Fundamentos da expografia em 1940!

Para quem acha que análise de exposições é algo novo, este artigo vai quebrar alguns paradigmas. Herbert Bayer, arquiteto e designer, foi aluno e mestre na Bauhaus.  Publicou em 1939/40 um artigo em que estabelecia as bases para um bom design de exposições e analisa alguns casos. Continuar lendo “Fundamentos da expografia em 1940!”

Museu de Antropologia de Atenas

“Atenas é só o Museu da Acrópole e a Acrópole, não tem mais nada. Em dois dias você já viu tudo”, foi o que ouvi algumas vezes. Quis morrer quando cheguei lá.

Infelizmente, pelo planejamento da viagem, não deu para passar muito tempo em Atenas. Eu passaria semanas…indo a cada museu. Mas só visitei 2: o da Acrópole e o Museu de Antropologia, além da Ágora, que é, por si só, um museu a céu aberto.

O Museu de Antropologia é um espetáculo à parte. Sem montagens cenográficas, pirotecnias ou supostos “dispositivos interativos” com os quais são investidos milhões, ele trabalha somente com o primeiro e genuíno recurso que melhor funciona nas exposições: o objeto. O fetiche do objeto, aquele em que civilizações antigas tocaram, construíram ou usaram é, ainda hoje, o que mais encanta um visitante de um museu. De repente, toda a história da arte, arquitetura, design, estudada a vida inteira ganha sentido em “apenas” uma escultura helenística ou um pequeno objeto de ouro feito a mão por civilizações pré-históricas.

Este museu trabalha com artifícios conhecidos e interessantes: percursos sugeridos e definidos, painéis expositivos e a história contada de forma cronológica. Simples, funcional e encantador. Conta de forma simples, em painéis expositivos, a história que permeia todos aqueles objetos.

Na entrada, o mapa recebido, dá algumas opções de entrada. Perguntando para uma das monitoras, rapidamente ela nos informa que o mais interessante é um percurso cronológico e nos direciona. Após algumas horas de visita, preciso de um tempo. Vamos ao restaurante. Lembro-me de Jean Davallon, falando da necessidade de se estimular o visitante e depois dar um tempo para pensar. Tempo esse que precisamos para ter um momento de “pausa” para que o cérebro processe tudo o que foi visto e consiga fazer conexões. Nada melhor que uma pausa olhando para um jardim grego, na parte interna do museu, sentada na cafeteria, antes de continuar o passeio. Sim, Davallon estava certo. No meio da exposição, precisamos de um tempo, para “assentar as idéias”, realizar os conceitos, entender a exposição.

 

Como educar o público das exposições

“O Museu Paulista é, muitas vezes, o primeiro museu onde as pessoas vem, e elas não sabem o que fazer, como se comportar” me disse uma vez um profissional deste museu, logo no início do meu mestrado, há muitos anos atrás (quando este museu ainda estava aberto).

Porém, só muitos anos depois, esta imagem foi se construindo na minha cabeça. E se solidificou de fato nesta segunda-feira, aniversário de São Paulo, na abertura da exposição  sobre Mondrian no CCBB (em breve farei uma crítica específica sobre esta exposição).

Em um primeiro momento, achei que o profissional do Museu Paulista (também conhecido como Museu do Ipiranga) se referia ao comportamento dentro de uma exposição como algo mais específico: saber qual percurso ir, saber que não deve tocar em objetos, etc. Mas hoje acredito que isso seja algo para um segundo momento.

Nesta semana descobri que precisamos ir além: a idéia de espaço público, sabendo respeitar o espaço mas, antes de tudo, respeitar o outro visitante. Exemplifico:

1 – A experiência da coletividade da leitura

Entrando no 1º andar desta exposição encontrei um texto que eu tentava insistentemente ler, enquanto a criatura do meu lado, lia em voz alta para o ser ao seu lado, que comentava e lia trechos também, como num jogral. E daí que tinha alguem ao lado?

2- A experiência da coletividade das fotos alheias

Insistindo nesta leitura que já exigia alto nível de concentração, fui interrompida (eu e a sala toda) por um outro ser humano com um celular que, a cada foto, fazia um efeito sonoro de uns 3 segundos, algo como um apito e uma pirueta. Todos olham. Esta pessoa estava tirando fotos de todos os quadros da sala (sabe-se Deus para que) até que o guarda foi conversar com ela e ela sumiu. Ou seja, se não dá para fotograr, não interessa.

3 – A obsessão coletiva por fotos e celulares

Não bastasse a primeira pessoa, um grupo de três indivíduos estava fotografando insanamente todas as obras – que, diga-se de passagem, tinham vidros na frente. Aos berros, uma das meninas do grupo berra para o menino: “Você vai me mandar todas as fotos que está tirando não é?” e continua o discurso aos berros. Tudo isso ocorrendo entre eu e mais um grupo que observava o quadro. O sujeito então pega o seu celular e se planta na frente do quadro (de costas para ele), parado, e fica digitando, até que alguém que estava olhando o quadro se cansa de aguardar e lhe pede licença para ver a obra.

4 – Silêncio!

Nesta mesma sala, minutos depois, houve um “shhhhhhhh” coletivo (juro que não fui eu!) tamanha a zona que se apresentava, a ponto de incomodar a todos os outros que tentavam se concentrar. Meu único comentário, baixinho: “Que bom, acabou a feira!”.

 

Todas as experiências mostram sim que as pessoas não sabem se comportar- ou ainda não aprenderam, na minha visão otimista –  dentro de um espaço expositivo, em especial no que diz respeito ao respeito a experiência de visita do próximo. Mas, me pergunto se elas sabem se portar como cidadãos de uma cidade em que seria necessário respeitar o espaço coletivo.

Muito antes de pensarmos sobre se as pessoas vão seguir um percurso, se elas vão apreender a obra, se a cenografia causará impacto ou se os dispositivos interativos funcionarão adequadamente, acho que precisamos pensar: será que a pessoa vai ver a exposição através dos seus próprios olhos ou vai passear (como num parque) entre as salas e fotografar alucinadamente para ter mais “posts” em seu facebook mostrando pseudo-experiências vividas?

Há um tempo atrás, postei neste blog a iniciativa de um museu para que as pessoas parassem de fotografar e olhassem para as obras de arte, desenhando-as (https://wordpress.com/post/criticaexpografica.wordpress.com/284). Isso mostra que o problema não é só nosso: sem essa besteira preconceituosa e de “Só no Brasil mesmo”! Isso ocorre também na Holanda, olha só! E, na Capela Cistina, há mais de 10 anos, eu ouvia guardas de 3 em três minutos, fazendo um sonoro “shhhhhh”, tal o ruído ensurdecedor lá dentro. Só na Italia mesmo!

 

 

 

“No museum in classical sense”

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MOMEM – Imagem: http://www.momem.org/en/concept.html

Museu ou Experiência Sensorial? A Alemanha terá um museu dedicado a Música Eletrônica, o MOMEM (Museum of Modern Eletronic Art). No seu site, eles anunciam que é um museu, mas não no sentido clássico (ou tradicional). É uma “experiência” no hoje e agora… e assim por diante.

A ideia de um museu de musica eletrônica parece desafiadora e muito interessante. Mas ficam algumas questões, diante do posicionamento do museu que ainda não abriu:

Para fazer um museu diferente, é preciso negar a própria ideia de museu? Ou seria apenas uma experiência sensorial, fantasiada de museu?

Ou ainda, para fazer um museu no século XXI, precisamos nos despir dos preconceitos que acreditamos em que museus são um amontoado de objetos antigos em uma instituição que luta contra o mofo? Se o preconceito contra a palavra MUSEU é tão grande, porque não chamam de experiência? Porque usar o status da palavra museu e depois negá-la?

 

Mais em:

http://www.momem.org

https://www.facebook.com/MOMEM.FRANKFURT?fref=ts

Afinal, o que é interatividade em museus?

Na última década, tem crescido a febre por “Museus Interativos”. E as definições divulgadas na mídia nada mais são do que uma confusão danada, tentando convencer os visitantes que qualquer coisa que pisque, é interativa.  Apertou um botão? Passou e um sensor ascendeu uma luz? Viu um vídeo?  Olha que coisa, está interagindo com o museu! Só que não.

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Vamos então fazer o caminho contrário. O que não é interatividade em museus?

O fato de um museu ter muitos monitores, vídeos, gadgets, luzes e efeitos especiais não o torna interativo. O fato de dar qualquer estímulo sensorial para o museu também não o torna interativo por si só. Diversão em museu, joguinhos, controles remotos, entre outros, por si só, também não o são.

O fetiche pelos dispositivos digitais fez com que se investissem milhões de reais (ou dólares) nas Novas Tecnologias de Informação e Comunicação e dos dispositivos audiovisuais e muito pouco em pesquisa. A aparente “facilidade” da apreensão do conteúdo, data por esses recursos, é capaz de transformar grandes museus em parques de diversões. Não sou contra o visitante aprender se divertindo. Nada disso. Mas até que ponto isso ocorre realmente nos museus brasileiros modernos, como o da Língua Portuguesa ou o do Futebol?

Se olharmos no dicionário, encontraremos a definição de interativo:

  1. Diz-se de fenômenos que reagem uns sobre os outros.
  2. Dotado de interatividade.
  3. Diz-se de um suporte de comunicação que favorece uma permuta com o público.

O que seria então esta “permuta” ou melhor, esta troca com um público?

A Revista Museologia e Patrimônio nos traz um artigo interessante que aborda a questão da fuga dos museus tradicionais – vistos como sisudos e chatos – para um novo modelo, mais “divertido” e interessante, dito então como interativo. O artigo define 3 formas de interatividade em museus, segundo a pesquisa de Wagensberg:

  • HANDS ON: muito utilizada em museus de ciência, é aquela em que o visitante tem uma interação mecânica com um objeto e assim é demonstrado um fenômeno.
  • MINDS ON: “Aqui, os elementos de interação estimulam o funcionamento da mente, instigando os visitantes a empreender um “exercício” mental, elaborando questões, solucionando problemas, criando analogias e percebendo contradições. Coloca-se, então, a expectativa de que, ao se estabelecer uma atividade capaz de correlacionar mente e realidade através da reflexão, se faça possível a produção de significados e o desejo de se colocar novas questões. Esse tipo de interatividade nem sempre se produz pelo intermédio de recursos digitais, podendo a experiência ser “desencadeada” em momentos de interação entre visitantes ou por um processo de mediação ou visita guiada.” (http://revistamuseologiaepatrimonio.mast.br/index.php/ppgpmus/article/viewFile/273/267)
  • HEART ON: busca uma identidade cultural do visitante com o objeto exposto e reforça as questões emocionais de vivenciar a experiência.
A interatividade do tipo “hand-on” é a que mais se difundiu e se distorceu nos ultimos anos. Nos museus de ciências, em geral esta experiência tem como função comprovar conceitos físicos, através da experimentação do usuário. Como se vê em:  https://youtu.be/boEyU0Pq_Lc
Mas essa experiência não tem nenhum valor se não se entender o conceito explicado, em geral mediado por um monitor da exposição ou por algum aparato explicativo.
Caso contrário, ela se torna uma experiência vazia, como a exposição temporária de Bia Lessa, em que o visitante fazia o movimento de puxar as 400 paginas ampliadas de Grande Sertão Veredas e ler um trecho em um dispositivo diferente. Essa “experiência” não agrega valor ao conteúdo e o leitor não aprende com ela. A interatividade “hands-on” se torna então, um belíssimo aparato cenográfico.
Essa exposição então, como muitas outras que temos nos museus atuais, vende uma pretensa interatividade em que não há de fato uma “troca” com o público. Não há reflexão, não agrega conhecimento nem senso crítico. Muitas vezes nem sequer emociona, informa ou diverte. Só estimula os sentidos do visitante. Outra vezes é tão “interativo” quanto uma televisão.

Parem de fotografar e olhem a obra!

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O Rijksmuseum, um dos mais famosos museus de Amsterdã e que costuma inovar em suas campanhas traz agora mais uma inovação: pede aos seus visitantes que parem de fotografar e desenhem as obras, nas visitas aos sábados.

O site do museu estimula as pessoas a olharem para as obras e conhecerem as técnicas empregadas e enfim, dá papel e lápis para que o visitante experimente enxergar de fato a obra, olhando os detalhes e entendendo – ou tentando – o que o artista queria mostrar. Para quem ainda acha que interatividade é apertar um botão e acender uma luz (a Fundação Roberto Marinho que me desculpe), deveria começar a conhecer essas iniciativas, que fazem com que de fato o visitante interaja com a obra.

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Não é a primeira vez que este museu cria uma campanha inovadora (e capaz de se tornar um viral na internet). Uma campanha anterior, em 2013, fez uma intervenção muito interessante em um shopping center da cidade, chamando os visitantes para o museu: https://www.youtube.com/watch?v=ixWdRZip2TI

Essa visão crítica dos profissionais desse museu, aliada a campanhas de marketing extremamente interessante, mostra dois momentos e duas visões bastante interessantes sobre o público do museu. Em uma, ele chama a atenção das pessoas dentro de um shopping center, para que saibam o que está acontecendo em um dos principais museus Holandeses (em contraponto ao consumo de massa do shopping, a cultura). Na outra, o olhar atento dos profissionais deste museu, busca estimular que as pessoas parem de fotografar e olhem de fato para as obras.

Isso me lembra quando, no museu de antropologia de Atenas, um senhor fotografou uma vitrine inteira, a cerca de 2m de distância, com um iPad. Aquela vitrine estava cheia de pequenos objetos com não mais de 10cm de comprimento. Fiquei me perguntando o que ele veria, naquela única foto, tirada à distância, depois de voltar para o Japão.

Depois disso fiquei me perguntando SE ele veria esta foto e, não só isso mas, para onde vão esses milhares de fotografias tiradas em museus, de obras de arte ou não. Será que algum dia alguém vai parar e olhar aquela foto? Ou melhor, será que a pessoa que a viu através da tela, vai vê-la realmente algum dia? Ou vai apenas fazer parte de mais uma tonelada de lixo cibernético, armazenado em zilhões de Gigabytes que nunca serão mexidos?

O Rijksmuseum cumpre então a sua função crítica de olhar para o visitante do museu e fazer com que ele mesmo passe a ter uma visão crítica… mas dessa vez não só sobre as obras, mas sobre si mesmo.

Para saber mais:

Conheça as técnicas e as obras: https://www.rijksmuseum.nl/en/startdrawing/drawing-saturday

Entenda os conceitos da campanha: https://www.rijksmuseum.nl/en/startdrawing

Como se forma um profissional de expografia?

Como se forma um profissional de expografia? De que área ele vêm? É um arquiteto, um designer, um publicitário, um museólogo, ou o que?

Com esta questão, Marília Xavier Cury encerrou a sua fala na minha apresentação do mestrado. Desde então venho refletindo a respeito.

Muita coisa mudou nestes últimos anos. Expografia parece ser o assunto da moda. Os número de cursos e profissionais que procuram se especializar na área tem crescido nos últimos anos. A preocupação com o tema tem aumentado (graçaaaaas a Deus) e isso fez com que o interesse geral, no Brasil e Exterior, aumente cada vez mais.

Novas pesquisas de mestrado e doutorado estão pipocando. Quando fiz o meu mestrado, o tema era praticamente único. Outro dia, conversando com a minha antiga orientadora, ela disse que cada vez mais tem sido procurada por pesquisadores da área querendo orientação para estudar exposições. Há um ano, na França, conheci um casal francês, que a filha era profissional de expografia e eles disseram: é a profissão da moda aqui na Europa.

Por isso, fiz uma breve pesquisa de cursos de pós graduação existentes na área. E os cursos com disciplinas na área de exposições são, basicamente:

USP 

Programa de pós graduação Interunidades em Museologia. Disciplina: Comunicação e Expografia

Programa de pós graduação Interunidades em Estética e História da Arte. Disciplina: Espaços da Arte: história das exposições e arquitetura de museus

Senac

Pós Graduação em Design de Interiores. Disciplina: Expografia

Pós Graduação em Curadoria em Arte. Disciplina: Museografia, Expografia e Comunicação

Belas Artes

Pós graduação em Museologia, colecionismo e curadoria. Disciplinas: Montagem de Exposições: processos ; Montagem de Exposições: Sistema de Ações Museológicas; Concepção, Planejamento de exposições

Faculdade Paulista de Artes

Pós graduação em Curadoria e Montagem de Exposições

Percebe-se que o posicionamento deste profissional ainda é interdisciplinar, pois ele tem que ter conhecimentos em diversas áreas, como:

  • Arquitetura: ler plantas, entender sobre percursos e a relação dos elementos com o espaço construído.
  • Design gráfico: analisar a relação das cores com o tema, escolher uma tipografia adequada que converse com o tema e que esteja localizada de forma que o observador consiga ler confortavelmente, pensando tanto na posição em que observador estará (evitando contorcionismos ou dores em pescoço e coluna) quanto na distância dele para o suporte (pensando que a fonte não pode ser nem pequena demais, nem grande demais), o que exige inúmeros testes a respeito. O projeto gráfico deve ser atraente, pensando que este formato – a exposição – é único e tem um funcionamento muito diferente de um livro ou um site.
  • Design Industrial: muitas vezes o profissional é requisitado a pensar na forma do suporte da exposição. Em geral, com o apoio da empresa que produz os suportes, é possível fazer um projeto para isso.
  • Museologia e Museografia: Sem um conhecimento do conteúdo e do público que frequenta esta exposição, é muito difícil estabelecer um discurso coerente, um percurso adequado, uma exposição em que todas as áreas conversem. A base da expografia começa aqui.

Portanto, respondendo a expografia é interdisciplinar, atravessa diversas áreas e a formação do profissional não se dá por apenas um curso de pós graduação ou uma graduação. Mas por uma formação abrangente, atravessando diversas áreas. Mas claro, isso para fazer exposições de qualidade.

Exposição Universal – Milão 2015

_9FT9147O texto de Francisco Spadoni, Stefano Passamonti e Giulia Ricci me fez ter vontade de escrever sobre a Exposição Universal de 2015, sediada em Milão. 

Fui convidada para fazer a sinalização e a marca do pavilhão em 2014, por Carol Melo, trabalhando juntamente com o Estúdio de Marko Brajovic e Artur Casas. Um processo muito interessante que gerou uma grande (enorme) expectativa de todos os envolvidos. Interessante a perspectiva do Marko: ele queria a rede. Ela tinha que estar presente na marca, devido a sua importância. Acertou em cheio: a rede, que passa por cima de uma plantação, é a grande estrela da Expo. Cerca de 15 mil pessoas passam diariamente por ela. E ainda não chegamos no verão. Mas, a parte do cenário brasileiro vem a expografia da Expo como um todo. Sobre a arquitetura e uma crítica arquitetônica sobre a expo, o texto da Arcoweb de Spadoni dá conta de resumir o que penso, com uma perspectiva mais do que interessante.

Já a expografia, acho que encontro aqui o espaço correto para externar as minhas impressões. A chegada na expo é normalmente conduzida por uma rampa imensa, a qual não peguei pois cheguei de trem. Aqueles que vem de metro, são conduzidos a andar quilômetros até conseguir, enfim, ingressar na exposição. Passamos primeiro por todos os controles exigidos para um grande evento como este – no qual algum maníaco pode tentar se manifestar contra alguma nação que não lhe apeteça – chegamos enfim aos pavilhões. Minha primeira impressão foi de certa frustração pela dimensão geral de tudo. Na minha imaginação, tudo deveria ser monumental.

Mesmo o pavilhão Brasileiro, durante o projeto, eu imaginava como algo maior, mais isolado no espaço, com menor interferência dos outros pavilhões – quase colados nele. Visitei mais de uma dúzia de pavilhões em dois dias de Expo. Tarefa exaustiva para o corpo e cérebro. Passar do Brasil à Bélgica em 30 metros é complexo. Excesso de línguas também exaure qualquer cérebro. Ler e compreender textos em Inglês, Português, Francês, Italiano e Espanhol no mesmo espaço, ouvir estas e outras línguas com uma diferença de minutos, é capaz de dar curto em qualquer cérebro preparado. Neste sentido as línguas desconhecidas são mais fáceis. Você simplesmente procura o inglês.

À parte das diferentes línguas é realmente interessante a coexistência pacífica entre as nações, a possibilidade de conhecer um pouco de cada em cada pavilhão. Dois em especial me marcaram pois, talvez, sejam os que mais levaram o tema “Alimentando o Mundo com soluções” a uma maior profundidade. O primeiro, francês, cria uma discussão em torno do tema e das perspectivas de alimentação para as próximas décadas. A entrada deste pavilhão passa por um grande jardim de plantações, chegando a uma lindíssima estrutura de madeira e a uma espécie de caminhão com um telão na entrada. Infelizmente a maioria dos passantes ignora o telão que ainda tem incidência do sol e, para os não falantes de francês é difícil ler as legendas.

5De maneira simples e didática a sequencia de telões – que dentro do pavilhão se tornam mais visíveis –  compara os produtores rurais europeus (em especial franceses) e africanos, dando um enfoque na produtividade e na capacidade de alimentar o mundo. Como bons franceses sempre colocam uma perspectiva crítica e mais profunda sobre algum tema e por isso gerou grande curiosidade de conhecê-lo. A cenografia interna, muito bonita, apresenta elementos interessantes da culinária e do cultivo francês. Mas o mais interessante, sem dúvida alguma, se concentra nos telões. Interessante como a cultura francesa se revela também em pequenos detalhes. Me incomodou muito em todas as vezes que fui para a França e, em especial Paris, a necessidade dos monitores e guardas dizerem que você não pode fazer alguma coisa: PAS DE FLASH! (Quando você nem levantou a câmera ainda) é o que ouvi diversas vezes. E por ai vai, ouvindo PAS DE mil coisas absurdas. Pois é, lá achei que estivesse isenta. Não: encostei em um guarda-corpo para ver melhor o vídeo e dar espaço para as pessoas passarem e rapidamente vem a francesinha franzindo a testa, mandando não encostar no guarda-corpo! O pavilhão de Israel tem um grande jardim vertical com diversas espécies em seu exterior. Israel é um lugar que gera curiosidade graças a sua capacidade de gerar soluções tecnológicas para a agricultura, entre outros. Basta lembrar que eles plantam no deserto e, muitas vezes em terrenos com teores de sal acima do desejado. Depois de uma certa fila, ingressamos em um lugar fechado, com um vídeo sem graça em que uma atriz israelense famosa no interagia com um “ator” no palco. Bem cercados como gado, tivemos que assistir o filme até o ultimo minuto quando fomos liberados para a próxima sala, onde o conteúdo começou a ficar mais interessante. Vídeos mostrando os avanços tecnológicos da agricultura que Israel alcançou e que hoje são conhecidos e utilizados no mundo inteiro conduzem a uma visita a este distante universo numa sequencia de salas, sempre guiadas por liberações para passar à próxima, algo que talvez mostre a postura de medo deste país em relação a um povo desconhecido, muito mais uma multidão de estrangeiros sabe-deus-daonde. U211P5029DT20150502105951_1_1Por fim, a interessante expressão mais-do-que-cliché de uma cultura tipo exportação: somente um país no mundo poderia ter a sua bandeira, com um prato de comida em um dos lados e as inscrições: FOOD 2.0. Sinceramente, é agressiva e quase massacrante a forma como se posicionam em meio a tanta delicadeza na maioria das propostas dos pavilhões da Expo. Mas sem dúvida, mostram também a sua postura diante do mundo. usa_pavilion_expo_2015_01Todos os pavilhões são, sem dúvida, uma grande propaganda do próprio país.A maioria, na verdade, é só isso. Mostrar o país para o mundo, ignorando a grande discussão que pode haver sobre o futuro da alimentação ou a sua colaboração neste. Alguns plantam alguma “coisinha em um canto obscuro” para dizer que não esqueceram do tema. Alguns viram um grande merchandising. Milhões gastos e nenhuma criatura envolvida se deu ao trabalho de entender a proposta, se aprofundar no tema e mostrar o que o seu país trás de bom para um mundo que vai continuar passando fome, com uma população em constante crescimento. Pena. Neste momento em que podemos pensar que os países não mostram porque não tem nada de interessante a mostrar me lembro do pavilhão da Austria, que vinha com um discurso vazio de que estava fornecendo ar para o mundo – e tinha uma floresta plantada no pavilhão, com algumas poucas ilustrações e joguinhos nas paredes.

Pensando que este país vem Sepp Holzer, com um interessantíssimo trabalho com permacultura, vemos que sim, há algo a mais para mostrar além da propaganda do seu próprio pais. Sobre Sepp Holzer, veja: https://www.youtube.com/watch?v=SbbLi3x0X1I

Para ver o texto da Arcoweb sobre a arquitetura da expo: http://arcoweb.com.br/projetodesign/arquitetura/internacional-milao-segunda-exposicao-mundial?utm_source=Edicao15061&utm_medium=150617&utm_campaign=NewsletterARCOweb&utm_source=Virtual_Target&utm_medium=Email&utm_content=&utm_campaign=news-150617&utm_term=

Os cavaletes de Lina Bo Bardi

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O novo diretor do MASP, Adriano Pedrosa, anunciou no ano passado que iria ressuscitar os cavaletes de vidro de Lina Bo Bardi. Ontem, na página do facebook, este projeto mostrou que vai se confirmar, em um anuncio que tem o texto “em breve volta ao MASP” e a foto da exposição dos cavaletes.

Os cavaletes de Linas foram subversivos, chocantes, inovadores. Os quadros transpõe os limites do quadro, cria relações inimagináveis entre as obras e o espaço. As obras flutuam, conversam, se contrapõe. O espaço se divide entre sério e lúdico, podendo criar relações interessantes e até mesmo divertidas com os visitantes.

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Inaugurada em 1968 com o Museu, a exposição não somente fazia com que as obras criassem uma nova relação com o espaço do museu, mas também com o espaço da cidade, dado que estavam dentro do MASP, cuja transparência deveria convidar os cidadão comuns a entrar no Museu e conseguir a tão sonhada (especialmente por Lina) popularização da Arte.

Em 1996 estes suportes expositivos foram tirados do Museu e aos poucos foi criado um espaço de Cubo Branco, uma perspectiva expográfica diametralmente oposta à de Lina. As paredes brancas, isolam a obra da influencia de qualquer outra e as vezes até mesmo da moldura.

O novo diretor, ao contrário, vem de encontro a estas decisões e resolve resgatar a memória do Museu, buscando a sua vocação primeira, dando a todos aquela curiosidade de vista a exposição, de entender melhor o pensamento expositivo e arquitetônico, de uma exposição e um edifício inter-relacionados, contínuos e coerentes.

Não vejo a hora de conhecer o que a equipe de Adriano Pedrosa resgatou, reconstruiu, ressuscitou.

Museus e obras em tempos de guerra

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Procurando o que tem de interessante acontecendo pelo mundo encontrei uma antiga reportagem que mostra o que aconteceu com o Louvre durante a II Guerra Mundial. O Museu, esvaziado, teve as suas obras devidamente encaixotadas e estas viajaram pelos castelos da França, sendo escondidas e mudando de lugar com frequência.

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Lembro-me de ter visto uma exposição no castelo de Chambord sobre as obras de arte que foram escondidas e viajavam em caixas de madeira apenas com 1, 2 ou 3 bolas vermelhas, que mostravam a importância de cada obra. Interessante perceber que durante a II Guerra, existem pessoas dedicadas e preocupadas em guardar a memória do passado para as gerações futuras, mostrando a esperança de que esse futuro realmente vai existir.

Outro relato interessante é o livro que originou o filme “Caçadores de Obras Primas”. Já traduzido para o português, o livro relata a experiência de um grupo dedicado a descobrir onde estavam as obras que Hitler pilhou de judeus e museus e escondeu.

“Os Monuments Men eram um grupo de homens e mulheres de 13 nações, quase todos apresentando-se como voluntários para servir na recém-criada seção Monu- ments, Fine Arts, and Archives, ou MFAA. Os primeiros, em sua maioria, tinham expe- riência como diretores de museus, curadores, estudiosos e professores de arte, artistas, arquitetos e arquivistas. A descrição de sua tarefa era simples: salvar o máximo possível da cultura da Europa durante os combates.” é um trecho do livro que pode ser visto parcialmente em: http://www.rocco.com.br/admin/Arquivos/LivroTrecho/b41e6eb6-9093-437f-a294-f977b0ada5c6Trecho.pdf

Mais sobre as obras do Louvre em: http://www.conexaoparis.com.br/2012/12/21/museu-do-louvre-durante-segunda-guerra-mundial/