Conheça museus realmente interativos (e pare de ser enganado)

Atualmente no Brasil os termos “interatividade” e “experiência multisensorial” são alardeados como um grande ganho ao visitante, convidado a fazer filas na frente dos museus.

Chegando lá, a grande decepção. O museu (supostamente) interativo é na verdade um espaço repleto de gadgets tecnológicos que seguem a lógica abaixo, do artigo “O fetiche da interatividade em dispositivos museais: eficácia ou frustração na difusão do conhecimento científico”:

“o uso recorrente e irrefletido das novas tecnologias nas salas de exposição tem levado a uma sacralização equivocada dos dispositivos digitais como melhores alternativas para a instauração da interatividade e do prazer nas experiências museais”*

Ou seja, os gadgets supostamente interativos são prioritários e predominantes na exposição, em detrimento da experiência real. Chegamos agora ao limite em que a exposição é somente o dispositivo interativo, como na exposição sobre Leonardo Da Vinci em São Paulo no MIS Experience.

Porém, hoje procurando outro tema, encontrei um exemplo significativo de interatividade, experiência multissensorial e ainda uma experiência memorável no museu. Isso tudo trabalhado com crianças, criando uma primeira experiência no museu a ser lembrada para o resto da vida, e consequentemente uma memória afetiva que os farão voltar a esse espaço.

As experiências vistas e descritas no vídeo abaixo podem ser analisadas de dois pontos de vista (no mínimo).

  • interatividade e multisensorialidade. Esses conceitos são percebidos realmente acontecendo. Veja o nosso artigo sobre interatividade. Já em relação a experiência multissensorial perceba como os cinco sentidos (tato, olfato, visão, audição e paladar) são efetivamente trabalhados nessas atividades.
  • considera a fase do desenvolvimento infantil e não tenta “encaixotar” a criança em um universo em que não se pode tocar, correr ou experimentar. Segundo Rudolf Steiner**, a criança de 0 a 7 anos usa todas as suas forças para o desenvolvimento do seu corpo. Por isso a idéia de ficar parado em frente a um objeto sem poder tocá-lo ou experimentá-lo parece entediante e gera rápida dispersão e desinteresse. Sensações e impressões que podem ser levadas para toda a vida.

Por outro lado, experiências criadas pelo Tropenmuseum Junior em Amsterdam, não foram premiadas à toa. Criam de fato experiências que são relatadas por adultos anos depois como algo memorável, que criou uma relação afetiva com os museus.

De Qi van China – Chinatour voor scholen no Tropenmuseum

Nela, de fato, a interatividade a experiência multissensorial foram muito além da mera publicidade imediatista.

_________

Curta nossas redes sociais:

Insta: @criticaexpografica | Face: facebook.com/criticaexpografica

_________

Crítica Expográfica é escrito por Renata Figueiredo Lanz, que, além de produtora de conteúdo neste blog também é diretora de criação da Renata Figueiredo | design gráfico + expografia . Para entrar em contato envie um e-mail para renata@refigueiredo.com.br

_________

Gostou do post ou tem uma outra opinião? Deixe seu comentário abaixo.

O efêmero mais importante que o histórico

Há algum tempo atrás, um dos leitores do blog teve uma discussão calorosa defendendo que cada um deveria ter a fruição que mais lhe apeteça e que eu, ao defender que as pessoas não deviam circular pelo museu fazendo selfies sequenciais sem olhar para as obras, seria preconceituosa e retrógrada. Pois então, justamente um brasileiro, entra em um museu português e claramente não olha para a obra, pois é muito mais importante retratar os seus 2 segundos em frente a obra do que os 300 anos em que ela foi guardada, estudada e conservada. Será mesmo que mostrar para os seus amigos a felicidade aparente em uma exposição (que no fundo a pessoa não viu) é tão importante a ponto de destruir o patrimônio. Será que o marketing gerado pelos milhares de selfies postados traria um retorno suficiente para compensar a perda de pelo menos duas (veja o artigo) obras de arte? artigo: http://orapois.blogfolha.uol.com.br/2016/11/07/brasileiro-destroi-estatua-de-300-anos-ao-tirar-selfie-em-museu-de-lisboa/?cmpid=compfb _________ Curta nossas redes sociais: Insta: @criticaexpografica | Face: facebook.com/criticaexpografica _________ Crítica Expográfica é escrito por Renata Figueiredo Lanz, que, além de produtora de conteúdo neste blog também é diretora de criação da Renata Figueiredo | design gráfico + expografia . Para entrar em contato envie um e-mail para renata@refigueiredo.com.br _________ Gostou do post ou tem uma outra opinião? Deixe seu comentário abaixo.

Quando refletimos? Quando paramos?

OB81V70.jpg
fonte:<a href=”http://www.freepik.com/free-photos-vectors/background”>Background photograph designed by Jcomp – Freepik.com</a>
Há uma febre que critica “Pokemon Go” como se este fosse o grande problema nos nossos tempos. Agora ele chegou aos museus e exposições e já divide o público entre os críticos ferrenhos e aqueles que querem trazer o público para o museu a qualquer custo. Muitos chamam os usuários do jogo de zumbis ou de alienados. Contudo, a alienação gerada pelo jogo nada mais é do que um reflexo da alienação geral, de seres humanos com os seus dispositivos móveis que, teoricamente, nos conectam com o mundo. Faz algum tempo me incomodo com a necessidade de se estar conectado o tempo inteiro. Outro dia, no supermercado, a promotora de vendas de uma produto alimentar, digitava freneticamente no celular e se escondeu entre as caixas de cerveja ao ver a aproximação de uma pessoa (eu, no caso). Nem olhou para a frente, simplesmente continuou digitando, se embrenhou entre as cervejas e esqueceu que o seu trabalho seria oferecer o produto da bandeja que carregava. Na sequencia, no mesmo supermercado, um repositor de produtos, passa empurrando um carrinho enorme, vazio, de volta para o estoque, também digitando no celular, sem olhar para a frente. Em um balcão, várias pessoas (inclusive eu) com a comanda na mão esperam a vez de uma atendente, enquanto a outra digita no seu celular, fingindo não ver o mundo a sua volta. Dou a volta no balcão e chego na lateral, de frente para a atendente com o papel. Ela vira de costas e continua digitando, ignorando a presença de um cliente. Mas, o que isso tem a ver com exposições? Tem a ver com a forma que as gerações estão encarando o mundo e, consequentemente, as exposições e o conhecimento nela retido. O ser humano não reconhece mais o outro, nem o que ocorre no mundo a sua volta. Passa o tempo todo ligado, conectado, não presta mais atenção a sua volta. Nesse contexto, quando, realmente o cérebro descansa e pára para olhar o outro? E para refletir sobre o que está acontecendo consigo ou com o próximo? Ou ainda para fazer conexões entre conhecimentos, refletir sobre determinados temas, antes de reagir sobre eles? Segundo Jean Davallon*, em uma exposição, trabalhamos com um jogo de retenções. Ou seja, para absorver conteúdos, o visitante é estimulado em pontos mais fortes ou mais fracos da exposição, tendo inclusive momentos de descanso, que o permitem absorver e refletir sobre o que foi dito. É portanto em um momento de menor estímulo que o visitante vai conseguir estabelecer conexões. Como então, um cérebro hiperestimulado por recursos multisensoriais das exposições, excesso de informações vindas de dispositivos móveis e nenhum momento de “descanso” vai conseguir refletir sobre algo, criar conexões e até analisar criticamente um conteúdo? Como as pessoas que não estão mais acostumadas a ficar 2 minutos paradas pensando (nem na fila, nem no trânsito, nem no restaurante, nem com os amigos) vão estabelecer algum tipo de raciocínio não só nas exposições, mas na escola, faculdade, política ou ainda em uma conversa com amigos? O tempo para a reflexão ou ainda para o descanso do cérebro, valorizado por Domenico de Mais em seu “ócio criativo”, parece ter evaporado. Não descansamos, não tiramos férias, não nos desconectamos. Aonde está então o espaço para pensarmos? Será que ele ainda existe? Será que teremos tempo para parar e pensar antes de reagir? Ou simplesmente um pouco de tempo para parar e não pensar em nada, como faziam os nossos pais nas férias, em frente ao mar? Pokemon Go vai embora em breve, como o Candy Crush e tantos outros. Ele só jogou na nossa cara questões que já existiam. Os tão criticados zumbis alienados andando pela rua atrás de um Pokemon refletem a realidade de todos nós, olhando para baixo, dia e noite, buscando notícias ininterruptamente (seja em um jornal ou em uma rede social), digitando e-mails, mensagens, postando fotos ou fazendo algo realmente importante e inadiável no celular, no meio da rua, no trânsito, no trabalho, na exposição, no museu, no consultório, no restaurante ou no centro espírita. *DAVALLON, Jean. L’exposition a l’oeuvre: stratégies de communication et médiation symbolique. Paris: L’Harmattan, 2000. _________ Curta nossas redes sociais: Insta: @criticaexpografica | Face: facebook.com/criticaexpografica _________ Crítica Expográfica é escrito por Renata Figueiredo Lanz, que, além de produtora de conteúdo neste blog também é diretora de criação da Renata Figueiredo | design gráfico + expografia . Para entrar em contato envie um e-mail para renata@refigueiredo.com.br _________ Gostou do post ou tem uma outra opinião? Deixe seu comentário abaixo.

Problemas em iluminação de exposições

Nas exposições o projeto de iluminação podem enfrentar alguns tipos de problemas, tais como:

Excesso de iluminação

iluminacao-museu$$6526

O excesso de iluminação provoca ofuscamento: na tentativa de deixar o ambiente claro, pode-se:

  • exagerar na quantidade de luminárias
  • combinar iluminação natural com artificial gerando ofuscamento
  • utilizar grandes panos de vidro transparente, que deixem a luz solar entrar diretamente, incidindo nos objetos expostos ou textos.

 

Falta de iluminação

header-web1

Apesar de no exemplo a escuridão ser intencional, esse erro de iluminar pouco tentando criar um “clima” é bastante comum nas exposições.

A falta de iluminação em determinados ambientes, visando causar uma dramaticidade cenográfica, faz com que a leitura dos textos ou das obras seja dificultada ou, as vezes, impossível.

Isso faz com que os visitantes tenham dificuldade de enxergar o que ocorre e percam o interesse pelo que é exposto. Pode parecer estranho, mas o conforto do visitante (físico e emocional) é fundamental para que ele continue na exposição.

 

Reflexos

Talvez este seja o erro mais comum das exposições. O trabalho com vidros deve ser sempre muito cuidadoso pois os reflexos são inevitáveis, portanto devem ser estudados. Podem ocorrer principalmente de duas formas:

  • A iluminação focada em vidros causam reflexos que tornam textos ilegíveis. Além disso, o uso de vidros grossas também faz com que, quando a luz incida neles, os textos se dupliquem, tornando-se ilegíveis também.
  • A iluminação natural pode provocar grandes reflexos também, prejudicando a visualização da imagem e a leitura dos textos.

Veja dois exemplos do Musée du Quai Branly em Paris.

musée du quai Branly
Salles d’exposition

musée du quai Branly
Salles d’exposition

 

Luz focada em textos

A distância inadequada ou o tipo de luminária as vezes pode provocar um efeito de ofuscamento nos textos. Por exemplo uma parede vermelha, com texto branco.

Veja que a foto abaixo foi tirada de lado pois se fosse frontal, a iluminação sobre o texto impossibilitaria a leitura deles. Nesta exposição de Caravaggio, este efeito de ofuscamento ocorria desde a entrada.

550557_430288643662918_524341006_n

 

Para ver mais sobre esta exposição de Caravaggio: https://criticaexpografica.wordpress.com/2012/06/19/critica-expo-caravaggio-em-bh/

 

 

Museu de Congonhas: um museu de grandes novidades

IMG_8496

Antes de visitar o novo museu de Congonhas, que custou a partir de R$ 25 milhões (informações divergentes são encontradas na internet) fui rever o Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, percorrendo as obras do Aleijadinho em suas capelas e terminando na Igreja (atualmente fechada) observando os profetas que estão no pátio externo.

Depois disso, me senti “preparada” para ir ver um museu sem acervo, já que, teoricamente, ele falaria sobre o santuário e a obras de Aleijadinho, pelo que eu tinha entendido nas obras que li.

A entrada deste belo edifício passa pela lojinha e restaurante e segue reto em um corredor. Chegando em uma recepção, apresento a minha carteirinha do ICOM, que deveria dar isenção à entrada e a funcionária desconhece completamente do que se trata e me dá um “desconto” de 50% na entrada, acreditando ser uma carteirinha de estudante, de uma instituição desconhecida. Tentei explicar, mas desisti. Já sofri com o mesmo desconhecimento no Museu do Futebol em 2011 e vi que é absolutamente inútil tentar explicar.

Na entrada, um corredor começa a introduzir historicamente a construção do templo e tenta justificar a importância da cidade de Congonhas e do museu. Me animo. Mesmo. A moça do educativo, super disposta, dá explicações a respeito das romarias nesta cidade, em função da Igreja e da obra do Aleijadinho. Me animo mais. “Além de bonito, o museu promete quebrar paradigmas dos museus atuais”, penso.

Seguindo para o final do corredor, encontro então o início do espetáculo. Imagens realmente muito bonitas da igreja e dos profetas são projetadas em uma tela gigantesca. Não tem como não ser atraído por ela.

Fui em direção a esta, ignorando a linha do tempo existente no caminho. A música reforça o sentido de que se está entrando em um templo. Em frente a tela tem um dispositivo dito “interativo” (clique no link para entender porque não é real essa interatividade) em que você clica em um botão, ele acende o local (por exemplo, a igreja) em uma maquete e imagens deste local aparecem. Lindo espetáculo de sons e imagens que ajudam a imergir no universo de Aleijadinho. Imagino então que, a partir daí as obras de Aleijadinho que vi lá fora serão valorizadas, contextualizadas e o conhecimento aprofundado.

IMG_8457

De repente, no meio da contemplação, lembro da conversa com minha mãe que falava sobre a igreja dos “doze apóstolos”, num erro bastante comum que já ouvi de outras pessoas e me questiono: porque as pessoas confundem profetas e apóstolos? Porque não foram colocadas esculturas dos apóstolos e sim dos profetas? Questiono uma outra moça do educativo que esta próxima, sobre o que são exatamente os profetas e porque eles foram escolhidos para estar lá. Ela se confunde, não sabe responder nem o que eles são. Vai para uma outra, que se enrola um pouco na resposta sobre o que são e não concluo nada. Nem elas.

Na parede de abertura da exposição há um trecho que diz que “O propósito primordial do Museu é qualificar a visita ao Santuário do Bom Jesus de Matosinhos e oferecer ao público (…) as inúmeras possibilidades de informação e de interpretação desse conjunto patrimonial”.

IMG_8441

Neste momento me pergunto: Para quem é este museu? O seu conteúdo não versa justamente sobre a igreja em que as obras mais populares são os lindos e gigantescos profetas, dos quais se produziu fotos maravilhosas? Como o educativo titubeia ao responder o básico? Este museu não é para todos os públicos, inclusive os ateus, judeus, evangélicos e budistas?

Olhando com mais atenção para a grande parede com muitas informações, textos de diferentes tamanhos, imagens dos profetas em loop nas televisões, vejo dados superficiais sobre o que seria cada um dos profetas e, no meio desta confusa parede cujos vídeos chamam mais atenção que tudo, há uma explicação breve e superficial que responde pelo menos o que são os profetas, no meio, no alto. Quase chamei a moça do educativo para ler.

07119_151130-033D
fonte: http://images.adsttc.com/

IMG_8458

O percurso prossegue com um emaranhado de problemas básicos de design gráfico e design de exposições: fontes tipográficas de tamanhos variados nos painéis, incluindo tamanhos de fontes que funcionam muito bem no papel mas que para uma exposição, são quase ilegíveis, ainda mais sobre fundos coloridos. Uma exposição não é um livro, como já disse em artigos anteriores e apresenta características próprias de design para ter uma boa legibilidade.

A linha do tempo é um bom exemplo, pois mostra todos os problemas de legibilidade possíveis. Fiz um pequeno círculo rosa em alguns exemplos

  • textos muito pequenos;
  • textos muito altos que dificultam a leitura por seu tamanho e localização;
  • textos com baixo contraste em relação ao fundo o que tornam a leitura sofrida;
  • textos com grafismos no fundo, o que dificulta ainda mais a leitura.

Por mais interessantes que possam ser os textos, quando há dificuldade de leitura, eles se tornam rapidamente desinteressantes.

Untitled-1

Sigo…um dispositivo muito bonito colocado no centro da exposição apresenta artefatos para a produção das esculturas do Barroco (acho). Não saberia dizer com precisão, pois a iluminação superior impossibilita a leitura devido a reflexão dessas luzes no vidro exatamente em cima dos textos, que já são pequenos e em uma altura que você tem que abaixar para ler. A iluminação que foca nas ferramentas penduradas, prejudica a leitura dos textos embaixo.

Mas, sem dúvida, temos uma bonita instalação cenográfica. Os textos (ou os vidros sobre eles) é que não deveriam estar lá.

museu_cong15122015_033
Foto: Ana Elisa/Portal EBC

Confesso que a essas alturas já havia perdido um pouco do interesse. Toda a animação do início da exposição já tinha ido embora. Se há alguma explicação mais profunda sobre a obra de Aleijadinho, sobre as esculturas dos profetas e a sua razão de ser, não consegui identificar. Tudo me pareceu bastante superficial e até, porque não, desviando do tema central (as esculturas do lado externo da Igreja) que são fruto de grandes discussões.

Não há nada mais material que as esculturas de Aleijadinho. Fico me perguntando: como fazer um museu de acervo imaterial (só com imagens das obras) de algo tão concreto? É inegável que o apelo de uma escultura real, em 3 dimensões chama a atenção mais do que mil imagens das mesmas, colocadas nas paredes.

IMG_8467

O museu segue com uma sequencia de fotos até que chega, enfim a um “acervo material”. Não de Aleijadinho, mas de esculturas de santos, ex-votos.

IMG_8468

Introduzida a coleção sem nenhuma conexão do que foi dito na sala anterior, fico confusa. Sem o ferramental necessário para articular ou relacionar aquela coleção com o que tinha visto até então, encaro aquela sala como mera “curiosidade”. Fotografo “São João Evangelista” e mando para uma amiga designer, pedindo que reze para ele, pois os tempos estão difíceis.

ace46c74ce13262106202041a5ca92c2.jpg

As informações dadas de cada obra não me dão mais ferramental nenhum, além de uma sala cheia de esculturas. Ainda tento entender porque isso está ali, bem como a indignação de algumas pessoas na sala, que claramente conheciam a coleção,  revoltadas por este acervo ter sido levado para este museu e não deixadas no seu local original. Não entendi. Ma são tudo bem, n vou entender a conexão com a próxima sala, que volta ao tema anterior.

Sigo em frente por um percurso meio labiríntico. O acesso ao pavimento seguinte de exposições não deveria ser obvio? Não é. Chego enfim a um corredor, lá no final, um “um happy end” em um corredor não muito largo onde deveriam estar os profetas. Não estão. Apenas 2 réplicas. Mais nada. R$ 500mil é o custo de cada réplica. Vai demorar. O museu construído com o propósito inicial de abrigar as esculturas e protegê-las da ação do tempo, abriga réplicas.

IMG_8485.jpg

E quase como se o pensamento coletivo levasse a isso, chega-se a um “beco sem saída”, após as réplicas do corredor, que é o final da exposição. Sim, do museu construído e projetado para isso, que não é a adaptação de um prédio existente, termina em um beco sem saída. Termina numa porta de emergência fechada e você é obrigado a voltar pelo meio da exposição.

Mas ainda no final, neste “beco”, ao lado da saída de emergência  – peço a você, leitor, que interprete semioticamente essa conexão – ainda tem o vídeo de uma pessoa do IPHAN, que trabalha no restauro e conservação das obras e justifica o porque as obras originais não estão no museu e sim expostas ao tempo. Interessante imaginar que o museu foi construído para abrigar as esculturas e escolhe a última sala para justificar essa ausência.

Mas essa questionamento e ambiguidade foi um dos poucos momentos que trouxeram a reflexão dentro do espaço expositivo.

___

Curta nossas redes sociais:

Instagram: @criticaexpografica | facebook.com/criticaexpografica

___

Como educar o público das exposições

“O Museu Paulista é, muitas vezes, o primeiro museu onde as pessoas vem, e elas não sabem o que fazer, como se comportar” me disse uma vez um profissional deste museu, logo no início do meu mestrado, há muitos anos atrás (quando este museu ainda estava aberto).

Porém, só muitos anos depois, esta imagem foi se construindo na minha cabeça. E se solidificou de fato nesta segunda-feira, aniversário de São Paulo, na abertura da exposição  sobre Mondrian no CCBB (em breve farei uma crítica específica sobre esta exposição).

Em um primeiro momento, achei que o profissional do Museu Paulista (também conhecido como Museu do Ipiranga) se referia ao comportamento dentro de uma exposição como algo mais específico: saber qual percurso ir, saber que não deve tocar em objetos, etc. Mas hoje acredito que isso seja algo para um segundo momento.

Nesta semana descobri que precisamos ir além: a idéia de espaço público, sabendo respeitar o espaço mas, antes de tudo, respeitar o outro visitante. Exemplifico:

1 – A experiência da coletividade da leitura

Entrando no 1º andar desta exposição encontrei um texto que eu tentava insistentemente ler, enquanto a criatura do meu lado, lia em voz alta para o ser ao seu lado, que comentava e lia trechos também, como num jogral. E daí que tinha alguem ao lado?

2- A experiência da coletividade das fotos alheias

Insistindo nesta leitura que já exigia alto nível de concentração, fui interrompida (eu e a sala toda) por um outro ser humano com um celular que, a cada foto, fazia um efeito sonoro de uns 3 segundos, algo como um apito e uma pirueta. Todos olham. Esta pessoa estava tirando fotos de todos os quadros da sala (sabe-se Deus para que) até que o guarda foi conversar com ela e ela sumiu. Ou seja, se não dá para fotograr, não interessa.

3 – A obsessão coletiva por fotos e celulares

Não bastasse a primeira pessoa, um grupo de três indivíduos estava fotografando insanamente todas as obras – que, diga-se de passagem, tinham vidros na frente. Aos berros, uma das meninas do grupo berra para o menino: “Você vai me mandar todas as fotos que está tirando não é?” e continua o discurso aos berros. Tudo isso ocorrendo entre eu e mais um grupo que observava o quadro. O sujeito então pega o seu celular e se planta na frente do quadro (de costas para ele), parado, e fica digitando, até que alguém que estava olhando o quadro se cansa de aguardar e lhe pede licença para ver a obra.

4 – Silêncio!

Nesta mesma sala, minutos depois, houve um “shhhhhhhh” coletivo (juro que não fui eu!) tamanha a zona que se apresentava, a ponto de incomodar a todos os outros que tentavam se concentrar. Meu único comentário, baixinho: “Que bom, acabou a feira!”.

 

Todas as experiências mostram sim que as pessoas não sabem se comportar- ou ainda não aprenderam, na minha visão otimista –  dentro de um espaço expositivo, em especial no que diz respeito ao respeito a experiência de visita do próximo. Mas, me pergunto se elas sabem se portar como cidadãos de uma cidade em que seria necessário respeitar o espaço coletivo.

Muito antes de pensarmos sobre se as pessoas vão seguir um percurso, se elas vão apreender a obra, se a cenografia causará impacto ou se os dispositivos interativos funcionarão adequadamente, acho que precisamos pensar: será que a pessoa vai ver a exposição através dos seus próprios olhos ou vai passear (como num parque) entre as salas e fotografar alucinadamente para ter mais “posts” em seu facebook mostrando pseudo-experiências vividas?

Há um tempo atrás, postei neste blog a iniciativa de um museu para que as pessoas parassem de fotografar e olhassem para as obras de arte, desenhando-as (https://wordpress.com/post/criticaexpografica.wordpress.com/284). Isso mostra que o problema não é só nosso: sem essa besteira preconceituosa e de “Só no Brasil mesmo”! Isso ocorre também na Holanda, olha só! E, na Capela Cistina, há mais de 10 anos, eu ouvia guardas de 3 em três minutos, fazendo um sonoro “shhhhhh”, tal o ruído ensurdecedor lá dentro. Só na Italia mesmo!

 

 

 

“No museum in classical sense”

the-gate_night_web
MOMEM – Imagem: http://www.momem.org/en/concept.html

Museu ou Experiência Sensorial? A Alemanha terá um museu dedicado a Música Eletrônica, o MOMEM (Museum of Modern Eletronic Art). No seu site, eles anunciam que é um museu, mas não no sentido clássico (ou tradicional). É uma “experiência” no hoje e agora… e assim por diante.

A ideia de um museu de musica eletrônica parece desafiadora e muito interessante. Mas ficam algumas questões, diante do posicionamento do museu que ainda não abriu:

Para fazer um museu diferente, é preciso negar a própria ideia de museu? Ou seria apenas uma experiência sensorial, fantasiada de museu?

Ou ainda, para fazer um museu no século XXI, precisamos nos despir dos preconceitos que acreditamos em que museus são um amontoado de objetos antigos em uma instituição que luta contra o mofo? Se o preconceito contra a palavra MUSEU é tão grande, porque não chamam de experiência? Porque usar o status da palavra museu e depois negá-la?

 

Mais em:

http://www.momem.org

https://www.facebook.com/MOMEM.FRANKFURT?fref=ts

Frida Kahlo no Tomie Ohtake: porque uma exposição não é um livro

frida_kahlo_criticaexpografica3

Ao visitar a exposição  “Frida Kahlo: conexões entre mulheres surrealistas do México” não pude deixar de pensar que ela foi projetada para o fracasso. Sim, para um fracasso absoluto de público. Os conceptores devem ter imaginado que ninguém se interessaria em ver a Frida no Brasil e, por isso, fizeram a exposição desta maneira para que, os poucos que a frequentassem, passassem muitas horas dentro da exposição.

Vamos começar do início: entrando na exposição, ao receber o folder, lembrei imediatamente de Jean Davallon, quando ele comenta que o folder é algo para ser lido após a exposição, quase um souvenir, ou ainda um lembrete do que a exposição trata. Dei uma passada de olhos nos textos e imagens e segui em frente.

Qual não foi a minha surpresa ao perceber que os textos do folder, foram reproduzidos na abertura da exposição, tirando um parágrafo ou outro, mas na íntegra.

Textos extensos e prolixos, colocados nas paredes em formato de folder e que, na tela do computador de um designer podem parecer um joguinho interessante de diagramação entre português e inglês. Mas uma exposição não é um folder. Por mais óbvio que isso possa parecer, dificilmente os designers percebem o quanto uma exposição é uma mídia diferente, que funciona de forma totalmente diferente.

A própria diagramação na parede me parece uma “adaptação” das páginas do folder, colocada em formato aberto.

frida_kahlo_criticaexpografica

Além de “abrir o folder na parede”, a pessoa que concebeu desconsidera que a exposição foi feita para seres humanos de, na média, 1,70m de altura. Os olhos em geral lêem confortavelmente textos a 1,50-1,60m, podendo obviamente ter textos mais altos e mais baixos que isso. Mas colocar textos a cerca de 3m de altura (primeiro painel verde ao lado do titulo da exposição) ou a cerca de 2,5m (primeiro vermelho, com textos em português) mostra a falta de experiência do conceptor deste painel em relação a esta mídia – exposição.

Um folder considera um usuário que o carreganas mãos, tendo uma relação bem diferente de uma parede, em que o usuário não pode escalar para ler nesta altura e que a fonte tipográfica, apesar de ter um tamanho razoável, parece minúscula a 3m de altura o que faz com que o leitor se esforce muito para conseguir ler.

Supondo ainda que a pessoa consiga ler o texto horrorosamente alinhado à direita (o que dificulta a leitura nesta mídia também), ela ficaria ali parada por bastante tempo para conseguir ler o gigantesco e prolixo texto.

Cria-se então o primeiro funil de público, logo na entrada da exposição, a pessoa já fica pelo menos 10 minutos parada, tentando ler.

Na sequência, fico feliz após me deparar com a seguinte placa, antes de entrar na sala:

frida_kahlo_criticaexpografica2

Baixei o aplicativo, instalei e depois fiz a instalação do módulo específico para o audioguia, processo que levou de 5 a 10 minutos. Entrei na exposição enquanto ele fazia este processo e comecei a percorre-la calmamente. O percurso sugerido parece ser bastante claro, não tive dúvidas em relação a sequencia das salas até começar a usar o audioguia. Com ele, que apresenta uma sequencia numérica estranha, fiquei em dúvida.

Além disso, os vídeos são extremamente prolixos, em alguns momentos filosóficos. São muitos interessantes, mas parecem mais um audiolivro, interessantes para se ouvir sentado, no silêncio, para conseguir prestar atenção na profundidade do que se diz. Não se debatendo com os outros para conseguir enxergar um quadro. De novo, parece haver uma questão de desconhecimento do tipo de mídia utilizada.

Audios feitos para que o usuário utilize seu próprio celular e depois são muito interessantes. Mas pensar que a pessoa ficará 10 minutos parado em frente a meia dúzia de obras, no canto da sala, é utópico e, novamente desconsidera a existência de um fluxo de público na exposição. Sendo assim, os vídeos são extremamente prolixos e desconectados com a mídia exposição em que se encontram.

Acompanhe abaixo a sequência das salas, seguidas pelo número do audioguia e, na sequencia, o tempo de duração aproximado.

Sala da esquerda (logo atrás do painel da abertura), fazendo o percurso iniciando pela parede da esquerda para o fundo e depois voltando (sentido horário):

A construção do sujeito – nº 1103 – 9’44”

Poéticas do Espaço Doméstico – nº 1105 – 8’23”

Performidade do corpo – nº 1104 – 7’23”

 

Sala da direita (atravessando o dispositivo para vídeo):

Surrealismo – nº  1102 – 6’24”

O Gênero feminino na arte – nº 1107 – 7’08”

Narativas autobiográficas – nº 1106 – 2’33”

 

De novo, tenho a dizer que os audios são realmente interessantes. Mas só consegui ouvi-los na íntegra em casa. Na exposição é humanamente impossível prestar atenção nos áudios, com toda a movimentação existente. Parece que a pessoa que os concebeu queria dizer tudo, em poucos audios, longos e prolixos.

Gosto bastante de audioguias mas, raramente se vê descrições tão longas e prolixas. E as mais longas em geral, geram o rápido desinteresse pela mídia. Não estamos, infelizmente, em uma aula de história da arte mas em uma exposição, que necessita uma objetividade maior para conseguir despertar o interesse do visitante pelo assunto.

Por fim, vem o vídeo no meio do espaço. Em um espaço que cabem, sentadas, cerca de 16 pessoas, encontrei a seguinte placa:

frida_kahlo_criticaexpografica4

Repare novamente no tempo de duração do filme: 90 minutos. Sim, uma hora e meia de filme no meio da exposição. 16 lugares sentados em banquinhos desconfortáveis de madeira. Não é um vídeo de exposição é um longa metragem!

Obviamente assisti o filme todo. Parte congelando sentada no chão, parte em pé, parte sentada em um banquinho (depois de 45 minutos de vídeo algumas pessoas começaram a ir embora). O vídeo descreve em detalhes a vida de Frida. Em detalhes minuciosos, sobre os casos de amor do marido, dela, cada viagem, etc. Fala pouco sobre as suas obras, perto do tempo despendido falando sobre a sua vida. Interessante, mas extremamente prolixo. Extremamente. Absurdamente.

O visitante sai então tonto da exposição e vai cambaleando para o andar debaixo quando se depara com o seguinte:

IMG_4740

 

 

No meu caso, mesmo sendo apaixonada e interessada por conhecer melhor essas outras artistas, foi impossível imaginar ficar mais tempo lá dentro, vendo outros vídeos. Estava exausta. Talvez eu volte outro dia apenas para ver 1 ou 2 vídeos sobre estas artistas. Na posição em que estão, estes sim, não no meio da exposição mas em uma sala de vídeos a parte, acredito que seja possível apenas ver a “sessão” e não fazem parte da exposição como um todo mas sim de um “anexo”, opcional.

 

Posso estar enganada mas, a sensação que ficou é de uma exposição feita as pressas, aproveitando o material já existente, sem edições, sem recortes, sem pensar que um grande público efetivamente iria percorrer o espaço. Sem pensar que uma exposição não é um folheto, não é um livro, não é uma aula de historia da arte e, principalmente, não é uma exibição de filme completo no meio do espaço expositivo.

Por isso considero projetada para o fracasso de público. Considerando que a pessoa se interesse por assistir o vídeo da Frida inteiro (1h30), ouvir o audioguia (40m, se não acabar a bateria do celular) e percorrer “rapidamente” as salas da exposição, lendo os textos de parede e olhando para as obras (1h a 2h), um visitante passaria entre 3 e 4 horas na exposição. Números inviáveis para receber um grande público neste espaço.

 

 

 

Afinal, o que é interatividade em museus?

Na última década, tem crescido a febre por “Museus Interativos”. E as definições divulgadas na mídia nada mais são do que uma confusão danada, tentando convencer os visitantes que qualquer coisa que pisque, é interativa.  Apertou um botão? Passou e um sensor ascendeu uma luz? Viu um vídeo?  Olha que coisa, está interagindo com o museu! Só que não.

white-nude-sculpture-covered-blue-plastic-on-head-3683191

Vamos então fazer o caminho contrário. O que não é interatividade em museus?

O fato de um museu ter muitos monitores, vídeos, gadgets, luzes e efeitos especiais não o torna interativo. O fato de dar qualquer estímulo sensorial para o museu também não o torna interativo por si só. Diversão em museu, joguinhos, controles remotos, entre outros, por si só, também não o são.

O fetiche pelos dispositivos digitais fez com que se investissem milhões de reais (ou dólares) nas Novas Tecnologias de Informação e Comunicação e dos dispositivos audiovisuais e muito pouco em pesquisa. A aparente “facilidade” da apreensão do conteúdo, data por esses recursos, é capaz de transformar grandes museus em parques de diversões. Não sou contra o visitante aprender se divertindo. Nada disso. Mas até que ponto isso ocorre realmente nos museus brasileiros modernos, como o da Língua Portuguesa ou o do Futebol?

Se olharmos no dicionário, encontraremos a definição de interativo:

  1. Diz-se de fenômenos que reagem uns sobre os outros.
  2. Dotado de interatividade.
  3. Diz-se de um suporte de comunicação que favorece uma permuta com o público.

O que seria então esta “permuta” ou melhor, esta troca com um público?

A Revista Museologia e Patrimônio nos traz um artigo interessante que aborda a questão da fuga dos museus tradicionais – vistos como sisudos e chatos – para um novo modelo, mais “divertido” e interessante, dito então como interativo. O artigo define 3 formas de interatividade em museus, segundo a pesquisa de Wagensberg:

  • HANDS ON: muito utilizada em museus de ciência, é aquela em que o visitante tem uma interação mecânica com um objeto e assim é demonstrado um fenômeno.
  • MINDS ON: “Aqui, os elementos de interação estimulam o funcionamento da mente, instigando os visitantes a empreender um “exercício” mental, elaborando questões, solucionando problemas, criando analogias e percebendo contradições. Coloca-se, então, a expectativa de que, ao se estabelecer uma atividade capaz de correlacionar mente e realidade através da reflexão, se faça possível a produção de significados e o desejo de se colocar novas questões. Esse tipo de interatividade nem sempre se produz pelo intermédio de recursos digitais, podendo a experiência ser “desencadeada” em momentos de interação entre visitantes ou por um processo de mediação ou visita guiada.” (http://revistamuseologiaepatrimonio.mast.br/index.php/ppgpmus/article/viewFile/273/267)
  • HEART ON: busca uma identidade cultural do visitante com o objeto exposto e reforça as questões emocionais de vivenciar a experiência.
A interatividade do tipo “hand-on” é a que mais se difundiu e se distorceu nos ultimos anos. Nos museus de ciências, em geral esta experiência tem como função comprovar conceitos físicos, através da experimentação do usuário. Como se vê em:  https://youtu.be/boEyU0Pq_Lc
Mas essa experiência não tem nenhum valor se não se entender o conceito explicado, em geral mediado por um monitor da exposição ou por algum aparato explicativo.
Caso contrário, ela se torna uma experiência vazia, como a exposição temporária de Bia Lessa, em que o visitante fazia o movimento de puxar as 400 paginas ampliadas de Grande Sertão Veredas e ler um trecho em um dispositivo diferente. Essa “experiência” não agrega valor ao conteúdo e o leitor não aprende com ela. A interatividade “hands-on” se torna então, um belíssimo aparato cenográfico.
Essa exposição então, como muitas outras que temos nos museus atuais, vende uma pretensa interatividade em que não há de fato uma “troca” com o público. Não há reflexão, não agrega conhecimento nem senso crítico. Muitas vezes nem sequer emociona, informa ou diverte. Só estimula os sentidos do visitante. Outra vezes é tão “interativo” quanto uma televisão.

Parem de fotografar e olhem a obra!

CSKXP1QWUAAMHw3

O Rijksmuseum, um dos mais famosos museus de Amsterdã e que costuma inovar em suas campanhas traz agora mais uma inovação: pede aos seus visitantes que parem de fotografar e desenhem as obras, nas visitas aos sábados.

O site do museu estimula as pessoas a olharem para as obras e conhecerem as técnicas empregadas e enfim, dá papel e lápis para que o visitante experimente enxergar de fato a obra, olhando os detalhes e entendendo – ou tentando – o que o artista queria mostrar. Para quem ainda acha que interatividade é apertar um botão e acender uma luz (a Fundação Roberto Marinho que me desculpe), deveria começar a conhecer essas iniciativas, que fazem com que de fato o visitante interaja com a obra.

10320388_10156120567835177_995867986398239868_n

Não é a primeira vez que este museu cria uma campanha inovadora (e capaz de se tornar um viral na internet). Uma campanha anterior, em 2013, fez uma intervenção muito interessante em um shopping center da cidade, chamando os visitantes para o museu: https://www.youtube.com/watch?v=ixWdRZip2TI

Essa visão crítica dos profissionais desse museu, aliada a campanhas de marketing extremamente interessante, mostra dois momentos e duas visões bastante interessantes sobre o público do museu. Em uma, ele chama a atenção das pessoas dentro de um shopping center, para que saibam o que está acontecendo em um dos principais museus Holandeses (em contraponto ao consumo de massa do shopping, a cultura). Na outra, o olhar atento dos profissionais deste museu, busca estimular que as pessoas parem de fotografar e olhem de fato para as obras.

Isso me lembra quando, no museu de antropologia de Atenas, um senhor fotografou uma vitrine inteira, a cerca de 2m de distância, com um iPad. Aquela vitrine estava cheia de pequenos objetos com não mais de 10cm de comprimento. Fiquei me perguntando o que ele veria, naquela única foto, tirada à distância, depois de voltar para o Japão.

Depois disso fiquei me perguntando SE ele veria esta foto e, não só isso mas, para onde vão esses milhares de fotografias tiradas em museus, de obras de arte ou não. Será que algum dia alguém vai parar e olhar aquela foto? Ou melhor, será que a pessoa que a viu através da tela, vai vê-la realmente algum dia? Ou vai apenas fazer parte de mais uma tonelada de lixo cibernético, armazenado em zilhões de Gigabytes que nunca serão mexidos?

O Rijksmuseum cumpre então a sua função crítica de olhar para o visitante do museu e fazer com que ele mesmo passe a ter uma visão crítica… mas dessa vez não só sobre as obras, mas sobre si mesmo.

Para saber mais:

Conheça as técnicas e as obras: https://www.rijksmuseum.nl/en/startdrawing/drawing-saturday

Entenda os conceitos da campanha: https://www.rijksmuseum.nl/en/startdrawing