3 exemplos de porque os museus devem repensar a política de selfies

Mesmo antes do fechamento e reabertura dos museus, havia um grande dilema em relação a fotos e selfies tiradas em frente as obras: preservar a integridade das obra em detrimento do crescimento do público ou permitir a divulgação dos museus nas redes sociais através de fotos e selfies e correr o risco da sua destruição?

Antes das redes sociais propiciarem a divulgação dos museus e gerar a atração do público, a preservação das obras era a prioridade. Se quiser uma recordação, compre na lojinha.

Muitos museus proibiam fotos por inúmeras razões sem medo, desde a preservação da obra até a forma como atrapalhavam o fluxo das exposições, como era o caso do Museu do Futebol no Brasil, em 2009, quando entrevistei Daniela Alfonsi, hoje diretora técnica do museu.

Depois da popularização das selfies em redes sociais, os museus se encontram em uma situação delicada: claramente há prejuízos em permiti-las – seja na destruição do patrimônio ou em outros âmbitos – mas o lucro também é importante, afinal o museu precisa sobreviver. O que fazer então?

Foram inúmeros casos até hoje de visitantes destruindo parcialmente obras ou até derrubando parte de uma exposição para fazer uma selfie.

No dia 31 de julho desse ano ocorreu novamente um incidente, dessa vez na Itália, em que um visitante senta em uma escultura para tirar uma foto e quebra os dedos dos pés da estátua de Paolina Bonaparte, feita há mais de 200 anos pelo escultor Antonio Canova, como mostra o vídeo abaixo:

Escultura de Paolina Bonaparte, de Antonio Canova (1757-1822), que teve 3 dedos dos pés quebrados por um turista que se sentou para fazer uma foto.

Neste outro episódio em 2017, uma visitante destrói uma instalação em Nova Iorque, “14h Factory”, gerando um efeito dominó impressionante.

Em 2016, um brasileiro derrubou uma escultura em madeira de “São Miguel” do século XVIII.

Escultura derrubada por um turista brasileiro em Lisboa.

Esses são os exemplos mais conhecidos e mais graves. Mas a política de permitir as selfies e fotos para divulgar os museus causa prejuízos em quase todos eles.

Fica então a questão: Será que existe um “caminho do meio” entre a permissão de selfies e a preservação do patrimônio ou vamos ter que optar por um deles?

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5 razões porque você deve ser contra a destruição das estátuas de carrascos racistas

O terrível assassinato de George Floyd deu início a uma onda de protestos que culminou na destruição na Europa e Estados Unidos de algumas estátuas de personagens ligados ao tráfico de escravos negros. Porém esse aniquilamento de um símbolo, pode ser muito mais problemático a longo prazo do que preservar-lo. As implicações são inúmeras, mas são citadas aqui apenas 5 para que você reflita antes de apoiar e repetir no Brasil esse aniquilamento da memória.

  1. Derrubar uma a estátua não afasta o problema

O fato de destruir um o patrimônio funciona muito bem na mídia como um símbolo de uma revolta. Os protestos são válidos e devem acontecer. Mas destruir o patrimônio está longe de eliminar o problema racial e o seu efeito a médio e longo prazo é muito pior do que preservá-los por inúmeras razões, dentro das quais discutiremos somente cinco aqui neste artigo.

É natural que todos nós queiramos destruir aquilo que nos incomoda. Mas a verdade é que precisamos ser incomodados. Somente esse incômodo nos leva a transformação. É a presença do problema que nos traz a transformação e não a ausência dele no fundo de um rio.

O patrimônio nos serve portanto para a reflexão e com o objetivo de gerar esse incômodo para trazer à tona as questões que desejamos esquecer mas precisam estar presentes nas nossas vidas. É apenas trazendo o problema à luz que vamos mudar a sociedade e a sua forma de agir e não derrubando um símbolo de opressão.

2. Os apagamentos históricos e seus efeitos

Fonte: Cottonbro/Pexels

Retirando um símbolo de uma praça pública ou de um museu, se deseja apagar aquele episódio ou aquela pessoa da história.

Porém, esse ato além de não apagar o problema, “joga a sujeira para debaixo do tapete”, como se ele não tivesse existido e, pior, se a sociedade não tem consciência de que certa atrocidade existiu, a possibilidade de que os erros se repitam é enorme. Imagine como seria se deletassem Hitler da história?

O registro histórico torna a barbárie presente a qualquer tempo e a preservação da memória nos faz não querer repeti-lo.

Ao invés de destruir o monumento feito originalmente para homenagear um carrasco racista, seria muito mais interessante construir mecanismos de mediação que exponham o problema e mostrem que historicamente ele não é um líder e nem um exemplo a ser seguido. 

3. Efemeridade x materialidade

Alguns grupos defendem que a destruição trouxe a tona as questões pois as fotos foram amplamente divulgadas nas redes sociais e isso se tornou viral. Porém, qual o efeito do seu post no instagram nos próximos 50 anos?

Uma peça de museu é um objeto de estudo e reflexão contínuos, que são  revistos, ressignificados e estudados à luz de novas descobertas ou concepções sociais.

Acreditar que a repercussão nas redes pela força das imagens tem efeitos a médio e longo prazo na história chega a ser ingênuo. Não podemos estudar a memória e a história apoiados em bolhas de sabão.  

4. Revendo a história: o negro como vítima x negro atuante

Fonte: Clay Banks/Unsplash

Na história do Brasil e do mundo o negro é visto como vítima, sem protagonismo ou capacidade de ser agente social.

Desde o ensino básico fomos levados a imaginar que o negro seria mais fácil de ser escravizado que o índio e uma série de lugares-comuns  de uma história superficial que era ensinada nas escolas.

Se você ainda não concorda, então responda: qual costuma ser o grande símbolo da escravidão na maioria dos museus brasileiros? A algema, a corrente e a chibata.

Artigos, teses e mestrados mostram que o escravo negro foi muito mais do que isso e que considerá-lo como ser passivo sem protagonismo histórico é um grande erro.

Especialmente nas cidades, existiam categorias de escravos que eram importantes agentes sociais, participantes, atuantes e relevantes para a sociedade. Essa nova visão que, apesar de não deixar de lado as questões cruéis da escravidão, exalta a figura do negro forte, resistente e atuante em uma sociedade colonial, o coloca o negro na posição de protagonista e não somente de vitima, traz força e auto-estima para os afro-descendentes. Nesse sentido, derrubar estátuas de agressores, continua a enfraquecer a presença do negro no cenário nacional e mundial.  

Por todas essas questões, é muito mais proveitoso para a sociedade a longo prazo re-significar um símbolo ao invés de destruí-lo.

5. Exija dos museus o protagonismo na história, não a destruição de monumentos

Museus são espaços de reflexão, discussão e inquietação. Museus milionários tem sido construídos no Brasil e se transformado em espaços de apagamento.

Dois museus em especial, que são frutos de críticas aqui no blog, o Museu do Futebol e o Museu de Congonhas, tem a questão racial como grande incômodo a ser evitado.

O primeiro exalta o brasileiro como um miscigenado criativo. Esse lugar comum da criatividade advinda da mistura de raças ignora todas as questões advindas do futebol. Em depoimento recente um grande técnico ainda reforça que xingamentos no futebol para os negros não tem importância. Onde está esse espaço de questionamento dentro da exposição de longa duração do museu? Veja a crítica completa aqui no blog.

Já o Museu de Congonhas, que foi criado em um dos grandes centros da escravidão do Brasil para homenagear o Barroco Brasileiro e por consequência Aleijadinho, se esquece da questão racial. Este artista, grande protagonista do Barroco era um filho de português com a sua escrava. Foi alforriado pelo pai. A história dele, que começa assim, foi minimizada em virtude do grande gênio que se tornou. E quais outros tantos apagamentos temos por trás dessa história?

Enquanto os museus brasileiros forem encarados como espaços de entretenimento e lazer, feitos para serem fotografados e viralizados nas redes sociais sofreremos com esses apagamentos que se perpetuam na educação não formal e durante gerações acreditamos na história que nos é contada.

Ao invés de destruir esculturas, exija a presença desses conflitos nos espaços de reflexão.

Portanto está na hora de entendermos a gravidade das consequências do dinheiro público ser utilizado para a construção de parques temáticos e não de museus, na acepção original do termo.

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A experiência do Inhotim: um deleite dos sentidos

Jardins do Inhotim vistos atráves do grande caleidoscópio.
http://www.matraqueando.com.br/tag/inhotim/

Passei alguns anos querendo conhecer este lugar, sobre o qual nunca ouvi nenhuma crítica negativa, muito pelo contrário: os comentários são sempre apaixonados.

Finalmente surgiu uma oportunidade de conhecê-lo, numa manhã ensolarada de um feriado. Como boa parte dos percursos do museu são a céu aberto, o fato de estar sol colaborou de maneira definitiva na experiência. Caso estivesse chovendo, a experiência certamente seria diferente. Diferente, não pior ou melhor.

O percurso de Belo Horizonte ao Inhotim é longo. Não tanto pela quilometragem, que é de menos de 70km, mas sim pela estreita, sinuosa e arborizada estrada. A ansiedade torna ainda cada quilômetro mais comprido.

Por outro lado, este percurso faz parte de um rito de passagem. O francês Jean Davallon cita inúmeras vezes a necessidade de um rito de passagem para a entrada em uma exposição. O visitante deve passar por uma transformação antes de imergir no universo expográfico e assim conseguir viver parte desta experiência. Pois bem, este longo percurso em um simpático e arborizado faz isso: um rito de passagem, onde o visitante vai, pouco a pouco, acostumando os seus olhos a uma nova realidade.

Chegando finalmente ao museu é possível perceber três das grandes marcas da experiência: organização, gentileza e facilidade. A sensação de acolhimento é imediata. Uma linda entrada arborizada, direcionada por gentilíssimos funcionários, mostra que você, visitante, entrou em um lugar que vai viver uma experiência realmente diferente.

Você então pega a sua pulseira na portaria e segue para o exuberante museu que, em grande parte, é a céu aberto. Com o mapa em mãos o visitante é informado sobre tudo que há e como chegar aos lugares.

O visitante segue o caminho buscando desvendar o lugar. Percebe-se então mais uma característica interessante do percurso: os pontos focais. Você então começa a ser atraído, continuamente, para a próxima obra, para o próximo pavilhão, etc. Se não tiver um mapa em mãos, ainda assim será “guiado” de uma obra para a outra, fazendo um percurso expográfico em que ela não se perde mas sim é constantemente estimulado a seguir em frente. Mesmo quando entra em uma mata fechada, as trilhas te conduzem até o próximo ponto focal.

Apesar de acreditar que está seguindo um caminho de acordo com a sua vontade e aleatório, acredite: você está sendo guiado. Isso faz parte do planejamento da exposição. Qualquer exposição bem feita é conduzida desta maneira. Você não precisa de guias, sinalização excessiva por todos os lados: os pontos focais simplesmente te conduzem à próxima informação.

A experiência de entrar e sair dos pavilhões também é única. Uma quebra acontece na entrada e saída de cada pavilhão, fazendo com que o visitante viva uma experiência sensorial que se alterna a cada movimento entre os pavilhões.

Esses movimentos de contração e expansão são muito importantes e interessantes para um visitante. Quando você entra no ambiente – em geral silencioso – é um movimento de contração, de absorção de informações. Quando sai, ocorre uma expansão, na qual é possível absorver as informações recebidas, processá-las, eventualmente descansar o corpo e a mente e ir para o próximo. Jean Davallon chama este movimento de jogo de retenções.

O apelo sensorial é, sem dúvida, uma das grandes características expográficas do Inhotim.

As obras de arte, arquitetura dos pavilhões, esculturas a céu aberto e o paisagismo de de Burle Marx fazem um interessante jogo visual. O visitante se sente estimulado a entrar em um pavilhão, apreende o seu conteúdo e, saindo deles, descansa o olhar em meio a natureza.

Qual a intenção disso?

Enquanto o visitante descansa os olhos, ele consegue também refletir, pensar sobre o que viu, fazer conexões, antes de chegar ao próximo ponto focal, que vai novamente trazer novos conhecimentos para o cérebro e possibilitar novas conexões. Ou seja, o espaço entre um ponto e outro permite ao visitante atingir o principal objetivo de um museu: levar a reflexão.

A mesma quebra ocorre também nos outros sentidos: a audição estimulada pela obras sonoras descansa ao som da mata. A dura sensação tatil do reto concreto dos edificíos, ou a frieza do metal das esculturas a céu aberto se contrapõe à irregularidade e ao calor dos trocos das árvores. O mesmo ocorre com as variações olfativas percebidas a cada entrada e saída.

E o paladar? Bom, ai é que o Inhotim mostra a sua característica de vender facilidades: o mapa já indica, mas o visitante certamente vai “tropeçar” em vários pontos de alimentação. Todos marcados pela elegância. Seja no restaurante da entrada onde é possível saborear longamente um buffet ou no ponto de hot-dog em que o visitante come rapidamente o seu lanche embaixo de uma frondosa árvore, o Inhotim oferece uma gama de opções para o visitante saborear aquilo que lhe convier. Sempre em um local agradável, pois a experiência do paladar também vem seguida de outras igualmente agradáveis e acolhedoras.

Para finalizar a questão da experiência resta fechar com a qualidade já citada no início: a facilidade. Um interessante recurso para facilitar a visita são os carrinhos de golf, que percorrem o parque levando os visitantes de um ponto ao outro. São pagos à parte, é claro. Mas trazem conforto, acolhimento, bem-estar.

É certo que toda essa estrutura tem um preço, pago parcialmente pelo visitante. O custo da visita é bastante alto, para padrões de museus brasileiros. Mas vale lembrar que nenhum museu no mundo se sustenta pela bilheteria.

Para finalizar, é importante lembrar que o foco desta análise discute a experiência do visitante e a forma como ele é conduzido e acolhido pelo museu. Discussões políticas, de relevância social ou até mesmo sobre arte serão feitas em outros artigos.

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4 erros expográficos fatais que ofuscaram Caravaggio em BH

A exposição ”Carvaggio e seus seguidores” que inaugurou com recorde de público, infelizmente decepciona pela forma como a expografia desvaloriza as poucas obras deste grande mestre do Barroco.

Durante a visita ficou muito claro que há pouca experiência e vivência em exposições de quem idealizou o espaço, o que impacta diretamente na experiência da exposição (reflexo imediato da falta de qualidade da expografia) .

1. Percurso/Fluxo

Logo na entrada da sala você fica em dúvida se vai a esquerda, ler as explicações sobre a obra San Francesco in Meditazione ou se disputa um lugar na frente do painel de abertura da sala com as obras de Caravaggio.

O percurso se torna portanto, livre, e o visitante pode transitar e ver as obras na seqüência em que preferir.

O percurso livre de exposições não necessariamente é ruim, mas é mais difícil de ser trabalhado, pois devem ser criados pontos de atração muito interessantes, especialmente quando se trata de uma sequência cronológica. Então necessita mais vivência e conhecimento do museu em que se trabalha. Para uma exposição temporária, pode ser desastroso.

Optando por ler sobre San Francesco in Meditazione, você se depara com os seguintes painéis:

Imagem retirada do facebook da Casa Fiat, já que não é permitido aos visitantes fotografar a exposição.

Os textos – excessivamente longos – explicam a questão sobre as cópias existentes de uma mesma obra e todas as técnicas utilizadas para tentar perceber o que estava por baixo da obra final, descobrindo assim um possível “original”  e suas possíveis cópias.

O conteúdo do texto é bastante interessante, mas um pouco prolixo e desnecessariamente longos. Além disso, os painéis acumulados em um canto da sala, com textos sem fim faz com que o visitante interessado queira – ou pelo menos tente – parar por alguns minutos para lê-los.

Quando o visitante passa muito tempo em frente a um painel, acontece o óbvio – pelo menos para aqueles que tem alguma vivência em museus – os visitantes se acumulam no canto tentando ler o texto, o cansaço físico e visual bate e você, que estava interessado no conteúdo, desiste de ler, impedido também pelos esbarrões, pessoas que entram na frente e um sinal sonoro que insiste em tocar cada vez que uma pessoa avança além da faixa permitida.

São muitos estímulos para que você, visitante interessado, perca a concentração, mas a principal questão reside em que aqueles que contratam uma exposição, acreditarem que aquele profissional que trabalha apenas com arquitetura ou com design gráfico pode fazer uma exposição de forma competente. Leia “Como se forma um profissional de expografia” e entenda qual a complexidade da formação profissional exigida para esta área.

Jean Davallon, autor de “L’exposition à L’ouvre” e grande especialista em exposições, deixa bastante claro que uma exposição não é um livro. E tanto a diagramação quanto a imensa quantidade de textos dessa exposição mostram que os textos foram tratados como um livro a ser lido na parede.

Após as longas explicações sobre as obras você espera encontrar as obras, certo? Errado. Você lê o texto, atravessa a exposição – que não é tão grande – e observa as obras. Após observar a obra, você lembra de algo que leu no texto e tem uma dúvida, então volta e lê novamente. Nesse caso então, o percurso livre e muito mal projetado torna o fluxo de visitantes caótico.

Duas das obras referenciadas no texto sobre as cópias estão na exposição. Você espera, depois de tantas e tão longas explicações, poder compará-las para ver se realmente elas são idênticas. Por alguma razão desconhecida elas estão em paredes opostas, o que impossibilita essa comparação da maneira que se gostaria. Porque elas não estão lado a lado?

Você então, junto com os outros visitantes, vai de uma a outra tentando buscar semelhanças e diferenças. O fluxo da exposição é perturbado ainda mais, aumentando o caos desta pequena exposição, com um grande fluxo de pessoas atraídas por uma propaganda massiva que se interessa pelo tema. Uma pequena exposição, para grande público, sem projeto de percurso transforma os visitantes em peregrinos desorientados, sem mapa, em busca de uma catedral.

Se você ainda não compreendeu a razão pela qual deve pensar o fluxo de uma exposição antes de projetá-la, conheça o nosso artigo a esse respeito

2. Iluminação

A dramaticidade da iluminação das salas parecem remeter a própria obra de Caravaggio, que iluminava pontos focais das cenas considerados relevantes para a sua narrativa.

Porém, ao contrario do grande mestre Barroco, a exposição tenta iluminar o mais importante, mas sofre com problemas como o ofuscamento.

No painel de entrada da sala a luz focada nos textos dificulta ou impossibilita a leitura graças a esse fenômeno do ofuscamento. Erro básico, sem dúvida, mas encontrado até em um dos mais recentes – e polêmicos – museus de Paris, o Musée du Quai Branly. Diante de tanto brilho refletido na parede, o visitante tenta ir de um lado para o outro para conseguir ler tudo, fugindo do foco de luz incidente no meio do texto. E, como citado no item anterior, o percurso, já caótico, é ainda mais atrapalhado por pessoas em zig-zag na frente de um texto de abertura.

O mesmo acontece com as legendas das obras e, por incrível que pareça, em algumas obras. Focos de luz brilham em pontos de San Francesco e interferem significativamente na percepção da obra de arte.

Imagem retirada do facebook da Casa Fiat, já que não é permitido aos visitantes fotografar a exposição.

Por outro lado, a luz em volta da Medusa chama a atenção para aquele ponto focal no fundo da exposição. Chegando lá, além da iluminação, a caixa de vidro que protege o quadro parece mostrar que estamos diante de uma jóia. A obra do mestre encanta, sem intervenções luminosas, e se valoriza.

3. Intervenções sonoras

Como dito então em muitos momentos, devido a luz projetada nas obras e nas legendas, não é possível ler as legendas de tais obras. E quem se aproximar da legenda para tentar ler mais de perto no escuro espaço, ouvi um agudo: piiiiiiiii! Soa um alarme altissimo, com um segurança ao lado pronto a dar uma bronca: para trás da faixa! (Sirrr, yesss sir!)

Fui numa sexta feira, emenda de feriado para muitos. Sem fila, ao contrario do que é visto na reportagem acima. Sem multidões. Não tinha mais de 30 ou 40 pessoas na sala. O alarme tocava a cada 2 ou 3 minutos. Depois de alguns instantes os visitantes se cansam, se irritam e saem.

Ainda segundo a reportagem esta foi uma exigëncia dos museus para trazer as obras para o perigisissimo país em que vivemos. Até onde me consta, existem alarmes que tocam se alguém mexer na obra ou tirá-la da parede. Considerando que são apenas 20 obras no total, seria muito complexo não transformar a visita num terror sonoro e garantir a segurança das obras?

O visitante não pode fotografar, não pode se aproximar, não pode usar o celular e ah, não pode fazer anotações também. Vejam o relato do visitante maltratado em: 

“Além da beleza inconteste das obras de Caravaggio e seus seguidores, o que mais chamou a atenção na exposição em cartaz na Casa Fiat de Cultura de Belo Horizonte (MG) foi a arbitrariedade da segurança do local. Ao tentar fazer anotações a respeito das telas com papel e caneta, como um espectador comum, sem as vantagens e os mascaramentos geralmente oferecidos à imprensa nesse tipo de evento, o autor dessa resenha foi impelido abruptamente e sem qualquer tipo de respeito por um segurança como se estivesse cometendo algum crime. Cita-se esse caso como exemplo do excesso de zelo e a total inabilidade de muitos museus brasileiros com relação aos visitantes, o que confirma a eterna sensação de que eles geralmente não são bem vindos nesse tipo de ambiente.” (Rede Brasil Atual)

Isso mostra apenas como a falta de experiência em exposições pensou apenas no impacto na mídia e nas filas na porta e não no público geral. Fazer com que o visitante seja bem vindo e se sinta confortável e acolhido no museu é obrigação dos criadores da exposição. A responsabilidade por treinar e orientar os seguranças ou demais funcionários portanto também é deles. Veja o exemplo do Inhotim, fruto de outra crítica deste blog e como o visitante pode se sentir acolhido se os seus funcionários são orientados e treinados de maneira adequada.

4. Acessibilidade

Laura Martins, do blog Cadeira Voadora, define alguns pontos importantes sobre a acessibilidade da exposição:

  • mesmo a exposição sendo acessível, o acesso a ela pela rua é bastante difícil envolvendo ladeiras, risco de queda e quantidade de estacionamento restrita.
  • o transporte gratuito oferecido não atende a cadeirantes.
  • o banheiro acessível não tranca, o que causa constrangimentos.
  • as rampas são muito íngremes e o elevador é pequeno.

Esse importante depoimento nos mostra que, mesmo existindo uma regulamentação para deficientes, ela nem sempre funciona e, principalmente, que o acesso para a chegada das exposições também deve ser considerado na produção de uma exposição acessível.

Por fim, Caravaggio é um artista que tem seu brilho próprio. Porém essa exposição nos mostra como um projeto expográfico mal conduzido pode ofuscar até mesmo um dos grandes mestres do Barroco, fazendo com que você, visitante interessado e curioso, acabe se desinteressando pelo conteúdo graças as dificuldades impostas pela forma da exposição.

Medusa, de Caravaggio. Foto: Carole Raddato.

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Quem escreve o crítica expográfica?

Meu nome é Renata Figueiredo Lanz e sou a principal produtora de conteúdo para o blog Crítica Expográfica. Sou formada em arquitetura e urbanismo pela FAU-USP e fiz mestrado na mesma faculdade, com o tema relacionado à expografia, no qual eu estudava o design de diversas exposições pelo mundo. A principal exposição que analisei no meu mestrado foi a de longa duração do Museu do Futebol. Essa dissertação está disponível na linha do tempo do site da minha empresa desde agosto de 2020.

Sou também uma visitante assídua de exposições por todo mundo. Onde quer que eu vá, sempre encontro um museu ou uma exposição para visitar. Fanática por exposições até a raiz do cabelo, olho para tudo: não só o conteúdo, mas como ele é mostrado, enobrecido ou  depreciado e ainda quais as evidências de um conhecimento em cada display.

O mais interessante para mim é buscar quais as peripécias feitas pela curadoria para “encobrir” a falta de conteúdo crítico em uma exposição que, ao contrário do que deveria ser o propósito de um museu, não visa a reflexão, mas prima pelo simples entretenimento do público. Em geral para isso se cria uma exposição tão pirotécnica que as pessoas adoram, postam fotos e divulgam este “evento”, porém entram e saem sem conhecer quase nada sobre o assunto. 

Então na tentativa de passar um pouco dessa minha experiência para aqueles que, como eu, adoram museus e exposições, criei este blog. Divirta-se, aprenda, discuta, interaja. Aguardo sua colaboração para enriquecer ainda mais as reflexões e críticas.

 


Este conteúdo foi escrito por Renata Figueiredo Lanz que, além de produtora de conteúdo no blog crítica expográfica é diretora de criação da Renata Figueiredo | design gráfico + expografia . Para entrar diretamete em contato com a autora, envie um e-mail para contato@refigueiredo.com.br

A razão de ser do crítica expográfica

Este blog nasceu de uma idéia surgida na minha banca de mestrado, devido a uma observação da professora doutora Marilía Xavier Cury: criar um local para compartilhar experiências sobre visitas a exposições, expografia e temas correlatos.

Aqui então serão abordadas questões da experiência do usuário que visita uma exposição, tentando evidenciar as sensações que uma exposição transmite e porque as vezes, saímos de uma exposição super animados, mesmo não tendo aprendido nada? Ou ainda saímos decepcionados, sem saber muito bem a razão. Também teremos conteúdo sobre exposições e algumas análises do cenário das exposições no Brasil e no mundo.

Entre outras questões, ambiciona-se responder:
O que faz uma exposição de sucesso? Porque algumas exposições, mesmo tendo uma qualidade muito boa, nunca alcançam grande êxito, enquanto outras, de qualidade inferior, tem recordes de visitação?

Serão investigadas outras questões também:
Afinal, como funciona a construção de uma exposição? O que deve ser pensado? Porque certas coisas são feitas da maneira que são? Qual a diferença entre a intenção da curadoria e o resultado da exposição? Porque o projeto curatorial nem sempre se revela na expografia?

Por fim, este é um site experimental em que colaborações, comentários sobre exposições, etc, são muito bem-vindos!


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