3 exemplos de porque os museus devem repensar a política de selfies

Mesmo antes do fechamento e reabertura dos museus, havia um grande dilema em relação a fotos e selfies tiradas em frente as obras: preservar a integridade das obra em detrimento do crescimento do público ou permitir a divulgação dos museus nas redes sociais através de fotos e selfies e correr o risco da sua destruição?

Antes das redes sociais propiciarem a divulgação dos museus e gerar a atração do público, a preservação das obras era a prioridade. Se quiser uma recordação, compre na lojinha.

Muitos museus proibiam fotos por inúmeras razões sem medo, desde a preservação da obra até a forma como atrapalhavam o fluxo das exposições, como era o caso do Museu do Futebol no Brasil, em 2009, quando entrevistei Daniela Alfonsi, hoje diretora técnica do museu.

Depois da popularização das selfies em redes sociais, os museus se encontram em uma situação delicada: claramente há prejuízos em permiti-las – seja na destruição do patrimônio ou em outros âmbitos – mas o lucro também é importante, afinal o museu precisa sobreviver. O que fazer então?

Foram inúmeros casos até hoje de visitantes destruindo parcialmente obras ou até derrubando parte de uma exposição para fazer uma selfie.

No dia 31 de julho desse ano ocorreu novamente um incidente, dessa vez na Itália, em que um visitante senta em uma escultura para tirar uma foto e quebra os dedos dos pés da estátua de Paolina Bonaparte, feita há mais de 200 anos pelo escultor Antonio Canova, como mostra o vídeo abaixo:

Escultura de Paolina Bonaparte, de Antonio Canova (1757-1822), que teve 3 dedos dos pés quebrados por um turista que se sentou para fazer uma foto.

Neste outro episódio em 2017, uma visitante destrói uma instalação em Nova Iorque, “14h Factory”, gerando um efeito dominó impressionante.

Em 2016, um brasileiro derrubou uma escultura em madeira de “São Miguel” do século XVIII.

Escultura derrubada por um turista brasileiro em Lisboa.

Esses são os exemplos mais conhecidos e mais graves. Mas a política de permitir as selfies e fotos para divulgar os museus causa prejuízos em quase todos eles.

Fica então a questão: Será que existe um “caminho do meio” entre a permissão de selfies e a preservação do patrimônio ou vamos ter que optar por um deles?

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Crítica Expográfica é escrito por Renata Figueiredo Lanz, que, além de produtora de conteúdo neste blog também é diretora de criação da Renata Figueiredo | design gráfico + expografia . Para entrar em contato envie um e-mail para renata@refigueiredo.com.br

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A experiência do Inhotim: um deleite dos sentidos

Jardins do Inhotim vistos atráves do grande caleidoscópio.
http://www.matraqueando.com.br/tag/inhotim/

Passei alguns anos querendo conhecer este lugar, sobre o qual nunca ouvi nenhuma crítica negativa, muito pelo contrário: os comentários são sempre apaixonados.

Finalmente surgiu uma oportunidade de conhecê-lo, numa manhã ensolarada de um feriado. Como boa parte dos percursos do museu são a céu aberto, o fato de estar sol colaborou de maneira definitiva na experiência. Caso estivesse chovendo, a experiência certamente seria diferente. Diferente, não pior ou melhor.

O percurso de Belo Horizonte ao Inhotim é longo. Não tanto pela quilometragem, que é de menos de 70km, mas sim pela estreita, sinuosa e arborizada estrada. A ansiedade torna ainda cada quilômetro mais comprido.

Por outro lado, este percurso faz parte de um rito de passagem. O francês Jean Davallon cita inúmeras vezes a necessidade de um rito de passagem para a entrada em uma exposição. O visitante deve passar por uma transformação antes de imergir no universo expográfico e assim conseguir viver parte desta experiência. Pois bem, este longo percurso em um simpático e arborizado faz isso: um rito de passagem, onde o visitante vai, pouco a pouco, acostumando os seus olhos a uma nova realidade.

Chegando finalmente ao museu é possível perceber três das grandes marcas da experiência: organização, gentileza e facilidade. A sensação de acolhimento é imediata. Uma linda entrada arborizada, direcionada por gentilíssimos funcionários, mostra que você, visitante, entrou em um lugar que vai viver uma experiência realmente diferente.

Você então pega a sua pulseira na portaria e segue para o exuberante museu que, em grande parte, é a céu aberto. Com o mapa em mãos o visitante é informado sobre tudo que há e como chegar aos lugares.

O visitante segue o caminho buscando desvendar o lugar. Percebe-se então mais uma característica interessante do percurso: os pontos focais. Você então começa a ser atraído, continuamente, para a próxima obra, para o próximo pavilhão, etc. Se não tiver um mapa em mãos, ainda assim será “guiado” de uma obra para a outra, fazendo um percurso expográfico em que ela não se perde mas sim é constantemente estimulado a seguir em frente. Mesmo quando entra em uma mata fechada, as trilhas te conduzem até o próximo ponto focal.

Apesar de acreditar que está seguindo um caminho de acordo com a sua vontade e aleatório, acredite: você está sendo guiado. Isso faz parte do planejamento da exposição. Qualquer exposição bem feita é conduzida desta maneira. Você não precisa de guias, sinalização excessiva por todos os lados: os pontos focais simplesmente te conduzem à próxima informação.

A experiência de entrar e sair dos pavilhões também é única. Uma quebra acontece na entrada e saída de cada pavilhão, fazendo com que o visitante viva uma experiência sensorial que se alterna a cada movimento entre os pavilhões.

Esses movimentos de contração e expansão são muito importantes e interessantes para um visitante. Quando você entra no ambiente – em geral silencioso – é um movimento de contração, de absorção de informações. Quando sai, ocorre uma expansão, na qual é possível absorver as informações recebidas, processá-las, eventualmente descansar o corpo e a mente e ir para o próximo. Jean Davallon chama este movimento de jogo de retenções.

O apelo sensorial é, sem dúvida, uma das grandes características expográficas do Inhotim.

As obras de arte, arquitetura dos pavilhões, esculturas a céu aberto e o paisagismo de de Burle Marx fazem um interessante jogo visual. O visitante se sente estimulado a entrar em um pavilhão, apreende o seu conteúdo e, saindo deles, descansa o olhar em meio a natureza.

Qual a intenção disso?

Enquanto o visitante descansa os olhos, ele consegue também refletir, pensar sobre o que viu, fazer conexões, antes de chegar ao próximo ponto focal, que vai novamente trazer novos conhecimentos para o cérebro e possibilitar novas conexões. Ou seja, o espaço entre um ponto e outro permite ao visitante atingir o principal objetivo de um museu: levar a reflexão.

A mesma quebra ocorre também nos outros sentidos: a audição estimulada pela obras sonoras descansa ao som da mata. A dura sensação tatil do reto concreto dos edificíos, ou a frieza do metal das esculturas a céu aberto se contrapõe à irregularidade e ao calor dos trocos das árvores. O mesmo ocorre com as variações olfativas percebidas a cada entrada e saída.

E o paladar? Bom, ai é que o Inhotim mostra a sua característica de vender facilidades: o mapa já indica, mas o visitante certamente vai “tropeçar” em vários pontos de alimentação. Todos marcados pela elegância. Seja no restaurante da entrada onde é possível saborear longamente um buffet ou no ponto de hot-dog em que o visitante come rapidamente o seu lanche embaixo de uma frondosa árvore, o Inhotim oferece uma gama de opções para o visitante saborear aquilo que lhe convier. Sempre em um local agradável, pois a experiência do paladar também vem seguida de outras igualmente agradáveis e acolhedoras.

Para finalizar a questão da experiência resta fechar com a qualidade já citada no início: a facilidade. Um interessante recurso para facilitar a visita são os carrinhos de golf, que percorrem o parque levando os visitantes de um ponto ao outro. São pagos à parte, é claro. Mas trazem conforto, acolhimento, bem-estar.

É certo que toda essa estrutura tem um preço, pago parcialmente pelo visitante. O custo da visita é bastante alto, para padrões de museus brasileiros. Mas vale lembrar que nenhum museu no mundo se sustenta pela bilheteria.

Para finalizar, é importante lembrar que o foco desta análise discute a experiência do visitante e a forma como ele é conduzido e acolhido pelo museu. Discussões políticas, de relevância social ou até mesmo sobre arte serão feitas em outros artigos.

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Quem escreve o crítica expográfica?

Meu nome é Renata Figueiredo Lanz e sou a principal produtora de conteúdo para o blog Crítica Expográfica. Sou formada em arquitetura e urbanismo pela FAU-USP e fiz mestrado na mesma faculdade, com o tema relacionado à expografia, no qual eu estudava o design de diversas exposições pelo mundo. A principal exposição que analisei no meu mestrado foi a de longa duração do Museu do Futebol. Essa dissertação está disponível na linha do tempo do site da minha empresa desde agosto de 2020.

Sou também uma visitante assídua de exposições por todo mundo. Onde quer que eu vá, sempre encontro um museu ou uma exposição para visitar. Fanática por exposições até a raiz do cabelo, olho para tudo: não só o conteúdo, mas como ele é mostrado, enobrecido ou  depreciado e ainda quais as evidências de um conhecimento em cada display.

O mais interessante para mim é buscar quais as peripécias feitas pela curadoria para “encobrir” a falta de conteúdo crítico em uma exposição que, ao contrário do que deveria ser o propósito de um museu, não visa a reflexão, mas prima pelo simples entretenimento do público. Em geral para isso se cria uma exposição tão pirotécnica que as pessoas adoram, postam fotos e divulgam este “evento”, porém entram e saem sem conhecer quase nada sobre o assunto. 

Então na tentativa de passar um pouco dessa minha experiência para aqueles que, como eu, adoram museus e exposições, criei este blog. Divirta-se, aprenda, discuta, interaja. Aguardo sua colaboração para enriquecer ainda mais as reflexões e críticas.

 


Este conteúdo foi escrito por Renata Figueiredo Lanz que, além de produtora de conteúdo no blog crítica expográfica é diretora de criação da Renata Figueiredo | design gráfico + expografia . Para entrar diretamete em contato com a autora, envie um e-mail para contato@refigueiredo.com.br

A razão de ser do crítica expográfica

Este blog nasceu de uma idéia surgida na minha banca de mestrado, devido a uma observação da professora doutora Marilía Xavier Cury: criar um local para compartilhar experiências sobre visitas a exposições, expografia e temas correlatos.

Aqui então serão abordadas questões da experiência do usuário que visita uma exposição, tentando evidenciar as sensações que uma exposição transmite e porque as vezes, saímos de uma exposição super animados, mesmo não tendo aprendido nada? Ou ainda saímos decepcionados, sem saber muito bem a razão. Também teremos conteúdo sobre exposições e algumas análises do cenário das exposições no Brasil e no mundo.

Entre outras questões, ambiciona-se responder:
O que faz uma exposição de sucesso? Porque algumas exposições, mesmo tendo uma qualidade muito boa, nunca alcançam grande êxito, enquanto outras, de qualidade inferior, tem recordes de visitação?

Serão investigadas outras questões também:
Afinal, como funciona a construção de uma exposição? O que deve ser pensado? Porque certas coisas são feitas da maneira que são? Qual a diferença entre a intenção da curadoria e o resultado da exposição? Porque o projeto curatorial nem sempre se revela na expografia?

Por fim, este é um site experimental em que colaborações, comentários sobre exposições, etc, são muito bem-vindos!


Este conteúdo foi escrito por Renata Figueiredo Lanz que, além de produtora de conteúdo no blog Crítica Expográfica é diretora de criação da Renata Figueiredo | design gráfico + expografia . Para entrar diretamete em contato com a autora, envie um e-mail para contato@refigueiredo.com.br