5 razões porque você deve ser contra a destruição das estátuas de carrascos racistas

O terrível assassinato de George Floyd deu início a uma onda de protestos que culminou na destruição na Europa e Estados Unidos de algumas estátuas de personagens ligados ao tráfico de escravos negros. Porém esse aniquilamento de um símbolo, pode ser muito mais problemático a longo prazo do que preservar-lo. As implicações são inúmeras, mas são citadas aqui apenas 5 para que você reflita antes de apoiar e repetir no Brasil esse aniquilamento da memória.

  1. Derrubar uma a estátua não afasta o problema

O fato de destruir um o patrimônio funciona muito bem na mídia como um símbolo de uma revolta. Os protestos são válidos e devem acontecer. Mas destruir o patrimônio está longe de eliminar o problema racial e o seu efeito a médio e longo prazo é muito pior do que preservá-los por inúmeras razões, dentro das quais discutiremos somente cinco aqui neste artigo.

É natural que todos nós queiramos destruir aquilo que nos incomoda. Mas a verdade é que precisamos ser incomodados. Somente esse incômodo nos leva a transformação. É a presença do problema que nos traz a transformação e não a ausência dele no fundo de um rio.

O patrimônio nos serve portanto para a reflexão e com o objetivo de gerar esse incômodo para trazer à tona as questões que desejamos esquecer mas precisam estar presentes nas nossas vidas. É apenas trazendo o problema à luz que vamos mudar a sociedade e a sua forma de agir e não derrubando um símbolo de opressão.

2. Os apagamentos históricos e seus efeitos

Fonte: Cottonbro/Pexels

Retirando um símbolo de uma praça pública ou de um museu, se deseja apagar aquele episódio ou aquela pessoa da história.

Porém, esse ato além de não apagar o problema, “joga a sujeira para debaixo do tapete”, como se ele não tivesse existido e, pior, se a sociedade não tem consciência de que certa atrocidade existiu, a possibilidade de que os erros se repitam é enorme. Imagine como seria se deletassem Hitler da história?

O registro histórico torna a barbárie presente a qualquer tempo e a preservação da memória nos faz não querer repeti-lo.

Ao invés de destruir o monumento feito originalmente para homenagear um carrasco racista, seria muito mais interessante construir mecanismos de mediação que exponham o problema e mostrem que historicamente ele não é um líder e nem um exemplo a ser seguido. 

3. Efemeridade x materialidade

Alguns grupos defendem que a destruição trouxe a tona as questões pois as fotos foram amplamente divulgadas nas redes sociais e isso se tornou viral. Porém, qual o efeito do seu post no instagram nos próximos 50 anos?

Uma peça de museu é um objeto de estudo e reflexão contínuos, que são  revistos, ressignificados e estudados à luz de novas descobertas ou concepções sociais.

Acreditar que a repercussão nas redes pela força das imagens tem efeitos a médio e longo prazo na história chega a ser ingênuo. Não podemos estudar a memória e a história apoiados em bolhas de sabão.  

4. Revendo a história: o negro como vítima x negro atuante

Fonte: Clay Banks/Unsplash

Na história do Brasil e do mundo o negro é visto como vítima, sem protagonismo ou capacidade de ser agente social.

Desde o ensino básico fomos levados a imaginar que o negro seria mais fácil de ser escravizado que o índio e uma série de lugares-comuns  de uma história superficial que era ensinada nas escolas.

Se você ainda não concorda, então responda: qual costuma ser o grande símbolo da escravidão na maioria dos museus brasileiros? A algema, a corrente e a chibata.

Artigos, teses e mestrados mostram que o escravo negro foi muito mais do que isso e que considerá-lo como ser passivo sem protagonismo histórico é um grande erro.

Especialmente nas cidades, existiam categorias de escravos que eram importantes agentes sociais, participantes, atuantes e relevantes para a sociedade. Essa nova visão que, apesar de não deixar de lado as questões cruéis da escravidão, exalta a figura do negro forte, resistente e atuante em uma sociedade colonial, o coloca o negro na posição de protagonista e não somente de vitima, traz força e auto-estima para os afro-descendentes. Nesse sentido, derrubar estátuas de agressores, continua a enfraquecer a presença do negro no cenário nacional e mundial.  

Por todas essas questões, é muito mais proveitoso para a sociedade a longo prazo re-significar um símbolo ao invés de destruí-lo.

5. Exija dos museus o protagonismo na história, não a destruição de monumentos

Museus são espaços de reflexão, discussão e inquietação. Museus milionários tem sido construídos no Brasil e se transformado em espaços de apagamento.

Dois museus em especial, que são frutos de críticas aqui no blog, o Museu do Futebol e o Museu de Congonhas, tem a questão racial como grande incômodo a ser evitado.

O primeiro exalta o brasileiro como um miscigenado criativo. Esse lugar comum da criatividade advinda da mistura de raças ignora todas as questões advindas do futebol. Em depoimento recente um grande técnico ainda reforça que xingamentos no futebol para os negros não tem importância. Onde está esse espaço de questionamento dentro da exposição de longa duração do museu? Veja a crítica completa aqui no blog.

Já o Museu de Congonhas, que foi criado em um dos grandes centros da escravidão do Brasil para homenagear o Barroco Brasileiro e por consequência Aleijadinho, se esquece da questão racial. Este artista, grande protagonista do Barroco era um filho de português com a sua escrava. Foi alforriado pelo pai. A história dele, que começa assim, foi minimizada em virtude do grande gênio que se tornou. E quais outros tantos apagamentos temos por trás dessa história?

Enquanto os museus brasileiros forem encarados como espaços de entretenimento e lazer, feitos para serem fotografados e viralizados nas redes sociais sofreremos com esses apagamentos que se perpetuam na educação não formal e durante gerações acreditamos na história que nos é contada.

Ao invés de destruir esculturas, exija a presença desses conflitos nos espaços de reflexão.

Portanto está na hora de entendermos a gravidade das consequências do dinheiro público ser utilizado para a construção de parques temáticos e não de museus, na acepção original do termo.

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Crítica Expográfica é escrito por Renata Figueiredo Lanz, que, além de produtora de conteúdo neste blog também é diretora de criação da Renata Figueiredo | design gráfico + expografia . Para entrar em contato envie um e-mail para renata@refigueiredo.com.br

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4 erros expográficos fatais que ofuscaram Caravaggio em BH

A exposição ”Carvaggio e seus seguidores” que inaugurou com recorde de público, infelizmente decepciona pela forma como a expografia desvaloriza as poucas obras deste grande mestre do Barroco.

Durante a visita ficou muito claro que há pouca experiência e vivência em exposições de quem idealizou o espaço, o que impacta diretamente na experiência da exposição (reflexo imediato da falta de qualidade da expografia) .

1. Percurso/Fluxo

Logo na entrada da sala você fica em dúvida se vai a esquerda, ler as explicações sobre a obra San Francesco in Meditazione ou se disputa um lugar na frente do painel de abertura da sala com as obras de Caravaggio.

O percurso se torna portanto, livre, e o visitante pode transitar e ver as obras na seqüência em que preferir.

O percurso livre de exposições não necessariamente é ruim, mas é mais difícil de ser trabalhado, pois devem ser criados pontos de atração muito interessantes, especialmente quando se trata de uma sequência cronológica. Então necessita mais vivência e conhecimento do museu em que se trabalha. Para uma exposição temporária, pode ser desastroso.

Optando por ler sobre San Francesco in Meditazione, você se depara com os seguintes painéis:

Imagem retirada do facebook da Casa Fiat, já que não é permitido aos visitantes fotografar a exposição.

Os textos – excessivamente longos – explicam a questão sobre as cópias existentes de uma mesma obra e todas as técnicas utilizadas para tentar perceber o que estava por baixo da obra final, descobrindo assim um possível “original”  e suas possíveis cópias.

O conteúdo do texto é bastante interessante, mas um pouco prolixo e desnecessariamente longos. Além disso, os painéis acumulados em um canto da sala, com textos sem fim faz com que o visitante interessado queira – ou pelo menos tente – parar por alguns minutos para lê-los.

Quando o visitante passa muito tempo em frente a um painel, acontece o óbvio – pelo menos para aqueles que tem alguma vivência em museus – os visitantes se acumulam no canto tentando ler o texto, o cansaço físico e visual bate e você, que estava interessado no conteúdo, desiste de ler, impedido também pelos esbarrões, pessoas que entram na frente e um sinal sonoro que insiste em tocar cada vez que uma pessoa avança além da faixa permitida.

São muitos estímulos para que você, visitante interessado, perca a concentração, mas a principal questão reside em que aqueles que contratam uma exposição, acreditarem que aquele profissional que trabalha apenas com arquitetura ou com design gráfico pode fazer uma exposição de forma competente. Leia “Como se forma um profissional de expografia” e entenda qual a complexidade da formação profissional exigida para esta área.

Jean Davallon, autor de “L’exposition à L’ouvre” e grande especialista em exposições, deixa bastante claro que uma exposição não é um livro. E tanto a diagramação quanto a imensa quantidade de textos dessa exposição mostram que os textos foram tratados como um livro a ser lido na parede.

Após as longas explicações sobre as obras você espera encontrar as obras, certo? Errado. Você lê o texto, atravessa a exposição – que não é tão grande – e observa as obras. Após observar a obra, você lembra de algo que leu no texto e tem uma dúvida, então volta e lê novamente. Nesse caso então, o percurso livre e muito mal projetado torna o fluxo de visitantes caótico.

Duas das obras referenciadas no texto sobre as cópias estão na exposição. Você espera, depois de tantas e tão longas explicações, poder compará-las para ver se realmente elas são idênticas. Por alguma razão desconhecida elas estão em paredes opostas, o que impossibilita essa comparação da maneira que se gostaria. Porque elas não estão lado a lado?

Você então, junto com os outros visitantes, vai de uma a outra tentando buscar semelhanças e diferenças. O fluxo da exposição é perturbado ainda mais, aumentando o caos desta pequena exposição, com um grande fluxo de pessoas atraídas por uma propaganda massiva que se interessa pelo tema. Uma pequena exposição, para grande público, sem projeto de percurso transforma os visitantes em peregrinos desorientados, sem mapa, em busca de uma catedral.

Se você ainda não compreendeu a razão pela qual deve pensar o fluxo de uma exposição antes de projetá-la, conheça o nosso artigo a esse respeito

2. Iluminação

A dramaticidade da iluminação das salas parecem remeter a própria obra de Caravaggio, que iluminava pontos focais das cenas considerados relevantes para a sua narrativa.

Porém, ao contrario do grande mestre Barroco, a exposição tenta iluminar o mais importante, mas sofre com problemas como o ofuscamento.

No painel de entrada da sala a luz focada nos textos dificulta ou impossibilita a leitura graças a esse fenômeno do ofuscamento. Erro básico, sem dúvida, mas encontrado até em um dos mais recentes – e polêmicos – museus de Paris, o Musée du Quai Branly. Diante de tanto brilho refletido na parede, o visitante tenta ir de um lado para o outro para conseguir ler tudo, fugindo do foco de luz incidente no meio do texto. E, como citado no item anterior, o percurso, já caótico, é ainda mais atrapalhado por pessoas em zig-zag na frente de um texto de abertura.

O mesmo acontece com as legendas das obras e, por incrível que pareça, em algumas obras. Focos de luz brilham em pontos de San Francesco e interferem significativamente na percepção da obra de arte.

Imagem retirada do facebook da Casa Fiat, já que não é permitido aos visitantes fotografar a exposição.

Por outro lado, a luz em volta da Medusa chama a atenção para aquele ponto focal no fundo da exposição. Chegando lá, além da iluminação, a caixa de vidro que protege o quadro parece mostrar que estamos diante de uma jóia. A obra do mestre encanta, sem intervenções luminosas, e se valoriza.

3. Intervenções sonoras

Como dito então em muitos momentos, devido a luz projetada nas obras e nas legendas, não é possível ler as legendas de tais obras. E quem se aproximar da legenda para tentar ler mais de perto no escuro espaço, ouvi um agudo: piiiiiiiii! Soa um alarme altissimo, com um segurança ao lado pronto a dar uma bronca: para trás da faixa! (Sirrr, yesss sir!)

Fui numa sexta feira, emenda de feriado para muitos. Sem fila, ao contrario do que é visto na reportagem acima. Sem multidões. Não tinha mais de 30 ou 40 pessoas na sala. O alarme tocava a cada 2 ou 3 minutos. Depois de alguns instantes os visitantes se cansam, se irritam e saem.

Ainda segundo a reportagem esta foi uma exigëncia dos museus para trazer as obras para o perigisissimo país em que vivemos. Até onde me consta, existem alarmes que tocam se alguém mexer na obra ou tirá-la da parede. Considerando que são apenas 20 obras no total, seria muito complexo não transformar a visita num terror sonoro e garantir a segurança das obras?

O visitante não pode fotografar, não pode se aproximar, não pode usar o celular e ah, não pode fazer anotações também. Vejam o relato do visitante maltratado em: 

“Além da beleza inconteste das obras de Caravaggio e seus seguidores, o que mais chamou a atenção na exposição em cartaz na Casa Fiat de Cultura de Belo Horizonte (MG) foi a arbitrariedade da segurança do local. Ao tentar fazer anotações a respeito das telas com papel e caneta, como um espectador comum, sem as vantagens e os mascaramentos geralmente oferecidos à imprensa nesse tipo de evento, o autor dessa resenha foi impelido abruptamente e sem qualquer tipo de respeito por um segurança como se estivesse cometendo algum crime. Cita-se esse caso como exemplo do excesso de zelo e a total inabilidade de muitos museus brasileiros com relação aos visitantes, o que confirma a eterna sensação de que eles geralmente não são bem vindos nesse tipo de ambiente.” (Rede Brasil Atual)

Isso mostra apenas como a falta de experiência em exposições pensou apenas no impacto na mídia e nas filas na porta e não no público geral. Fazer com que o visitante seja bem vindo e se sinta confortável e acolhido no museu é obrigação dos criadores da exposição. A responsabilidade por treinar e orientar os seguranças ou demais funcionários portanto também é deles. Veja o exemplo do Inhotim, fruto de outra crítica deste blog e como o visitante pode se sentir acolhido se os seus funcionários são orientados e treinados de maneira adequada.

4. Acessibilidade

Laura Martins, do blog Cadeira Voadora, define alguns pontos importantes sobre a acessibilidade da exposição:

  • mesmo a exposição sendo acessível, o acesso a ela pela rua é bastante difícil envolvendo ladeiras, risco de queda e quantidade de estacionamento restrita.
  • o transporte gratuito oferecido não atende a cadeirantes.
  • o banheiro acessível não tranca, o que causa constrangimentos.
  • as rampas são muito íngremes e o elevador é pequeno.

Esse importante depoimento nos mostra que, mesmo existindo uma regulamentação para deficientes, ela nem sempre funciona e, principalmente, que o acesso para a chegada das exposições também deve ser considerado na produção de uma exposição acessível.

Por fim, Caravaggio é um artista que tem seu brilho próprio. Porém essa exposição nos mostra como um projeto expográfico mal conduzido pode ofuscar até mesmo um dos grandes mestres do Barroco, fazendo com que você, visitante interessado e curioso, acabe se desinteressando pelo conteúdo graças as dificuldades impostas pela forma da exposição.

Medusa, de Caravaggio. Foto: Carole Raddato.

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