Da criação à percepção da exposição: o passo a passo do processo afetivo

Exposição no jardim da Casa das Rosas: de 1 a 20 de outubro de 2019. Foto: Renata Figueiredo-Lanz.

Todas as pessoas que criam e dão vida a uma exposição tem uma visão muito diferente sobre ela em relação ao público que as visita. Durante o mestrado, entrevistei cerca de 20 profissionais de diversas áreas e todos mostravam um brilho nos olhos ao falar de alguma exposição que fizeram e que causou grande emoção.

Porém, quando nas visitas a tais exposições, muitas vezes não era possível enxergar aquela magia e sempre ficou a questão: onde está essa lacuna entre a intenção, com um conteúdo muito bem produzido e a expressão deste conteúdo na expografia?

Em outubro, durante a concepção de um projeto, uma possível resposta surgiu.

A exposição sobre Câncer de Mama criada em outubro de 2020, foi resultado de uma pesquisa e produção fotográfica com 30 pessoas portadoras de câncer metastático que responderam à questão: “O que eu gostaria que você soubesse sobre o câncer de mama”?

Suas respostas quebram paradigmas, preconceitos e nos fazem refletir. Seja sobre a origem, questionando o fator genético, sobre o preconceito de ser contagioso, sobre a forma de detectar ou ainda o ainda gênero afetado, essas 29 mulheres e 1 homem nos mostram que há muito o que aprender.

Durante o projeto, o envolvimento e a emoção são inevitáveis. Ler e reler essas histórias é fruto de grande emoção.

Conheça um pouco sobre a produção do conteúdo, anterior a criação do projeto expográfico.

As fotos artísticas que deram origem a exposição são tão envolventes quanto as histórias. Quando se concebe um painel e a leitura e releitura de cada texto ocorre várias vezes ao dia, bem como o posicionamento de imagens ou ainda a composição dos painéis muda, não é um simples processo de design gráfico e de exposições: é a criação de um vínculo afetivo com aquelas pessoas e o reconhecimento dos seus valores e importância.

Quando a exposição é finalmente montada, depois de um árduo trabalho, chega-se a um outro nível de reflexão, desta vez sobre a expografia. Observando os visitantes percorrerem a exposição, é possível entender a razão pela qual os criadores da exposição o conteúdo tem uma visão tão peculiar, tão emocionante e, às vezes isso não se reflete para um visitante que passa apressado: envolvimento leva tempo.

Neste caso, durante a concepção, cada história foi lida e cada foto observada atentamente, de um panorama bem próximo e individual. Cada pessoa é vista de forma única e individual, diferente de um painel com 30 depoimentos e fotos.

Então nesse ponto, você pode se questionar: será que o excesso, a quantidade tiram a individualidades cada dor e tornam tudo um coletivo só, diminuindo o seu significado? Será que a grande quantidade de histórias expostas faz com que a percepção sobre cada indivíduo seja diminuída em sua individualidade? Sim e não.

Se você passa apressado, a única coisa que vê é a quantidade de informação. Mas, se parar para ler, consegue perceber que cada indivíduo tem sim a sua história e pode sim cativar, emocionar e desenvolver vínculos. A questão reside então no tempo que o visitante dedica a isso.

Ao contrário do que menciono no artigo: “A imagem como substituto do patrimônio material: a fotografia como desvalorização do objeto”, aqui cada indivíduo é identificado, tem a sua história contada e emociona, gerando curiosidade para a próxima foto e história.

A intenção de chocar ao colocar um homem na ponta do painel – e não no meio – atingiu o objetivo esperado: chocar os homens que acreditam que isso seja uma questão apenas feminina. Em algum tempo observando os visitantes pode-se perceber que sim, os homens se identificam e param para ler. Essa quebra sequencial chama a atenção para algo ainda pouco divulgado: homens também tem câncer de mama.

Homens também tem câncer de mama. Foto: Renata Figueiredo-Lanz.

Uma pequena – e quase imperceptível – diferença no design, que faz com que o indivíduo se destaque em um contexto de coletividade.

Mas, sobretudo aquele que parar para olhar a exposição e ler algumas dessas histórias vai atingir o objetivo principal: refletir. O visitante deve sair diferente do que entrou e esse é o objetivo – ou deveria ser – de toda a exposição: gerar reflexão, questionamento e transformação. Cada ser é único e deve ser fortalecido em sua individualidade.

Claro, faça a sua selfie, passeie pela exposição, afinal o local é lindo e a exposição foi feita com muito carinho. Além disso, hoje o marketing vem disso.

Porém, pare, leia e reflita sobre essa visão diferente do outubro rosa: não é mais um anúncio sobre prevenção, é sobre pessoas reais que estão com câncer mas, principalmente, sobre pessoas que estão vivas, tocam em frente e tem esperança. Mesmo com tantas dificuldades, ainda há um lado cor de rosa.

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Crítica Expográfica é escrito por Renata Figueiredo Lanz, que, além de produtora de conteúdo neste blog também é diretora de criação da Renata Figueiredo | design gráfico + expografia . Para entrar em contato envie um e-mail para renata@refigueiredo.com.br

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