Museus: para que e para quem?

A resposta parece ser uma só. Mas as formas de expressá-la são inúmeras.

A questão “Para que servem os museus e para quem são destinados?”, aparentemente simples, parece carregar a mesma complexidade que o questionamento “O que é arte”?

Talvez por isso, na última conferência em Kyoto, a assembléia geral do ICOM (Conselho Internacional de Museus) não tenha conseguido chegar a uma redefinição sobre o tema e ela tenha sido adiada para daqui a 1 ano.

Foi, inclusive, aberta em 2018 a possibilidade de sugestões para redefinições, tal qual a alternativa:

“Museums are democratising, inclusive and polyphonic spaces for critical dialogue about the pasts and the futures. Acknowledging and addressing the conflicts and challenges of the present, they hold artefacts and specimens in trust for society, safeguard diverse memories for future generations and guarantee equal rights and equal access to heritage for all people.

Museums are not for profit. They are participatory and transparent, and work in active partnership with and for diverse communities to collect, preserve, research, interpret, exhibit, and enhance understandings of the world, aiming to contribute to human dignity and social justice, global equality and planetary wellbeing.” (https://icom.museum/en/activities/standards-guidelines/museum-definition/)

Porém, após as discussões na conferência em 7 de setembro de 2019, a definição de 24 de agosto de 2007, ocorrida em Viena, permanece:

“A museum is a non-profit, permanent institution in the service of society and its development, open to the public, which acquires, conserves, researches, communicates and exhibits the tangible and intangible heritage of humanity and its environment for the purposes of education, study and enjoyment.” (https://icom.museum/en/news/the-extraordinary-general-conference-pospones-the-vote-on-a-new-museum-definition/)

As definições oficiais sempre ocorrem em inglês e francês, mas a tradução para o português seria: “Museu é uma instituição permanente, sem fins lucrativos, a serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, aberta ao público e que adquire, conserva, investiga, difunde e expõe os testemunhos materiais do homem e de seu entorno, para estudo, educação e deleite da sociedade”.

Temos hoje então esta definição como diretriz para pensar o museu, as exposições e o seu público. Definição essa que já foi muito discutida pelo ICOM, que conta também com o brasileiro Bruno Brulon como presidente do ICOFOM. Quem já teve a honra de ouvir uma palestra de Brulon, sabe que se trata de alguém notável, e que cada frase proferida por ele carrega um grau de complexidade e conhecimento profundos em museologia e museografia.

Mas claro que se a definição está em discussão, é porque carrega questionamentos sobre alguns termos, como se viu no simpósio do ICOFOM em Junho de 2017 em Paris. (http://network.icom.museum/icofom/meetings/previous-conferences/defining-the-museum/)

Grande parte das palavras é examinada pelo que refletem, mas não por conta da essência do museu, que se mantém a mesma. Como por exemplo:

  • O museu é inegavelmente um lugar voltado para pesquisa e é unânime que ele não pode trabalhar sem ela. As coleções só podem ser exploradas, entendidas e enriquecidas através da pesquisa. Questiona-se apenas se “study” (estudo) é a palavra que realmente reflete esse conceito e não seria melhor “research” (pesquisa). A palavra é revista em seu significado  e interpretação, mas jamais se nega a essência.
  • Sem fins lucrativos parece ser um termo que causa muita confusão. O museu deve ser um lugar em que a confiança dos visitantes no objeto exposto e no que é dito deve ser estabelecida. Quando não há um financiamento de uma empresa ou de um indivíduo, o museu pode expressar as suas idéias livremente, comprometido com os resultados de suas pesquisas, sem censura. Mas o fato dele ser sem fins lucrativos não significa que ele não arrecade dinheiro para se autofinanciar. O objetivo não é o lucro (enriquecimento pessoal) de um financiador. Para esclarecer essa diferença, questiona-se se não há uma palavra mais adequada.   

A discussão sobre os termos é bastante extensa, mas, como se vê, as principais indagações a respeito da terminologia se referem a melhor esclarecer as funções e objetivos do museu (para que e para quem serve o museu) e não a sua essência, que é ser um local de pesquisa que expõe as suas descobertas para o benefício da sociedade e sem vínculo com nenhum financiador que possa censurar a sua liberdade.

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Crítica Expográfica é escrito por Renata Figueiredo Lanz, que, além de produtora de conteúdo neste blog também é diretora de criação da Renata Figueiredo | design gráfico + expografia . Para entrar em contato envie um e-mail para renata@refigueiredo.com.br

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2 comentários sobre “Museus: para que e para quem?

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