento. Uma sociedade desacostumada a refletir e a questionar, aceita com muito mais facilidade as imposições que lhe são feitas por seus governantes. 

Você pode então argumentar: ah, mas tem muito conteúdo histórico no museu! Fato. Não há dúvidas de que existe conteúdo histórico em excesso na sua exposição de longa duração. E essa é uma outra estratégia interessante dos museus recentes. Oferecer informações em excesso. E neste excesso o visitante se perde, o individual se torna abstrato e é desvalorizado em função do coletivo.

Alguns exemplos bastante significativos são vistos neste museu, em especial na seqüência de salas do eixo história: Origens, Heróis e Sala das Copas. 

Sala Origens. Foto: Luciano Mattos Bogado
Sala Heróis. Foto: Luciano Mattos Bogado
Sala das Copas. Foto: Juan Guerra

Em todas elas se desvia o foco do individual para o coletivo. Se reforça o lugar comum do povo brasileiro como um povo mestiço e que a riqueza do povo viria desta mestiçagem, ignorando todas as questões raciais nada poéticas que enfrentamos no século XXI.

Ignora-se as derrotas como fruto do fortalecimento individual e coletivo. Todo o negativo é apagado e o visitante tem o seu senso crítico e argumentativo.

No artigo “A imagem como substituto do patrimônio material: a fotografia como desvalorização do objeto”, apresentado no “5º seminário internacional museografia e arquitetura de museus: fotografia e memória”, descrevo mais detalhadamente, sala a sala, como essas estratégias se desenvolvem. 

Outra questão relevante se deve à denominação museu. Se esse espaço tivesse chamado de Centro Cultural do Futebol ou ainda “Futebol Experience” (fazendo uma analogia direta ao CampNou Experience que conta a história do time do Barcelona) ele teria uma responsabilidade menor.

Já um museu, em sua denominação original e plena, tem a responsabilidade de ser um centro de pesquisa que exibe em suas exposições os resultados desta pesquisa. O Museu do Futebol, neste sentido, foi feito do avesso: primeiro se criou a exposição e depois das portas abertas e o museu em funcionamento, se começou a produzir um  plano museológico. Como diz uma funcionária do próprio museu: “Tivemos que trocar as rodas com o carro andando”.

No artigo deste blog:  “Museus: para que e para quem?” é feita uma descrição detalhada de como o Conselho Internacional de Museus (ICOM) define como museu. 

Os questionamentos finais então deixo para você, o meu leitor refletir tentar responder:

  • Vale a pena gastar aproximadamente 40 milhões de reais para emocionar o público?
  • Eu acredito que a exposição tenha valido quando você sai do museu com vontade de conhecer mais sobre o assunto, de saber mais. E você? Concorda com isso? Se não, qual a razão de ser de um museu?
  • A questão racial no Brasil, tão presente no futebol, pode ser deixada de lado em virtude de um espetáculo? Ou no futebol não devemos pensar nisso?
  • Seria mais um museu em que os apagamentos históricos são evitados para não “incomodar” o público? Mas não são justamente esses “incômodos” que trazem transformações sociais importantes? E não é o museu um ligar-se educação não formal que tem a liberdade de trazer isso a tona?

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