Conheça museus realmente interativos (e pare de ser enganado)

Atualmente no Brasil os termos “interatividade” e “experiência multisensorial” são alardeados como um grande ganho ao visitante, convidado a fazer filas na frente dos museus.

Chegando lá, a grande decepção. O museu (supostamente) interativo é na verdade um espaço repleto de gadgets tecnológicos que seguem a lógica abaixo, do artigo “O fetiche da interatividade em dispositivos museais: eficácia ou frustração na difusão do conhecimento científico”:

“o uso recorrente e irrefletido das novas tecnologias nas salas de exposição tem levado a uma sacralização equivocada dos dispositivos digitais como melhores alternativas para a instauração da interatividade e do prazer nas experiências museais”*

Ou seja, os gadgets supostamente interativos são prioritários e predominantes na exposição, em detrimento da experiência real. Chegamos agora ao limite em que a exposição é somente o dispositivo interativo, como na exposição sobre Leonardo Da Vinci em São Paulo no MIS Experience.

Porém, hoje procurando outro tema, encontrei um exemplo significativo de interatividade, experiência multissensorial e ainda uma experiência memorável no museu. Isso tudo trabalhado com crianças, criando uma primeira experiência no museu a ser lembrada para o resto da vida, e consequentemente uma memória afetiva que os farão voltar a esse espaço.

As experiências vistas e descritas no vídeo abaixo podem ser analisadas de dois pontos de vista (no mínimo).

  • interatividade e multisensorialidade. Esses conceitos são percebidos realmente acontecendo. Veja o nosso artigo sobre interatividade. Já em relação a experiência multissensorial perceba como os cinco sentidos (tato, olfato, visão, audição e paladar) são efetivamente trabalhados nessas atividades.
  • considera a fase do desenvolvimento infantil e não tenta “encaixotar” a criança em um universo em que não se pode tocar, correr ou experimentar. Segundo Rudolf Steiner**, a criança de 0 a 7 anos usa todas as suas forças para o desenvolvimento do seu corpo. Por isso a idéia de ficar parado em frente a um objeto sem poder tocá-lo ou experimentá-lo parece entediante e gera rápida dispersão e desinteresse. Sensações e impressões que podem ser levadas para toda a vida.

Por outro lado, experiências criadas pelo Tropenmuseum Junior em Amsterdam, não foram premiadas à toa. Criam de fato experiências que são relatadas por adultos anos depois como algo memorável, que criou uma relação afetiva com os museus.

De Qi van China – Chinatour voor scholen no Tropenmuseum

Nela, de fato, a interatividade a experiência multissensorial foram muito além da mera publicidade imediatista.

_________

Curta nossas redes sociais:

Insta: @criticaexpografica | Face: facebook.com/criticaexpografica

_________

Crítica Expográfica é escrito por Renata Figueiredo Lanz, que, além de produtora de conteúdo neste blog também é diretora de criação da Renata Figueiredo | design gráfico + expografia . Para entrar em contato envie um e-mail para renata@refigueiredo.com.br

_________

Gostou do post ou tem uma outra opinião? Deixe seu comentário abaixo.

7 museus com temas muito estranhos (mas que valem a visita)

Quando visitei o Museu da Batata Frita (Frietmuseum) em Brugges, achei que já tinha visto o museu com o tema mais estranho na minha vida. Não. Nem sei se conseguirei chegar a ele. Mas a curiosidade me leva a visitar um museu desse tipo para rever os meus preconceitos.

Esse museu me surpreendeu positivamente. Confesso que fui esperando por um parque temático apenas, sem comprometimento com a aquisição de novos conhecimentos pelo público. E então me surpreendi com uma característica expográfica rara: o museu considera a existência do público infantil. Pode parecer obvio, mas quase nenhum museu considera o público infantil em sua expografia.

O Frietmuseum tinha uma comunicação especial para este público. Abaixo dos painéis contando a história das batatas no mundo e a sua introdução na Europa, etc, ele tinha uma explicação simples e divertida para os mesmos conceitos, no painel logo abaixo.

O que impressiona também é que, mesmo para as crianças em fase pré-escolar, o museu tem objetos na altura delas, muitos que podem ser tocados (e não estão isolados em vitrinas) e experimentados por este pequeno público em formação.

Painel embaixo do dos adultos com história resumida e adaptada ao público infantil. Fonte: http://www.frietmuseum.be/en/press.htm

Então, mesmo se apresentando de forma bastante despretenciosa, esse museu me mostrou uma forma de tratar o público muito interessante.

E claro, o museu cheira batata frita. O visitante obviamente ganha uma no final: será uma experiência multisensorial?

Porém ele não é único no mundo com temas diferentes e exóticos. Existem muitos outros. Um pequeno universo, cito aqui:

• Museu da Salsicha: o Deutsches Bratwurstmuseum fica em Holzhausen.

O Museu da Salsicha se mudou de lugar por ser construido em um antigo Campo de Concentração alemão.

• Museu do Chocolate: também em Brugge, mas impossível de visitar depois de comer tanta batata.

Museu do Fracasso: mostra os erros e absurdos na criação de novos produtos, como uma mascara de beleza que tira rugas através de choque elétrico ou uma Coca cola sabor café.

• Museu Fálico da Islândia

• Museu da Privada, na Índia

• Museu das Baratas, nos EUA.

Minha curiosidade por conhecer museus jamais chegaria a esse último.

_________

Curta nossas redes sociais:

Insta: @criticaexpografica | Face: facebook.com/criticaexpografica

_________

Crítica Expográfica é escrito por Renata Figueiredo Lanz, que, além de produtora de conteúdo neste blog também é diretora de criação da Renata Figueiredo | design gráfico + expografia . Para entrar em contato envie um e-mail para renata@refigueiredo.com.br

_________

Gostou do post ou tem uma outra opinião? Deixe seu comentário abaixo.

Museus: para que e para quem?

A resposta parece ser uma só. Mas as formas de expressá-la são inúmeras.

A questão “Para que servem os museus e para quem são destinados?”, aparentemente simples, parece carregar a mesma complexidade que o questionamento “O que é arte”?

Talvez por isso, na última conferência em Kyoto, a assembléia geral do ICOM (Conselho Internacional de Museus) não tenha conseguido chegar a uma redefinição sobre o tema e ela tenha sido adiada para daqui a 1 ano.

Foi, inclusive, aberta em 2018 a possibilidade de sugestões para redefinições, tal qual a alternativa:

“Museums are democratising, inclusive and polyphonic spaces for critical dialogue about the pasts and the futures. Acknowledging and addressing the conflicts and challenges of the present, they hold artefacts and specimens in trust for society, safeguard diverse memories for future generations and guarantee equal rights and equal access to heritage for all people.

Museums are not for profit. They are participatory and transparent, and work in active partnership with and for diverse communities to collect, preserve, research, interpret, exhibit, and enhance understandings of the world, aiming to contribute to human dignity and social justice, global equality and planetary wellbeing.” (https://icom.museum/en/activities/standards-guidelines/museum-definition/)

Porém, após as discussões na conferência em 7 de setembro de 2019, a definição de 24 de agosto de 2007, ocorrida em Viena, permanece:

“A museum is a non-profit, permanent institution in the service of society and its development, open to the public, which acquires, conserves, researches, communicates and exhibits the tangible and intangible heritage of humanity and its environment for the purposes of education, study and enjoyment.” (https://icom.museum/en/news/the-extraordinary-general-conference-pospones-the-vote-on-a-new-museum-definition/)

As definições oficiais sempre ocorrem em inglês e francês, mas a tradução para o português seria: “Museu é uma instituição permanente, sem fins lucrativos, a serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, aberta ao público e que adquire, conserva, investiga, difunde e expõe os testemunhos materiais do homem e de seu entorno, para estudo, educação e deleite da sociedade”.

Temos hoje então esta definição como diretriz para pensar o museu, as exposições e o seu público. Definição essa que já foi muito discutida pelo ICOM, que conta também com o brasileiro Bruno Brulon como presidente do ICOFOM. Quem já teve a honra de ouvir uma palestra de Brulon, sabe que se trata de alguém notável, e que cada frase proferida por ele carrega um grau de complexidade e conhecimento profundos em museologia e museografia.

Mas claro que se a definição está em discussão, é porque carrega questionamentos sobre alguns termos, como se viu no simpósio do ICOFOM em Junho de 2017 em Paris. (http://network.icom.museum/icofom/meetings/previous-conferences/defining-the-museum/)

Grande parte das palavras é examinada pelo que refletem, mas não por conta da essência do museu, que se mantém a mesma. Como por exemplo:

  • O museu é inegavelmente um lugar voltado para pesquisa e é unânime que ele não pode trabalhar sem ela. As coleções só podem ser exploradas, entendidas e enriquecidas através da pesquisa. Questiona-se apenas se “study” (estudo) é a palavra que realmente reflete esse conceito e não seria melhor “research” (pesquisa). A palavra é revista em seu significado  e interpretação, mas jamais se nega a essência.
  • Sem fins lucrativos parece ser um termo que causa muita confusão. O museu deve ser um lugar em que a confiança dos visitantes no objeto exposto e no que é dito deve ser estabelecida. Quando não há um financiamento de uma empresa ou de um indivíduo, o museu pode expressar as suas idéias livremente, comprometido com os resultados de suas pesquisas, sem censura. Mas o fato dele ser sem fins lucrativos não significa que ele não arrecade dinheiro para se autofinanciar. O objetivo não é o lucro (enriquecimento pessoal) de um financiador. Para esclarecer essa diferença, questiona-se se não há uma palavra mais adequada.   

A discussão sobre os termos é bastante extensa, mas, como se vê, as principais indagações a respeito da terminologia se referem a melhor esclarecer as funções e objetivos do museu (para que e para quem serve o museu) e não a sua essência, que é ser um local de pesquisa que expõe as suas descobertas para o benefício da sociedade e sem vínculo com nenhum financiador que possa censurar a sua liberdade.

_________

Curta nossas redes sociais:

Insta: @criticaexpografica | Face: facebook.com/criticaexpografica

_________

Crítica Expográfica é escrito por Renata Figueiredo Lanz, que, além de produtora de conteúdo neste blog também é diretora de criação da Renata Figueiredo | design gráfico + expografia . Para entrar em contato envie um e-mail para renata@refigueiredo.com.br

_________

Gostou do post ou tem uma outra opinião? Deixe seu comentário abaixo.

Visita ao museu do museu. Em um mundo de exclusividade e luxo.

Grande Museu egípcio: fachada.

A experiência de ser o primeiro parece ter vindo para ficar. Depois de Gaudi, na Sagrada Família, ter marcado a sua obra pelo click instantâneo e quase exclusivo, agora vários museus tendem a vender experiências únicas a preços exorbitantes.

E é isso que ocorre no Grande Museu Egípcio, que será inaugurado em 2020. A obra com custo faraônico – cerca de 1 bilhão de dólares – fica próxima as pirâmides e pode ser visitada com exclusividade por cerca de 4 horas ao módico custo de US 250,00 ou mais de R$ 1.000,00 na cotação de hoje.

A visita exclusiva permite que você seja o primeiro a tirar uma selfie em frente aos artefatos encontrados na Tumba de Tutancâmon ou ainda possa fazer a sua pose junto com a colossal estatua de Ramses II (e quem sabe se dar conta da própria pequenez).

Grande Museu Egípcio e a estátua de Ramses II.

A necessidade de viver uma experiência única e marcante – ou ainda de ser o primeiro – tem marcado fortemente a sociedade contemporânea e isso invadiu o mundo das exposições.

Não importa onde você vá, mas tem que visitar aquele museu que ninguém foi, ou aquela exposição que ninguém conhece e, claro, registrar e postar para mostrar que a sua importância equivale a de Ramses II, dado que você foi o primeiro a estar lá com ele na sua nova casa.

Os museus, por sua vez, descobriram nas selfies uma grande ferramenta de marketing e arrecadação.

Em cerca de 10 anos as redes sociais transformaram também a experiência expográfica: ao invés de “proibido fotografar” hoje os museus permitem e estimulam as selfies. E criam exclusividade e luxo a preço de ouro para que você seja o primeiro a fazer um clique (ou milhares deles) e postar na sua rede social.

_________

Curta nossas redes sociais:

Insta: @criticaexpografica | Face: facebook.com/criticaexpografica

_________

Crítica Expográfica é escrito por Renata Figueiredo Lanz, que, além de produtora de conteúdo neste blog também é diretora de criação da Renata Figueiredo | design gráfico + expografia . Para entrar em contato envie um e-mail para renata@refigueiredo.com.br

_________

Gostou do post ou tem uma outra opinião? Deixe seu comentário abaixo.

Os apagamentos históricos que nos mobilizam (e nos fascinam)

Fogo! E agora?

“(…) a longevidade dos museus e de suas coleções está relacionada ao seu uso social. Edifícios repletos de coisas não bastam para que o museu funcione, é preciso que haja uma interação eficaz com as pessoas e a comunidade do seu entorno.” (Ewbank, 2019)

Em um interessante artigo sobre o aparecimento e desaparecimento dos museus do Rio de Janeiro, Cecilia Ewbank nos conta um pouco da história do surgimento do Museu Nacional e do seu desaparecimento.

O ponto mais interessante desta história é perceber como o Museu ressurgiu diante da sua morte. Após o incêndio, a mobilização nacional fez com que inúmeras pesquisas se iniciassem e uma nova relação de apreço a sua coleção desaparecida – ou os seus restos mortais coletados – surgisse.

A possibilidade do apagamento da memória nacional nos deixou carente de informações e cuidados com o acervo, mesmo para aqueles que jamais passaram na frente do museu.

Caso semelhante ocorreu há alguns anos com o MASP, quando duas obras foram roubadas e a visitação nos dias seguintes explodiu.

Tendemos portanto a criar uma relação de apego ao acervo material apenas depois que ele desaparece, como se precisamos entrar em contato com aquilo que perdemos para nos despedir. A grande questão é que, na maioria das vezes, sequer sabíamos que aquele objeto – ou um museu inteiro – existia.

Fica então a questão: por que essa relação de perda, de uma história quase inexistente para nós inicialmente, se cria? Qual o sentimento despertado em nós?

_________

Curta nossas redes sociais:

Insta: @criticaexpografica | Face: facebook.com/criticaexpografica

_________

Crítica Expográfica é escrito por Renata Figueiredo Lanz, que, além de produtora de conteúdo neste blog também é diretora de criação da Renata Figueiredo | design gráfico + expografia . Para entrar em contato envie um e-mail para renata@refigueiredo.com.br

_________

Gostou do post ou tem uma outra opinião? Deixe seu comentário abaixo.

Qual a diferença entre expografia e museografia?

museu_cong15122015_033
Foto: Ana Elisa/Portal EBC

 

A diferenciação desses termos é sempre bastante polêmica, pois são conceitos que estão associados e muitas vezes, confundem-se. Desta forma será esclarecida aqui a diferença entre os termos, utilizando o pequeno glossário de exposições, proposto por Desvallées em 1998.

 

“A expografia é a arte de expor. O termo foi proposto em 1993, para complementar o termo museografia para designar a colocação em exposição e aquilo que diz respeito a ambientação, assim como o que está ao seu redor, nas exposições (com exceção das outras atividades museográficas, como a segurança, a conservação, etc), e que essas últimas se situam em um museu ou em um lugar não museal. Ela visa a pesquisa de uma linguagem e de uma expressão fiel para traduzir o programa científico de uma exposição”. (DESVALLÉES, 1998)

Já a museografia é o campo do conhecimento responsável pela execução dos projetos museológicos. Através de diferentes recursos – planejamento da disposição de objetos, vitrines ou outros suportes expositivos, legendas e sistemas de iluminação, segurança, conservação e circulação – a museografia torna possível apresentar o acervo, com o objetivo de transmitir, através da linguagem visual e espacial, a proposta de uma exposição.

 

“A museografia, termo que aparece pela primeira vez no século XVII, se define como a museologia prática e aplicada. Ela está subordinada à museologia e aplica as conclusões teóricas as quais a museologia chegou. (…) A museografia compreende as técnicas necessárias para preencher as funções museais e particularmente aquelas que concernem a gestão do museu, a conservação, a restauração, a segurança e a exposição. Mas, o uso da palavra museografia, em francês, tende a designar nada mais que a arte – ou as técnicas – da exposição. É por isso que, desde alguns anos, o termo expografia foi proposto para designar apenas ao que concerne as exposições, sejam elas em um museu ou em um espaço não museal”. (DESVALLÉES, 1998)

 

_________

Curta nossas redes sociais:

Insta: @criticaexpografica | Face: facebook.com/criticaexpografica

_________

Crítica Expográfica é escrito por Renata Figueiredo Lanz, que, além de produtora de conteúdo neste blog também é diretora de criação da Renata Figueiredo | design gráfico + expografia . Para entrar em contato envie um e-mail para renata@refigueiredo.com.br

_________

Gostou do post ou tem uma outra opinião? Deixe seu comentário abaixo.

O efêmero mais importante que o histórico

Há algum tempo atrás, um dos leitores do blog teve uma discussão calorosa defendendo que cada um deveria ter a fruição que mais lhe apeteça e que eu, ao defender que as pessoas não deviam circular pelo museu fazendo selfies sequenciais sem olhar para as obras, seria preconceituosa e retrógrada. Pois então, justamente um brasileiro, entra em um museu português e claramente não olha para a obra, pois é muito mais importante retratar os seus 2 segundos em frente a obra do que os 300 anos em que ela foi guardada, estudada e conservada. Será mesmo que mostrar para os seus amigos a felicidade aparente em uma exposição (que no fundo a pessoa não viu) é tão importante a ponto de destruir o patrimônio. Será que o marketing gerado pelos milhares de selfies postados traria um retorno suficiente para compensar a perda de pelo menos duas (veja o artigo) obras de arte? artigo: http://orapois.blogfolha.uol.com.br/2016/11/07/brasileiro-destroi-estatua-de-300-anos-ao-tirar-selfie-em-museu-de-lisboa/?cmpid=compfb _________ Curta nossas redes sociais: Insta: @criticaexpografica | Face: facebook.com/criticaexpografica _________ Crítica Expográfica é escrito por Renata Figueiredo Lanz, que, além de produtora de conteúdo neste blog também é diretora de criação da Renata Figueiredo | design gráfico + expografia . Para entrar em contato envie um e-mail para renata@refigueiredo.com.br _________ Gostou do post ou tem uma outra opinião? Deixe seu comentário abaixo.

Quando refletimos? Quando paramos?

OB81V70.jpg
fonte:<a href=”http://www.freepik.com/free-photos-vectors/background”>Background photograph designed by Jcomp – Freepik.com</a>
Há uma febre que critica “Pokemon Go” como se este fosse o grande problema nos nossos tempos. Agora ele chegou aos museus e exposições e já divide o público entre os críticos ferrenhos e aqueles que querem trazer o público para o museu a qualquer custo. Muitos chamam os usuários do jogo de zumbis ou de alienados. Contudo, a alienação gerada pelo jogo nada mais é do que um reflexo da alienação geral, de seres humanos com os seus dispositivos móveis que, teoricamente, nos conectam com o mundo. Faz algum tempo me incomodo com a necessidade de se estar conectado o tempo inteiro. Outro dia, no supermercado, a promotora de vendas de uma produto alimentar, digitava freneticamente no celular e se escondeu entre as caixas de cerveja ao ver a aproximação de uma pessoa (eu, no caso). Nem olhou para a frente, simplesmente continuou digitando, se embrenhou entre as cervejas e esqueceu que o seu trabalho seria oferecer o produto da bandeja que carregava. Na sequencia, no mesmo supermercado, um repositor de produtos, passa empurrando um carrinho enorme, vazio, de volta para o estoque, também digitando no celular, sem olhar para a frente. Em um balcão, várias pessoas (inclusive eu) com a comanda na mão esperam a vez de uma atendente, enquanto a outra digita no seu celular, fingindo não ver o mundo a sua volta. Dou a volta no balcão e chego na lateral, de frente para a atendente com o papel. Ela vira de costas e continua digitando, ignorando a presença de um cliente. Mas, o que isso tem a ver com exposições? Tem a ver com a forma que as gerações estão encarando o mundo e, consequentemente, as exposições e o conhecimento nela retido. O ser humano não reconhece mais o outro, nem o que ocorre no mundo a sua volta. Passa o tempo todo ligado, conectado, não presta mais atenção a sua volta. Nesse contexto, quando, realmente o cérebro descansa e pára para olhar o outro? E para refletir sobre o que está acontecendo consigo ou com o próximo? Ou ainda para fazer conexões entre conhecimentos, refletir sobre determinados temas, antes de reagir sobre eles? Segundo Jean Davallon*, em uma exposição, trabalhamos com um jogo de retenções. Ou seja, para absorver conteúdos, o visitante é estimulado em pontos mais fortes ou mais fracos da exposição, tendo inclusive momentos de descanso, que o permitem absorver e refletir sobre o que foi dito. É portanto em um momento de menor estímulo que o visitante vai conseguir estabelecer conexões. Como então, um cérebro hiperestimulado por recursos multisensoriais das exposições, excesso de informações vindas de dispositivos móveis e nenhum momento de “descanso” vai conseguir refletir sobre algo, criar conexões e até analisar criticamente um conteúdo? Como as pessoas que não estão mais acostumadas a ficar 2 minutos paradas pensando (nem na fila, nem no trânsito, nem no restaurante, nem com os amigos) vão estabelecer algum tipo de raciocínio não só nas exposições, mas na escola, faculdade, política ou ainda em uma conversa com amigos? O tempo para a reflexão ou ainda para o descanso do cérebro, valorizado por Domenico de Mais em seu “ócio criativo”, parece ter evaporado. Não descansamos, não tiramos férias, não nos desconectamos. Aonde está então o espaço para pensarmos? Será que ele ainda existe? Será que teremos tempo para parar e pensar antes de reagir? Ou simplesmente um pouco de tempo para parar e não pensar em nada, como faziam os nossos pais nas férias, em frente ao mar? Pokemon Go vai embora em breve, como o Candy Crush e tantos outros. Ele só jogou na nossa cara questões que já existiam. Os tão criticados zumbis alienados andando pela rua atrás de um Pokemon refletem a realidade de todos nós, olhando para baixo, dia e noite, buscando notícias ininterruptamente (seja em um jornal ou em uma rede social), digitando e-mails, mensagens, postando fotos ou fazendo algo realmente importante e inadiável no celular, no meio da rua, no trânsito, no trabalho, na exposição, no museu, no consultório, no restaurante ou no centro espírita. *DAVALLON, Jean. L’exposition a l’oeuvre: stratégies de communication et médiation symbolique. Paris: L’Harmattan, 2000. _________ Curta nossas redes sociais: Insta: @criticaexpografica | Face: facebook.com/criticaexpografica _________ Crítica Expográfica é escrito por Renata Figueiredo Lanz, que, além de produtora de conteúdo neste blog também é diretora de criação da Renata Figueiredo | design gráfico + expografia . Para entrar em contato envie um e-mail para renata@refigueiredo.com.br _________ Gostou do post ou tem uma outra opinião? Deixe seu comentário abaixo.

Remontagens expográficas – MASP

O MASP está em um momento em que parece olhar para a sua própria história e buscar o valor de suas montagens expográficas.

No ano passado, voltaram os famosos – e polêmicos – cavaletes de Lina Bo Bardi, que abriram a exposição de longa duração da nova sede do museu, na Avenida Paulista.

Agora é a vez de Portinari, exposição montada em 1970 e que voltou no dia 12 de agosto. A montagem original contava com plantas decorativas e, através de uma estrutura de madeira, criava um ambiente (como se fosse um estande) em que os visitantes penetram neste ambiente vazado e apreciam as obras.

A lógica de sobreposição das obras é semelhante a dos cavaletes, mas soma-se a um novo display expositivo que gera uma fruição completamente diferente das exposições.

12976248_1776239849271655_71309080_n-1

fonte: http://www.imgrum.net/media/1238777122496556076_28519714 @maspoficial. Vista da exposição Cem obras-primas de Portinari, com expografia de Lina Bo Bardi, 1970, foto Luiz Hossaka.

 

Obviamente hoje os conservadores não permitem o uso de plantas verdadeiras próximo de obras como estas. A montagem então ficou assim:

13767503_919633798166110_1230378283_n.jpg

Fonte: http://www.imgrum.net/media/1314595842115633190_28519714 @maspoficial

 

Ainda não compreendi do que tratam as novas traves na parte inferior. Será que é para afastar o público das obras? Para não permitir que toquem na obra, etc? Talvez…. a fruição e a relação com o público mudou bastante nas ultimas 4 décadas. Tal qual a conservação. Isso torna impossível uma remontagem fiel – neste caso – fazendo com que haja uma referência expográfica ao original de Lina. Mas não uma montagem fiel.

Será que o nosso público mudou ou a nossa forma de encará-lo é que é diferente?

 

 

 

Problemas em iluminação de exposições

Nas exposições o projeto de iluminação podem enfrentar alguns tipos de problemas, tais como:

Excesso de iluminação

iluminacao-museu$$6526

O excesso de iluminação provoca ofuscamento: na tentativa de deixar o ambiente claro, pode-se:

  • exagerar na quantidade de luminárias
  • combinar iluminação natural com artificial gerando ofuscamento
  • utilizar grandes panos de vidro transparente, que deixem a luz solar entrar diretamente, incidindo nos objetos expostos ou textos.

 

Falta de iluminação

header-web1

Apesar de no exemplo a escuridão ser intencional, esse erro de iluminar pouco tentando criar um “clima” é bastante comum nas exposições.

A falta de iluminação em determinados ambientes, visando causar uma dramaticidade cenográfica, faz com que a leitura dos textos ou das obras seja dificultada ou, as vezes, impossível.

Isso faz com que os visitantes tenham dificuldade de enxergar o que ocorre e percam o interesse pelo que é exposto. Pode parecer estranho, mas o conforto do visitante (físico e emocional) é fundamental para que ele continue na exposição.

 

Reflexos

Talvez este seja o erro mais comum das exposições. O trabalho com vidros deve ser sempre muito cuidadoso pois os reflexos são inevitáveis, portanto devem ser estudados. Podem ocorrer principalmente de duas formas:

  • A iluminação focada em vidros causam reflexos que tornam textos ilegíveis. Além disso, o uso de vidros grossas também faz com que, quando a luz incida neles, os textos se dupliquem, tornando-se ilegíveis também.
  • A iluminação natural pode provocar grandes reflexos também, prejudicando a visualização da imagem e a leitura dos textos.

Veja dois exemplos do Musée du Quai Branly em Paris.

musée du quai Branly
Salles d’exposition

musée du quai Branly
Salles d’exposition

 

Luz focada em textos

A distância inadequada ou o tipo de luminária as vezes pode provocar um efeito de ofuscamento nos textos. Por exemplo uma parede vermelha, com texto branco.

Veja que a foto abaixo foi tirada de lado pois se fosse frontal, a iluminação sobre o texto impossibilitaria a leitura deles. Nesta exposição de Caravaggio, este efeito de ofuscamento ocorria desde a entrada.

550557_430288643662918_524341006_n

 

Para ver mais sobre esta exposição de Caravaggio: https://criticaexpografica.wordpress.com/2012/06/19/critica-expo-caravaggio-em-bh/