Quando refletimos? Quando paramos?

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fonte:<a href=”http://www.freepik.com/free-photos-vectors/background”>Background photograph designed by Jcomp – Freepik.com</a>
Há uma febre que critica “Pokemon Go” como se este fosse o grande problema nos nossos tempos. Agora ele chegou aos museus e exposições e já divide o público entre os críticos ferrenhos e aqueles que querem trazer o público para o museu a qualquer custo. Muitos chamam os usuários do jogo de zumbis ou de alienados. Contudo, a alienação gerada pelo jogo nada mais é do que um reflexo da alienação geral, de seres humanos com os seus dispositivos móveis que, teoricamente, nos conectam com o mundo. Faz algum tempo me incomodo com a necessidade de se estar conectado o tempo inteiro. Outro dia, no supermercado, a promotora de vendas de uma produto alimentar, digitava freneticamente no celular e se escondeu entre as caixas de cerveja ao ver a aproximação de uma pessoa (eu, no caso). Nem olhou para a frente, simplesmente continuou digitando, se embrenhou entre as cervejas e esqueceu que o seu trabalho seria oferecer o produto da bandeja que carregava. Na sequencia, no mesmo supermercado, um repositor de produtos, passa empurrando um carrinho enorme, vazio, de volta para o estoque, também digitando no celular, sem olhar para a frente. Em um balcão, várias pessoas (inclusive eu) com a comanda na mão esperam a vez de uma atendente, enquanto a outra digita no seu celular, fingindo não ver o mundo a sua volta. Dou a volta no balcão e chego na lateral, de frente para a atendente com o papel. Ela vira de costas e continua digitando, ignorando a presença de um cliente. Mas, o que isso tem a ver com exposições? Tem a ver com a forma que as gerações estão encarando o mundo e, consequentemente, as exposições e o conhecimento nela retido. O ser humano não reconhece mais o outro, nem o que ocorre no mundo a sua volta. Passa o tempo todo ligado, conectado, não presta mais atenção a sua volta. Nesse contexto, quando, realmente o cérebro descansa e pára para olhar o outro? E para refletir sobre o que está acontecendo consigo ou com o próximo? Ou ainda para fazer conexões entre conhecimentos, refletir sobre determinados temas, antes de reagir sobre eles? Segundo Jean Davallon*, em uma exposição, trabalhamos com um jogo de retenções. Ou seja, para absorver conteúdos, o visitante é estimulado em pontos mais fortes ou mais fracos da exposição, tendo inclusive momentos de descanso, que o permitem absorver e refletir sobre o que foi dito. É portanto em um momento de menor estímulo que o visitante vai conseguir estabelecer conexões. Como então, um cérebro hiperestimulado por recursos multisensoriais das exposições, excesso de informações vindas de dispositivos móveis e nenhum momento de “descanso” vai conseguir refletir sobre algo, criar conexões e até analisar criticamente um conteúdo? Como as pessoas que não estão mais acostumadas a ficar 2 minutos paradas pensando (nem na fila, nem no trânsito, nem no restaurante, nem com os amigos) vão estabelecer algum tipo de raciocínio não só nas exposições, mas na escola, faculdade, política ou ainda em uma conversa com amigos? O tempo para a reflexão ou ainda para o descanso do cérebro, valorizado por Domenico de Mais em seu “ócio criativo”, parece ter evaporado. Não descansamos, não tiramos férias, não nos desconectamos. Aonde está então o espaço para pensarmos? Será que ele ainda existe? Será que teremos tempo para parar e pensar antes de reagir? Ou simplesmente um pouco de tempo para parar e não pensar em nada, como faziam os nossos pais nas férias, em frente ao mar? Pokemon Go vai embora em breve, como o Candy Crush e tantos outros. Ele só jogou na nossa cara questões que já existiam. Os tão criticados zumbis alienados andando pela rua atrás de um Pokemon refletem a realidade de todos nós, olhando para baixo, dia e noite, buscando notícias ininterruptamente (seja em um jornal ou em uma rede social), digitando e-mails, mensagens, postando fotos ou fazendo algo realmente importante e inadiável no celular, no meio da rua, no trânsito, no trabalho, na exposição, no museu, no consultório, no restaurante ou no centro espírita. *DAVALLON, Jean. L’exposition a l’oeuvre: stratégies de communication et médiation symbolique. Paris: L’Harmattan, 2000. _________ Curta nossas redes sociais: Insta: @criticaexpografica | Face: facebook.com/criticaexpografica _________ Crítica Expográfica é escrito por Renata Figueiredo Lanz, que, além de produtora de conteúdo neste blog também é diretora de criação da Renata Figueiredo | design gráfico + expografia . Para entrar em contato envie um e-mail para renata@refigueiredo.com.br _________ Gostou do post ou tem uma outra opinião? Deixe seu comentário abaixo.

Remontagens expográficas – MASP

O MASP está em um momento em que parece olhar para a sua própria história e buscar o valor de suas montagens expográficas.

No ano passado, voltaram os famosos – e polêmicos – cavaletes de Lina Bo Bardi, que abriram a exposição de longa duração da nova sede do museu, na Avenida Paulista.

Agora é a vez de Portinari, exposição montada em 1970 e que voltou no dia 12 de agosto. A montagem original contava com plantas decorativas e, através de uma estrutura de madeira, criava um ambiente (como se fosse um estande) em que os visitantes penetram neste ambiente vazado e apreciam as obras.

A lógica de sobreposição das obras é semelhante a dos cavaletes, mas soma-se a um novo display expositivo que gera uma fruição completamente diferente das exposições.

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fonte: http://www.imgrum.net/media/1238777122496556076_28519714 @maspoficial. Vista da exposição Cem obras-primas de Portinari, com expografia de Lina Bo Bardi, 1970, foto Luiz Hossaka.

 

Obviamente hoje os conservadores não permitem o uso de plantas verdadeiras próximo de obras como estas. A montagem então ficou assim:

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Fonte: http://www.imgrum.net/media/1314595842115633190_28519714 @maspoficial

 

Ainda não compreendi do que tratam as novas traves na parte inferior. Será que é para afastar o público das obras? Para não permitir que toquem na obra, etc? Talvez…. a fruição e a relação com o público mudou bastante nas ultimas 4 décadas. Tal qual a conservação. Isso torna impossível uma remontagem fiel – neste caso – fazendo com que haja uma referência expográfica ao original de Lina. Mas não uma montagem fiel.

Será que o nosso público mudou ou a nossa forma de encará-lo é que é diferente?