Porque você deve pensar no fluxo de uma exposição antes de projetá-la

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Durante o desenvolvimento de um projeto expositivo, estudar o percurso da exposição é fundamental para criar uma narrativa e entender em que sequência o visitante deve, idealmente, receber as informações.

No artigo “Fundamentos da expografia em 1940”, você pode ver como Herbert Bayer já se importava com o percurso expositivo e o caminho que o visitante iria percorrer.

Porém pensar o fluxo da exposição vai além da proposição de um percurso em que os idealizadores do projeto expositivo tentam prever os passos do visitante. Estudar o fluxo significa conhecer o museu e o seu público e prepara-lo para receber essas pessoas adequadamente.

Somente a experiência, observação e pesquisas constantes do fluxo de visitantes pode dar uma noção precisa de quem é o seu público e como ele circula dentro do espaço.

Alguns museus, como o do Futebol, em determinados períodos, proibiram os seus visitantes de fotografar pois isso atrapalhava tremendamente o fluxo das pessoas na exposição. Hoje, com as redes sociais, todos os museus que proibiam fotos estão revendo os seus conceitos, dado que elas geram marketing gratuitamente. Nesse sentido, aqueles museus que já tinham questões com fluxo, a situação se agrava.

Alguns pontos que devem ser observados no estudo de fluxos:

  • Quantidade de visitantes em cada sala e salas que mais atraem visitantes e na qual eles permanecem mais tempo.
  • Visitantes com filhos pequenos e carrinhos de bebês: se o fluxo não for pensado considerando esses indivíduos, apenas um carrinho de bebê pode entupir uma sala.
  • Pessoas com necessidades especiais: não só cadeirantes, mas idosos, deficientes visuais e todo o tipo de necessidade deve ser considerada. Essas pessoas podem necessitar um tempo de visitação maior que a média e, se forem desconsideradas, isso pode gerar transtornos para elas e para os outros visitantes.
  • Instagrammers e afins: não é possível desconsiderar a invasão dos celulares e a necessidade das pessoas de fotografarem as obras. Por mais irritados que alguns curadores possam ficar com o público que vai ao museu apenas para fotografar, eles existem e ocupam um espaço dentro do museu. Devem ser previstos então os seus movimentos e a forma como modificam o fluxo da exposição.

Há alguns anos, entrando no site do Grand Palais, em Paris, era possível ver um gráfico que define os horários de maior ou menor visitação de determinada exposição:

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Assim, o museu te informa o fluxo de pessoas para que você se programe para visitá-lo no horário mais conveniente para você. Conhece o fluxo de todas as exposições e certamente conhece também o seu público. E mais: prepara o seu público para o que ele vai encontrar. Permite a pessoa com o carrinho de bebê se planejar para um horário mais calmo. Ou a pessoa que não tem o carrinho de bebê se prepara para encontrá-lo possivelmente no meio do caminho, junto com mais uma centena de pessoas.

Logicamente saber quantas pessoas circulam pela exposição é muito mais fácil do que estudar o seu público. Mas o fato do museu informar o seu público de qual o fluxo de pessoas, mostra que ele conhece o seu público e sabe que, dentro dele, existem pessoas que se programam com antecedência para visitar e se tiverem flexibilidade de tempo, escolherão o seu horário.

Sendo assim, conhecer o público é um estudo que leva tempo e depende da experiência dos profissionais dentro do museu. Um museu novo ainda não conhece quem é o seu público. Já um museu mais antigo com profissionais experientes deveria conhecê-lo e saber prever qual espaço destinar a cada sala e como as pessoas se comportarão dentro da exposição.

Veja um exemplo de exposição que mostra como o descaso com o estudo de fluxos afeta diretamente a experiência do usuário: “4 erros expográficos fatais que ofuscaram Caravaggio em BH“.

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A experiência do Inhotim: um deleite dos sentidos

Jardins do Inhotim vistos atráves do grande caleidoscópio.
http://www.matraqueando.com.br/tag/inhotim/

Passei alguns anos querendo conhecer este lugar, sobre o qual nunca ouvi nenhuma crítica negativa, muito pelo contrário: os comentários são sempre apaixonados.

Finalmente surgiu uma oportunidade de conhecê-lo, numa manhã ensolarada de um feriado. Como boa parte dos percursos do museu são a céu aberto, o fato de estar sol colaborou de maneira definitiva na experiência. Caso estivesse chovendo, a experiência certamente seria diferente. Diferente, não pior ou melhor.

O percurso de Belo Horizonte ao Inhotim é longo. Não tanto pela quilometragem, que é de menos de 70km, mas sim pela estreita, sinuosa e arborizada estrada. A ansiedade torna ainda cada quilômetro mais comprido.

Por outro lado, este percurso faz parte de um rito de passagem. O francês Jean Davallon cita inúmeras vezes a necessidade de um rito de passagem para a entrada em uma exposição. O visitante deve passar por uma transformação antes de imergir no universo expográfico e assim conseguir viver parte desta experiência. Pois bem, este longo percurso em um simpático e arborizado faz isso: um rito de passagem, onde o visitante vai, pouco a pouco, acostumando os seus olhos a uma nova realidade.

Chegando finalmente ao museu é possível perceber três das grandes marcas da experiência: organização, gentileza e facilidade. A sensação de acolhimento é imediata. Uma linda entrada arborizada, direcionada por gentilíssimos funcionários, mostra que você, visitante, entrou em um lugar que vai viver uma experiência realmente diferente.

Você então pega a sua pulseira na portaria e segue para o exuberante museu que, em grande parte, é a céu aberto. Com o mapa em mãos o visitante é informado sobre tudo que há e como chegar aos lugares.

O visitante segue o caminho buscando desvendar o lugar. Percebe-se então mais uma característica interessante do percurso: os pontos focais. Você então começa a ser atraído, continuamente, para a próxima obra, para o próximo pavilhão, etc. Se não tiver um mapa em mãos, ainda assim será “guiado” de uma obra para a outra, fazendo um percurso expográfico em que ela não se perde mas sim é constantemente estimulado a seguir em frente. Mesmo quando entra em uma mata fechada, as trilhas te conduzem até o próximo ponto focal.

Apesar de acreditar que está seguindo um caminho de acordo com a sua vontade e aleatório, acredite: você está sendo guiado. Isso faz parte do planejamento da exposição. Qualquer exposição bem feita é conduzida desta maneira. Você não precisa de guias, sinalização excessiva por todos os lados: os pontos focais simplesmente te conduzem à próxima informação.

A experiência de entrar e sair dos pavilhões também é única. Uma quebra acontece na entrada e saída de cada pavilhão, fazendo com que o visitante viva uma experiência sensorial que se alterna a cada movimento entre os pavilhões.

Esses movimentos de contração e expansão são muito importantes e interessantes para um visitante. Quando você entra no ambiente – em geral silencioso – é um movimento de contração, de absorção de informações. Quando sai, ocorre uma expansão, na qual é possível absorver as informações recebidas, processá-las, eventualmente descansar o corpo e a mente e ir para o próximo. Jean Davallon chama este movimento de jogo de retenções.

O apelo sensorial é, sem dúvida, uma das grandes características expográficas do Inhotim.

As obras de arte, arquitetura dos pavilhões, esculturas a céu aberto e o paisagismo de de Burle Marx fazem um interessante jogo visual. O visitante se sente estimulado a entrar em um pavilhão, apreende o seu conteúdo e, saindo deles, descansa o olhar em meio a natureza.

Qual a intenção disso?

Enquanto o visitante descansa os olhos, ele consegue também refletir, pensar sobre o que viu, fazer conexões, antes de chegar ao próximo ponto focal, que vai novamente trazer novos conhecimentos para o cérebro e possibilitar novas conexões. Ou seja, o espaço entre um ponto e outro permite ao visitante atingir o principal objetivo de um museu: levar a reflexão.

A mesma quebra ocorre também nos outros sentidos: a audição estimulada pela obras sonoras descansa ao som da mata. A dura sensação tatil do reto concreto dos edificíos, ou a frieza do metal das esculturas a céu aberto se contrapõe à irregularidade e ao calor dos trocos das árvores. O mesmo ocorre com as variações olfativas percebidas a cada entrada e saída.

E o paladar? Bom, ai é que o Inhotim mostra a sua característica de vender facilidades: o mapa já indica, mas o visitante certamente vai “tropeçar” em vários pontos de alimentação. Todos marcados pela elegância. Seja no restaurante da entrada onde é possível saborear longamente um buffet ou no ponto de hot-dog em que o visitante come rapidamente o seu lanche embaixo de uma frondosa árvore, o Inhotim oferece uma gama de opções para o visitante saborear aquilo que lhe convier. Sempre em um local agradável, pois a experiência do paladar também vem seguida de outras igualmente agradáveis e acolhedoras.

Para finalizar a questão da experiência resta fechar com a qualidade já citada no início: a facilidade. Um interessante recurso para facilitar a visita são os carrinhos de golf, que percorrem o parque levando os visitantes de um ponto ao outro. São pagos à parte, é claro. Mas trazem conforto, acolhimento, bem-estar.

É certo que toda essa estrutura tem um preço, pago parcialmente pelo visitante. O custo da visita é bastante alto, para padrões de museus brasileiros. Mas vale lembrar que nenhum museu no mundo se sustenta pela bilheteria.

Para finalizar, é importante lembrar que o foco desta análise discute a experiência do visitante e a forma como ele é conduzido e acolhido pelo museu. Discussões políticas, de relevância social ou até mesmo sobre arte serão feitas em outros artigos.

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Desvallées

André Desvallées tem um capítulo dentro do livro Manuel de muséographie: petit guide à l’usage des responsables de musée (Manual de museografia: pequeno guia para uso dos responsáveis pelo museu), que define de maneira muito competente certos termos referente ao universo dos museus, entre eles: Expografia, Expologia, Museografia e Museologia.

Eu só conheço a versão em francês deste livro, mas talvez haja alguma tradução para o inglês ou espanhol. Se alguém conhecer, me avise que eu posto aqui!

Da versão em francês, segue a referência bibliográfica completa:

DESVALLÉES, Andre. Cent quarante termes muséologiques ou petit glossaire de l’exposition. In: BARY, Marie-Odile; TOMBELEM, Jean-Michel (Dir.). Manuel de muséographie: petit guide à l’usage des responsables de musée. Haute-Loire: Séguier, 1998.