Museu de Antropologia de Atenas

“Atenas é só o Museu da Acrópole e a Acrópole, não tem mais nada. Em dois dias você já viu tudo”, foi o que ouvi algumas vezes. Quis morrer quando cheguei lá.

Infelizmente, pelo planejamento da viagem, não deu para passar muito tempo em Atenas. Eu passaria semanas…indo a cada museu. Mas só visitei 2: o da Acrópole e o Museu de Antropologia, além da Ágora, que é, por si só, um museu a céu aberto.

O Museu de Antropologia é um espetáculo à parte. Sem montagens cenográficas, pirotecnias ou supostos “dispositivos interativos” com os quais são investidos milhões, ele trabalha somente com o primeiro e genuíno recurso que melhor funciona nas exposições: o objeto. O fetiche do objeto, aquele em que civilizações antigas tocaram, construíram ou usaram é, ainda hoje, o que mais encanta um visitante de um museu. De repente, toda a história da arte, arquitetura, design, estudada a vida inteira ganha sentido em “apenas” uma escultura helenística ou um pequeno objeto de ouro feito a mão por civilizações pré-históricas.

Este museu trabalha com artifícios conhecidos e interessantes: percursos sugeridos e definidos, painéis expositivos e a história contada de forma cronológica. Simples, funcional e encantador. Conta de forma simples, em painéis expositivos, a história que permeia todos aqueles objetos.

Na entrada, o mapa recebido, dá algumas opções de entrada. Perguntando para uma das monitoras, rapidamente ela nos informa que o mais interessante é um percurso cronológico e nos direciona. Após algumas horas de visita, preciso de um tempo. Vamos ao restaurante. Lembro-me de Jean Davallon, falando da necessidade de se estimular o visitante e depois dar um tempo para pensar. Tempo esse que precisamos para ter um momento de “pausa” para que o cérebro processe tudo o que foi visto e consiga fazer conexões. Nada melhor que uma pausa olhando para um jardim grego, na parte interna do museu, sentada na cafeteria, antes de continuar o passeio. Sim, Davallon estava certo. No meio da exposição, precisamos de um tempo, para “assentar as idéias”, realizar os conceitos, entender a exposição.

 

Como educar o público das exposições

“O Museu Paulista é, muitas vezes, o primeiro museu onde as pessoas vem, e elas não sabem o que fazer, como se comportar” me disse uma vez um profissional deste museu, logo no início do meu mestrado, há muitos anos atrás (quando este museu ainda estava aberto).

Porém, só muitos anos depois, esta imagem foi se construindo na minha cabeça. E se solidificou de fato nesta segunda-feira, aniversário de São Paulo, na abertura da exposição  sobre Mondrian no CCBB (em breve farei uma crítica específica sobre esta exposição).

Em um primeiro momento, achei que o profissional do Museu Paulista (também conhecido como Museu do Ipiranga) se referia ao comportamento dentro de uma exposição como algo mais específico: saber qual percurso ir, saber que não deve tocar em objetos, etc. Mas hoje acredito que isso seja algo para um segundo momento.

Nesta semana descobri que precisamos ir além: a idéia de espaço público, sabendo respeitar o espaço mas, antes de tudo, respeitar o outro visitante. Exemplifico:

1 – A experiência da coletividade da leitura

Entrando no 1º andar desta exposição encontrei um texto que eu tentava insistentemente ler, enquanto a criatura do meu lado, lia em voz alta para o ser ao seu lado, que comentava e lia trechos também, como num jogral. E daí que tinha alguem ao lado?

2- A experiência da coletividade das fotos alheias

Insistindo nesta leitura que já exigia alto nível de concentração, fui interrompida (eu e a sala toda) por um outro ser humano com um celular que, a cada foto, fazia um efeito sonoro de uns 3 segundos, algo como um apito e uma pirueta. Todos olham. Esta pessoa estava tirando fotos de todos os quadros da sala (sabe-se Deus para que) até que o guarda foi conversar com ela e ela sumiu. Ou seja, se não dá para fotograr, não interessa.

3 – A obsessão coletiva por fotos e celulares

Não bastasse a primeira pessoa, um grupo de três indivíduos estava fotografando insanamente todas as obras – que, diga-se de passagem, tinham vidros na frente. Aos berros, uma das meninas do grupo berra para o menino: “Você vai me mandar todas as fotos que está tirando não é?” e continua o discurso aos berros. Tudo isso ocorrendo entre eu e mais um grupo que observava o quadro. O sujeito então pega o seu celular e se planta na frente do quadro (de costas para ele), parado, e fica digitando, até que alguém que estava olhando o quadro se cansa de aguardar e lhe pede licença para ver a obra.

4 – Silêncio!

Nesta mesma sala, minutos depois, houve um “shhhhhhhh” coletivo (juro que não fui eu!) tamanha a zona que se apresentava, a ponto de incomodar a todos os outros que tentavam se concentrar. Meu único comentário, baixinho: “Que bom, acabou a feira!”.

 

Todas as experiências mostram sim que as pessoas não sabem se comportar- ou ainda não aprenderam, na minha visão otimista –  dentro de um espaço expositivo, em especial no que diz respeito ao respeito a experiência de visita do próximo. Mas, me pergunto se elas sabem se portar como cidadãos de uma cidade em que seria necessário respeitar o espaço coletivo.

Muito antes de pensarmos sobre se as pessoas vão seguir um percurso, se elas vão apreender a obra, se a cenografia causará impacto ou se os dispositivos interativos funcionarão adequadamente, acho que precisamos pensar: será que a pessoa vai ver a exposição através dos seus próprios olhos ou vai passear (como num parque) entre as salas e fotografar alucinadamente para ter mais “posts” em seu facebook mostrando pseudo-experiências vividas?

Há um tempo atrás, postei neste blog a iniciativa de um museu para que as pessoas parassem de fotografar e olhassem para as obras de arte, desenhando-as (https://wordpress.com/post/criticaexpografica.wordpress.com/284). Isso mostra que o problema não é só nosso: sem essa besteira preconceituosa e de “Só no Brasil mesmo”! Isso ocorre também na Holanda, olha só! E, na Capela Cistina, há mais de 10 anos, eu ouvia guardas de 3 em três minutos, fazendo um sonoro “shhhhhh”, tal o ruído ensurdecedor lá dentro. Só na Italia mesmo!

 

 

 

“No museum in classical sense”

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MOMEM – Imagem: http://www.momem.org/en/concept.html

Museu ou Experiência Sensorial? A Alemanha terá um museu dedicado a Música Eletrônica, o MOMEM (Museum of Modern Eletronic Art). No seu site, eles anunciam que é um museu, mas não no sentido clássico (ou tradicional). É uma “experiência” no hoje e agora… e assim por diante.

A ideia de um museu de musica eletrônica parece desafiadora e muito interessante. Mas ficam algumas questões, diante do posicionamento do museu que ainda não abriu:

Para fazer um museu diferente, é preciso negar a própria ideia de museu? Ou seria apenas uma experiência sensorial, fantasiada de museu?

Ou ainda, para fazer um museu no século XXI, precisamos nos despir dos preconceitos que acreditamos em que museus são um amontoado de objetos antigos em uma instituição que luta contra o mofo? Se o preconceito contra a palavra MUSEU é tão grande, porque não chamam de experiência? Porque usar o status da palavra museu e depois negá-la?

 

Mais em:

http://www.momem.org

https://www.facebook.com/MOMEM.FRANKFURT?fref=ts

Frida Kahlo no Tomie Ohtake: porque uma exposição não é um livro

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Ao visitar a exposição  “Frida Kahlo: conexões entre mulheres surrealistas do México” não pude deixar de pensar que ela foi projetada para o fracasso. Sim, para um fracasso absoluto de público. Os conceptores devem ter imaginado que ninguém se interessaria em ver a Frida no Brasil e, por isso, fizeram a exposição desta maneira para que, os poucos que a frequentassem, passassem muitas horas dentro da exposição.

Vamos começar do início: entrando na exposição, ao receber o folder, lembrei imediatamente de Jean Davallon, quando ele comenta que o folder é algo para ser lido após a exposição, quase um souvenir, ou ainda um lembrete do que a exposição trata. Dei uma passada de olhos nos textos e imagens e segui em frente.

Qual não foi a minha surpresa ao perceber que os textos do folder, foram reproduzidos na abertura da exposição, tirando um parágrafo ou outro, mas na íntegra.

Textos extensos e prolixos, colocados nas paredes em formato de folder e que, na tela do computador de um designer podem parecer um joguinho interessante de diagramação entre português e inglês. Mas uma exposição não é um folder. Por mais óbvio que isso possa parecer, dificilmente os designers percebem o quanto uma exposição é uma mídia diferente, que funciona de forma totalmente diferente.

A própria diagramação na parede me parece uma “adaptação” das páginas do folder, colocada em formato aberto.

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Além de “abrir o folder na parede”, a pessoa que concebeu desconsidera que a exposição foi feita para seres humanos de, na média, 1,70m de altura. Os olhos em geral lêem confortavelmente textos a 1,50-1,60m, podendo obviamente ter textos mais altos e mais baixos que isso. Mas colocar textos a cerca de 3m de altura (primeiro painel verde ao lado do titulo da exposição) ou a cerca de 2,5m (primeiro vermelho, com textos em português) mostra a falta de experiência do conceptor deste painel em relação a esta mídia – exposição.

Um folder considera um usuário que o carreganas mãos, tendo uma relação bem diferente de uma parede, em que o usuário não pode escalar para ler nesta altura e que a fonte tipográfica, apesar de ter um tamanho razoável, parece minúscula a 3m de altura o que faz com que o leitor se esforce muito para conseguir ler.

Supondo ainda que a pessoa consiga ler o texto horrorosamente alinhado à direita (o que dificulta a leitura nesta mídia também), ela ficaria ali parada por bastante tempo para conseguir ler o gigantesco e prolixo texto.

Cria-se então o primeiro funil de público, logo na entrada da exposição, a pessoa já fica pelo menos 10 minutos parada, tentando ler.

Na sequência, fico feliz após me deparar com a seguinte placa, antes de entrar na sala:

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Baixei o aplicativo, instalei e depois fiz a instalação do módulo específico para o audioguia, processo que levou de 5 a 10 minutos. Entrei na exposição enquanto ele fazia este processo e comecei a percorre-la calmamente. O percurso sugerido parece ser bastante claro, não tive dúvidas em relação a sequencia das salas até começar a usar o audioguia. Com ele, que apresenta uma sequencia numérica estranha, fiquei em dúvida.

Além disso, os vídeos são extremamente prolixos, em alguns momentos filosóficos. São muitos interessantes, mas parecem mais um audiolivro, interessantes para se ouvir sentado, no silêncio, para conseguir prestar atenção na profundidade do que se diz. Não se debatendo com os outros para conseguir enxergar um quadro. De novo, parece haver uma questão de desconhecimento do tipo de mídia utilizada.

Audios feitos para que o usuário utilize seu próprio celular e depois são muito interessantes. Mas pensar que a pessoa ficará 10 minutos parado em frente a meia dúzia de obras, no canto da sala, é utópico e, novamente desconsidera a existência de um fluxo de público na exposição. Sendo assim, os vídeos são extremamente prolixos e desconectados com a mídia exposição em que se encontram.

Acompanhe abaixo a sequência das salas, seguidas pelo número do audioguia e, na sequencia, o tempo de duração aproximado.

Sala da esquerda (logo atrás do painel da abertura), fazendo o percurso iniciando pela parede da esquerda para o fundo e depois voltando (sentido horário):

A construção do sujeito – nº 1103 – 9’44”

Poéticas do Espaço Doméstico – nº 1105 – 8’23”

Performidade do corpo – nº 1104 – 7’23”

 

Sala da direita (atravessando o dispositivo para vídeo):

Surrealismo – nº  1102 – 6’24”

O Gênero feminino na arte – nº 1107 – 7’08”

Narativas autobiográficas – nº 1106 – 2’33”

 

De novo, tenho a dizer que os audios são realmente interessantes. Mas só consegui ouvi-los na íntegra em casa. Na exposição é humanamente impossível prestar atenção nos áudios, com toda a movimentação existente. Parece que a pessoa que os concebeu queria dizer tudo, em poucos audios, longos e prolixos.

Gosto bastante de audioguias mas, raramente se vê descrições tão longas e prolixas. E as mais longas em geral, geram o rápido desinteresse pela mídia. Não estamos, infelizmente, em uma aula de história da arte mas em uma exposição, que necessita uma objetividade maior para conseguir despertar o interesse do visitante pelo assunto.

Por fim, vem o vídeo no meio do espaço. Em um espaço que cabem, sentadas, cerca de 16 pessoas, encontrei a seguinte placa:

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Repare novamente no tempo de duração do filme: 90 minutos. Sim, uma hora e meia de filme no meio da exposição. 16 lugares sentados em banquinhos desconfortáveis de madeira. Não é um vídeo de exposição é um longa metragem!

Obviamente assisti o filme todo. Parte congelando sentada no chão, parte em pé, parte sentada em um banquinho (depois de 45 minutos de vídeo algumas pessoas começaram a ir embora). O vídeo descreve em detalhes a vida de Frida. Em detalhes minuciosos, sobre os casos de amor do marido, dela, cada viagem, etc. Fala pouco sobre as suas obras, perto do tempo despendido falando sobre a sua vida. Interessante, mas extremamente prolixo. Extremamente. Absurdamente.

O visitante sai então tonto da exposição e vai cambaleando para o andar debaixo quando se depara com o seguinte:

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No meu caso, mesmo sendo apaixonada e interessada por conhecer melhor essas outras artistas, foi impossível imaginar ficar mais tempo lá dentro, vendo outros vídeos. Estava exausta. Talvez eu volte outro dia apenas para ver 1 ou 2 vídeos sobre estas artistas. Na posição em que estão, estes sim, não no meio da exposição mas em uma sala de vídeos a parte, acredito que seja possível apenas ver a “sessão” e não fazem parte da exposição como um todo mas sim de um “anexo”, opcional.

 

Posso estar enganada mas, a sensação que ficou é de uma exposição feita as pressas, aproveitando o material já existente, sem edições, sem recortes, sem pensar que um grande público efetivamente iria percorrer o espaço. Sem pensar que uma exposição não é um folheto, não é um livro, não é uma aula de historia da arte e, principalmente, não é uma exibição de filme completo no meio do espaço expositivo.

Por isso considero projetada para o fracasso de público. Considerando que a pessoa se interesse por assistir o vídeo da Frida inteiro (1h30), ouvir o audioguia (40m, se não acabar a bateria do celular) e percorrer “rapidamente” as salas da exposição, lendo os textos de parede e olhando para as obras (1h a 2h), um visitante passaria entre 3 e 4 horas na exposição. Números inviáveis para receber um grande público neste espaço.

 

 

 

Parem de fotografar e olhem a obra!

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O Rijksmuseum, um dos mais famosos museus de Amsterdã e que costuma inovar em suas campanhas traz agora mais uma inovação: pede aos seus visitantes que parem de fotografar e desenhem as obras, nas visitas aos sábados.

O site do museu estimula as pessoas a olharem para as obras e conhecerem as técnicas empregadas e enfim, dá papel e lápis para que o visitante experimente enxergar de fato a obra, olhando os detalhes e entendendo – ou tentando – o que o artista queria mostrar. Para quem ainda acha que interatividade é apertar um botão e acender uma luz (a Fundação Roberto Marinho que me desculpe), deveria começar a conhecer essas iniciativas, que fazem com que de fato o visitante interaja com a obra.

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Não é a primeira vez que este museu cria uma campanha inovadora (e capaz de se tornar um viral na internet). Uma campanha anterior, em 2013, fez uma intervenção muito interessante em um shopping center da cidade, chamando os visitantes para o museu: https://www.youtube.com/watch?v=ixWdRZip2TI

Essa visão crítica dos profissionais desse museu, aliada a campanhas de marketing extremamente interessante, mostra dois momentos e duas visões bastante interessantes sobre o público do museu. Em uma, ele chama a atenção das pessoas dentro de um shopping center, para que saibam o que está acontecendo em um dos principais museus Holandeses (em contraponto ao consumo de massa do shopping, a cultura). Na outra, o olhar atento dos profissionais deste museu, busca estimular que as pessoas parem de fotografar e olhem de fato para as obras.

Isso me lembra quando, no museu de antropologia de Atenas, um senhor fotografou uma vitrine inteira, a cerca de 2m de distância, com um iPad. Aquela vitrine estava cheia de pequenos objetos com não mais de 10cm de comprimento. Fiquei me perguntando o que ele veria, naquela única foto, tirada à distância, depois de voltar para o Japão.

Depois disso fiquei me perguntando SE ele veria esta foto e, não só isso mas, para onde vão esses milhares de fotografias tiradas em museus, de obras de arte ou não. Será que algum dia alguém vai parar e olhar aquela foto? Ou melhor, será que a pessoa que a viu através da tela, vai vê-la realmente algum dia? Ou vai apenas fazer parte de mais uma tonelada de lixo cibernético, armazenado em zilhões de Gigabytes que nunca serão mexidos?

O Rijksmuseum cumpre então a sua função crítica de olhar para o visitante do museu e fazer com que ele mesmo passe a ter uma visão crítica… mas dessa vez não só sobre as obras, mas sobre si mesmo.

Para saber mais:

Conheça as técnicas e as obras: https://www.rijksmuseum.nl/en/startdrawing/drawing-saturday

Entenda os conceitos da campanha: https://www.rijksmuseum.nl/en/startdrawing

Exposição Universal – Milão 2015

_9FT9147O texto de Francisco Spadoni, Stefano Passamonti e Giulia Ricci me fez ter vontade de escrever sobre a Exposição Universal de 2015, sediada em Milão. 

Fui convidada para fazer a sinalização e a marca do pavilhão em 2014, por Carol Melo, trabalhando juntamente com o Estúdio de Marko Brajovic e Artur Casas. Um processo muito interessante que gerou uma grande (enorme) expectativa de todos os envolvidos. Interessante a perspectiva do Marko: ele queria a rede. Ela tinha que estar presente na marca, devido a sua importância. Acertou em cheio: a rede, que passa por cima de uma plantação, é a grande estrela da Expo. Cerca de 15 mil pessoas passam diariamente por ela. E ainda não chegamos no verão. Mas, a parte do cenário brasileiro vem a expografia da Expo como um todo. Sobre a arquitetura e uma crítica arquitetônica sobre a expo, o texto da Arcoweb de Spadoni dá conta de resumir o que penso, com uma perspectiva mais do que interessante.

Já a expografia, acho que encontro aqui o espaço correto para externar as minhas impressões. A chegada na expo é normalmente conduzida por uma rampa imensa, a qual não peguei pois cheguei de trem. Aqueles que vem de metro, são conduzidos a andar quilômetros até conseguir, enfim, ingressar na exposição. Passamos primeiro por todos os controles exigidos para um grande evento como este – no qual algum maníaco pode tentar se manifestar contra alguma nação que não lhe apeteça – chegamos enfim aos pavilhões. Minha primeira impressão foi de certa frustração pela dimensão geral de tudo. Na minha imaginação, tudo deveria ser monumental.

Mesmo o pavilhão Brasileiro, durante o projeto, eu imaginava como algo maior, mais isolado no espaço, com menor interferência dos outros pavilhões – quase colados nele. Visitei mais de uma dúzia de pavilhões em dois dias de Expo. Tarefa exaustiva para o corpo e cérebro. Passar do Brasil à Bélgica em 30 metros é complexo. Excesso de línguas também exaure qualquer cérebro. Ler e compreender textos em Inglês, Português, Francês, Italiano e Espanhol no mesmo espaço, ouvir estas e outras línguas com uma diferença de minutos, é capaz de dar curto em qualquer cérebro preparado. Neste sentido as línguas desconhecidas são mais fáceis. Você simplesmente procura o inglês.

À parte das diferentes línguas é realmente interessante a coexistência pacífica entre as nações, a possibilidade de conhecer um pouco de cada em cada pavilhão. Dois em especial me marcaram pois, talvez, sejam os que mais levaram o tema “Alimentando o Mundo com soluções” a uma maior profundidade. O primeiro, francês, cria uma discussão em torno do tema e das perspectivas de alimentação para as próximas décadas. A entrada deste pavilhão passa por um grande jardim de plantações, chegando a uma lindíssima estrutura de madeira e a uma espécie de caminhão com um telão na entrada. Infelizmente a maioria dos passantes ignora o telão que ainda tem incidência do sol e, para os não falantes de francês é difícil ler as legendas.

5De maneira simples e didática a sequencia de telões – que dentro do pavilhão se tornam mais visíveis –  compara os produtores rurais europeus (em especial franceses) e africanos, dando um enfoque na produtividade e na capacidade de alimentar o mundo. Como bons franceses sempre colocam uma perspectiva crítica e mais profunda sobre algum tema e por isso gerou grande curiosidade de conhecê-lo. A cenografia interna, muito bonita, apresenta elementos interessantes da culinária e do cultivo francês. Mas o mais interessante, sem dúvida alguma, se concentra nos telões. Interessante como a cultura francesa se revela também em pequenos detalhes. Me incomodou muito em todas as vezes que fui para a França e, em especial Paris, a necessidade dos monitores e guardas dizerem que você não pode fazer alguma coisa: PAS DE FLASH! (Quando você nem levantou a câmera ainda) é o que ouvi diversas vezes. E por ai vai, ouvindo PAS DE mil coisas absurdas. Pois é, lá achei que estivesse isenta. Não: encostei em um guarda-corpo para ver melhor o vídeo e dar espaço para as pessoas passarem e rapidamente vem a francesinha franzindo a testa, mandando não encostar no guarda-corpo! O pavilhão de Israel tem um grande jardim vertical com diversas espécies em seu exterior. Israel é um lugar que gera curiosidade graças a sua capacidade de gerar soluções tecnológicas para a agricultura, entre outros. Basta lembrar que eles plantam no deserto e, muitas vezes em terrenos com teores de sal acima do desejado. Depois de uma certa fila, ingressamos em um lugar fechado, com um vídeo sem graça em que uma atriz israelense famosa no interagia com um “ator” no palco. Bem cercados como gado, tivemos que assistir o filme até o ultimo minuto quando fomos liberados para a próxima sala, onde o conteúdo começou a ficar mais interessante. Vídeos mostrando os avanços tecnológicos da agricultura que Israel alcançou e que hoje são conhecidos e utilizados no mundo inteiro conduzem a uma visita a este distante universo numa sequencia de salas, sempre guiadas por liberações para passar à próxima, algo que talvez mostre a postura de medo deste país em relação a um povo desconhecido, muito mais uma multidão de estrangeiros sabe-deus-daonde. U211P5029DT20150502105951_1_1Por fim, a interessante expressão mais-do-que-cliché de uma cultura tipo exportação: somente um país no mundo poderia ter a sua bandeira, com um prato de comida em um dos lados e as inscrições: FOOD 2.0. Sinceramente, é agressiva e quase massacrante a forma como se posicionam em meio a tanta delicadeza na maioria das propostas dos pavilhões da Expo. Mas sem dúvida, mostram também a sua postura diante do mundo. usa_pavilion_expo_2015_01Todos os pavilhões são, sem dúvida, uma grande propaganda do próprio país.A maioria, na verdade, é só isso. Mostrar o país para o mundo, ignorando a grande discussão que pode haver sobre o futuro da alimentação ou a sua colaboração neste. Alguns plantam alguma “coisinha em um canto obscuro” para dizer que não esqueceram do tema. Alguns viram um grande merchandising. Milhões gastos e nenhuma criatura envolvida se deu ao trabalho de entender a proposta, se aprofundar no tema e mostrar o que o seu país trás de bom para um mundo que vai continuar passando fome, com uma população em constante crescimento. Pena. Neste momento em que podemos pensar que os países não mostram porque não tem nada de interessante a mostrar me lembro do pavilhão da Austria, que vinha com um discurso vazio de que estava fornecendo ar para o mundo – e tinha uma floresta plantada no pavilhão, com algumas poucas ilustrações e joguinhos nas paredes.

Pensando que este país vem Sepp Holzer, com um interessantíssimo trabalho com permacultura, vemos que sim, há algo a mais para mostrar além da propaganda do seu próprio pais. Sobre Sepp Holzer, veja: https://www.youtube.com/watch?v=SbbLi3x0X1I

Para ver o texto da Arcoweb sobre a arquitetura da expo: http://arcoweb.com.br/projetodesign/arquitetura/internacional-milao-segunda-exposicao-mundial?utm_source=Edicao15061&utm_medium=150617&utm_campaign=NewsletterARCOweb&utm_source=Virtual_Target&utm_medium=Email&utm_content=&utm_campaign=news-150617&utm_term=

Os cavaletes de Lina Bo Bardi

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O novo diretor do MASP, Adriano Pedrosa, anunciou no ano passado que iria ressuscitar os cavaletes de vidro de Lina Bo Bardi. Ontem, na página do facebook, este projeto mostrou que vai se confirmar, em um anuncio que tem o texto “em breve volta ao MASP” e a foto da exposição dos cavaletes.

Os cavaletes de Linas foram subversivos, chocantes, inovadores. Os quadros transpõe os limites do quadro, cria relações inimagináveis entre as obras e o espaço. As obras flutuam, conversam, se contrapõe. O espaço se divide entre sério e lúdico, podendo criar relações interessantes e até mesmo divertidas com os visitantes.

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Inaugurada em 1968 com o Museu, a exposição não somente fazia com que as obras criassem uma nova relação com o espaço do museu, mas também com o espaço da cidade, dado que estavam dentro do MASP, cuja transparência deveria convidar os cidadão comuns a entrar no Museu e conseguir a tão sonhada (especialmente por Lina) popularização da Arte.

Em 1996 estes suportes expositivos foram tirados do Museu e aos poucos foi criado um espaço de Cubo Branco, uma perspectiva expográfica diametralmente oposta à de Lina. As paredes brancas, isolam a obra da influencia de qualquer outra e as vezes até mesmo da moldura.

O novo diretor, ao contrário, vem de encontro a estas decisões e resolve resgatar a memória do Museu, buscando a sua vocação primeira, dando a todos aquela curiosidade de vista a exposição, de entender melhor o pensamento expositivo e arquitetônico, de uma exposição e um edifício inter-relacionados, contínuos e coerentes.

Não vejo a hora de conhecer o que a equipe de Adriano Pedrosa resgatou, reconstruiu, ressuscitou.

Porque você deve pensar no fluxo de uma exposição antes de projetá-la

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Durante o desenvolvimento de um projeto expositivo, estudar o percurso da exposição é fundamental para criar uma narrativa e entender em que sequência o visitante deve, idealmente, receber as informações.

No artigo “Fundamentos da expografia em 1940”, você pode ver como Herbert Bayer já se importava com o percurso expositivo e o caminho que o visitante iria percorrer.

Porém pensar o fluxo da exposição vai além da proposição de um percurso em que os idealizadores do projeto expositivo tentam prever os passos do visitante. Estudar o fluxo significa conhecer o museu e o seu público e prepara-lo para receber essas pessoas adequadamente.

Somente a experiência, observação e pesquisas constantes do fluxo de visitantes pode dar uma noção precisa de quem é o seu público e como ele circula dentro do espaço.

Alguns museus, como o do Futebol, em determinados períodos, proibiram os seus visitantes de fotografar pois isso atrapalhava tremendamente o fluxo das pessoas na exposição. Hoje, com as redes sociais, todos os museus que proibiam fotos estão revendo os seus conceitos, dado que elas geram marketing gratuitamente. Nesse sentido, aqueles museus que já tinham questões com fluxo, a situação se agrava.

Alguns pontos que devem ser observados no estudo de fluxos:

  • Quantidade de visitantes em cada sala e salas que mais atraem visitantes e na qual eles permanecem mais tempo.
  • Visitantes com filhos pequenos e carrinhos de bebês: se o fluxo não for pensado considerando esses indivíduos, apenas um carrinho de bebê pode entupir uma sala.
  • Pessoas com necessidades especiais: não só cadeirantes, mas idosos, deficientes visuais e todo o tipo de necessidade deve ser considerada. Essas pessoas podem necessitar um tempo de visitação maior que a média e, se forem desconsideradas, isso pode gerar transtornos para elas e para os outros visitantes.
  • Instagrammers e afins: não é possível desconsiderar a invasão dos celulares e a necessidade das pessoas de fotografarem as obras. Por mais irritados que alguns curadores possam ficar com o público que vai ao museu apenas para fotografar, eles existem e ocupam um espaço dentro do museu. Devem ser previstos então os seus movimentos e a forma como modificam o fluxo da exposição.

Há alguns anos, entrando no site do Grand Palais, em Paris, era possível ver um gráfico que define os horários de maior ou menor visitação de determinada exposição:

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Assim, o museu te informa o fluxo de pessoas para que você se programe para visitá-lo no horário mais conveniente para você. Conhece o fluxo de todas as exposições e certamente conhece também o seu público. E mais: prepara o seu público para o que ele vai encontrar. Permite a pessoa com o carrinho de bebê se planejar para um horário mais calmo. Ou a pessoa que não tem o carrinho de bebê se prepara para encontrá-lo possivelmente no meio do caminho, junto com mais uma centena de pessoas.

Logicamente saber quantas pessoas circulam pela exposição é muito mais fácil do que estudar o seu público. Mas o fato do museu informar o seu público de qual o fluxo de pessoas, mostra que ele conhece o seu público e sabe que, dentro dele, existem pessoas que se programam com antecedência para visitar e se tiverem flexibilidade de tempo, escolherão o seu horário.

Sendo assim, conhecer o público é um estudo que leva tempo e depende da experiência dos profissionais dentro do museu. Um museu novo ainda não conhece quem é o seu público. Já um museu mais antigo com profissionais experientes deveria conhecê-lo e saber prever qual espaço destinar a cada sala e como as pessoas se comportarão dentro da exposição.

Veja um exemplo de exposição que mostra como o descaso com o estudo de fluxos afeta diretamente a experiência do usuário: “4 erros expográficos fatais que ofuscaram Caravaggio em BH“.

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Museus e obras em tempos de guerra

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Procurando o que tem de interessante acontecendo pelo mundo encontrei uma antiga reportagem que mostra o que aconteceu com o Louvre durante a II Guerra Mundial. O Museu, esvaziado, teve as suas obras devidamente encaixotadas e estas viajaram pelos castelos da França, sendo escondidas e mudando de lugar com frequência.

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Lembro-me de ter visto uma exposição no castelo de Chambord sobre as obras de arte que foram escondidas e viajavam em caixas de madeira apenas com 1, 2 ou 3 bolas vermelhas, que mostravam a importância de cada obra. Interessante perceber que durante a II Guerra, existem pessoas dedicadas e preocupadas em guardar a memória do passado para as gerações futuras, mostrando a esperança de que esse futuro realmente vai existir.

Outro relato interessante é o livro que originou o filme “Caçadores de Obras Primas”. Já traduzido para o português, o livro relata a experiência de um grupo dedicado a descobrir onde estavam as obras que Hitler pilhou de judeus e museus e escondeu.

“Os Monuments Men eram um grupo de homens e mulheres de 13 nações, quase todos apresentando-se como voluntários para servir na recém-criada seção Monu- ments, Fine Arts, and Archives, ou MFAA. Os primeiros, em sua maioria, tinham expe- riência como diretores de museus, curadores, estudiosos e professores de arte, artistas, arquitetos e arquivistas. A descrição de sua tarefa era simples: salvar o máximo possível da cultura da Europa durante os combates.” é um trecho do livro que pode ser visto parcialmente em: http://www.rocco.com.br/admin/Arquivos/LivroTrecho/b41e6eb6-9093-437f-a294-f977b0ada5c6Trecho.pdf

Mais sobre as obras do Louvre em: http://www.conexaoparis.com.br/2012/12/21/museu-do-louvre-durante-segunda-guerra-mundial/

Deutscher Werkbund: uma exposição sobre exposições

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Cartaz Deutsher Werkbund

A Exposição “Deutsher Werkbund – 100 anos de Arquitetura e Design na Alemanha” , no Centro Cultural São Paulo, pode ser considerada uma exposição sobre exposições.

Com conteúdo bastante interessante, ela mostra o crescimento deste movimento e as mudanças que ocorreram nele ao longo da história e também por consequência dos acontecimentos de cada época. Ao percorrer os inúmeros painéis de conteúdo, vê-se que cada painel fala de uma exposição representativa feita por aquele movimento para divulgar as suas inovações. E algumas delas traziam inovações nas suas formas de expor, como a exposição no Grand Palais em 1930, feita por Walter Gropius, na qual o arquiteto e antigo diretor da Bauhaus deu destaque a dois pequenos apartamentos – ou seja, uma montagem cenográfica – apresentando uma nova forma de habitar.

Diz o painel da exposição: “Para o enorme sucesso da muito admirada mostra contribuiu, em especial, o novo modo de apresentação. A partir de uma rampa com várias mudanças de direção, constituída por uma grela de aço era possível ver a partir de diferentes níveis, a decoração dos diferentes interiores das cinco salas. Os objetos estavam parcialmente empilhados uns sobre os outros nas paredes, fotografias de grandes dimensões foram montadas suspensas em vários ângulos de acordo com a linha de visão do observador. A percepção alterada e a encenação simultânea de arquitetura e objetos do quotidiano davam uma maior profundidade a impressão de se poder lançar um olhar sobre o mundo da habitação e da vida de um futuro determinado pela técnica, a mobilidade e a internacionalidade. A mostra, de uma modernidade radical, revelou não só uma atitude totalmente diferente da do anfitrião, mas também desencadeou uma discussão na França sobre as diferenças nacionais e os valores culturais”.

 

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Desta maneira, a exposição “Deutsher Werkbund – 100 anos de Arquitetura e Design na Alemanha”, vai se desenvolvendo e mostrando o quanto foram importantes as exposições para o crescimento e divulgação do movimento alemão. Com um conteúdo extremamente interessante para alguém que ama design e também exposições, a mostra lembra um pouco o Deutshes Museum, em Monique pela maneira que compõe o ambiente. E lembra este primeiro museu também pela exaustão causada bem antes do final da exposição.

Apesar de ocupar um pequeno espaço, os inúmeros paineis (mais de 50) apresentando o conteúdo, parecem apresentar a forma de um livro. Além disso, os textos em português estão na parte inferior, o que nos obriga a dobrar a cabeça para ter que lê-los. Fato esse que, claro, não faria tanta diferença se fossem um ou 2 painéis. O cansaço físico e intelectual é enorme e, ao fim da exposição o visitante está exausto. Mesmo que não tenha conseguido ler mais da metade dos painéis.

 

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Porém, como parece ser uma expo itinerante ela tem algumas caracteristicas interessantes: os paineis com imagens, são de alta qualidade, protegidos por um vidro e com legendas em duas línguas (alemão e inglês). Já os painéis com textos são claramente adaptados aos países em que estão. De qualidade inferior, mas seguindo a mesma linguagem e provavelmente o mesmo padrão de 2 linguas.

A imersão na exposição ocorre aos poucos, ainda na parte de fora da sala, com a contextualização histórica. Sem grandes pirotecnias conta a história de maneira precisa e direta. Bem alemã.

Mas não há dúvidas de que, pelo menos comigo, a exposição cumpriu o seu papel: despertar o interesse pelo assunto e fazer com que se continue buscando mais conhecimento sobre o assunto fora da exposição. Em breve, quem sabe, consigo postar aqui sobre as expos do Deutsher Werkbund.

 

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