Museu de Congonhas: um museu de grandes novidades

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Antes de visitar o novo museu de Congonhas, que custou a partir de R$ 25 milhões (informações divergentes são encontradas na internet) fui rever o Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, percorrendo as obras do Aleijadinho em suas capelas e terminando na Igreja (atualmente fechada) observando os profetas que estão no pátio externo.

Depois disso, me senti “preparada” para ir ver um museu sem acervo, já que, teoricamente, ele falaria sobre o santuário e a obras de Aleijadinho, pelo que eu tinha entendido nas obras que li.

A entrada deste belo edifício passa pela lojinha e restaurante e segue reto em um corredor. Chegando em uma recepção, apresento a minha carteirinha do ICOM, que deveria dar isenção à entrada e a funcionária desconhece completamente do que se trata e me dá um “desconto” de 50% na entrada, acreditando ser uma carteirinha de estudante, de uma instituição desconhecida. Tentei explicar, mas desisti. Já sofri com o mesmo desconhecimento no Museu do Futebol em 2011 e vi que é absolutamente inútil tentar explicar.

Na entrada, um corredor começa a introduzir historicamente a construção do templo e tenta justificar a importância da cidade de Congonhas e do museu. Me animo. Mesmo. A moça do educativo, super disposta, dá explicações a respeito das romarias nesta cidade, em função da Igreja e da obra do Aleijadinho. Me animo mais. “Além de bonito, o museu promete quebrar paradigmas dos museus atuais”, penso.

Seguindo para o final do corredor, encontro então o início do espetáculo. Imagens realmente muito bonitas da igreja e dos profetas são projetadas em uma tela gigantesca. Não tem como não ser atraído por ela.

Fui em direção a esta, ignorando a linha do tempo existente no caminho. A música reforça o sentido de que se está entrando em um templo. Em frente a tela tem um dispositivo dito “interativo” (clique no link para entender porque não é real essa interatividade) em que você clica em um botão, ele acende o local (por exemplo, a igreja) em uma maquete e imagens deste local aparecem. Lindo espetáculo de sons e imagens que ajudam a imergir no universo de Aleijadinho. Imagino então que, a partir daí as obras de Aleijadinho que vi lá fora serão valorizadas, contextualizadas e o conhecimento aprofundado.

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De repente, no meio da contemplação, lembro da conversa com minha mãe que falava sobre a igreja dos “doze apóstolos”, num erro bastante comum que já ouvi de outras pessoas e me questiono: porque as pessoas confundem profetas e apóstolos? Porque não foram colocadas esculturas dos apóstolos e sim dos profetas? Questiono uma outra moça do educativo que esta próxima, sobre o que são exatamente os profetas e porque eles foram escolhidos para estar lá. Ela se confunde, não sabe responder nem o que eles são. Vai para uma outra, que se enrola um pouco na resposta sobre o que são e não concluo nada. Nem elas.

Na parede de abertura da exposição há um trecho que diz que “O propósito primordial do Museu é qualificar a visita ao Santuário do Bom Jesus de Matosinhos e oferecer ao público (…) as inúmeras possibilidades de informação e de interpretação desse conjunto patrimonial”.

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Neste momento me pergunto: Para quem é este museu? O seu conteúdo não versa justamente sobre a igreja em que as obras mais populares são os lindos e gigantescos profetas, dos quais se produziu fotos maravilhosas? Como o educativo titubeia ao responder o básico? Este museu não é para todos os públicos, inclusive os ateus, judeus, evangélicos e budistas?

Olhando com mais atenção para a grande parede com muitas informações, textos de diferentes tamanhos, imagens dos profetas em loop nas televisões, vejo dados superficiais sobre o que seria cada um dos profetas e, no meio desta confusa parede cujos vídeos chamam mais atenção que tudo, há uma explicação breve e superficial que responde pelo menos o que são os profetas, no meio, no alto. Quase chamei a moça do educativo para ler.

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fonte: http://images.adsttc.com/

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O percurso prossegue com um emaranhado de problemas básicos de design gráfico e design de exposições: fontes tipográficas de tamanhos variados nos painéis, incluindo tamanhos de fontes que funcionam muito bem no papel mas que para uma exposição, são quase ilegíveis, ainda mais sobre fundos coloridos. Uma exposição não é um livro, como já disse em artigos anteriores e apresenta características próprias de design para ter uma boa legibilidade.

A linha do tempo é um bom exemplo, pois mostra todos os problemas de legibilidade possíveis. Fiz um pequeno círculo rosa em alguns exemplos

  • textos muito pequenos;
  • textos muito altos que dificultam a leitura por seu tamanho e localização;
  • textos com baixo contraste em relação ao fundo o que tornam a leitura sofrida;
  • textos com grafismos no fundo, o que dificulta ainda mais a leitura.

Por mais interessantes que possam ser os textos, quando há dificuldade de leitura, eles se tornam rapidamente desinteressantes.

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Sigo…um dispositivo muito bonito colocado no centro da exposição apresenta artefatos para a produção das esculturas do Barroco (acho). Não saberia dizer com precisão, pois a iluminação superior impossibilita a leitura devido a reflexão dessas luzes no vidro exatamente em cima dos textos, que já são pequenos e em uma altura que você tem que abaixar para ler. A iluminação que foca nas ferramentas penduradas, prejudica a leitura dos textos embaixo.

Mas, sem dúvida, temos uma bonita instalação cenográfica. Os textos (ou os vidros sobre eles) é que não deveriam estar lá.

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Foto: Ana Elisa/Portal EBC

Confesso que a essas alturas já havia perdido um pouco do interesse. Toda a animação do início da exposição já tinha ido embora. Se há alguma explicação mais profunda sobre a obra de Aleijadinho, sobre as esculturas dos profetas e a sua razão de ser, não consegui identificar. Tudo me pareceu bastante superficial e até, porque não, desviando do tema central (as esculturas do lado externo da Igreja) que são fruto de grandes discussões.

Não há nada mais material que as esculturas de Aleijadinho. Fico me perguntando: como fazer um museu de acervo imaterial (só com imagens das obras) de algo tão concreto? É inegável que o apelo de uma escultura real, em 3 dimensões chama a atenção mais do que mil imagens das mesmas, colocadas nas paredes.

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O museu segue com uma sequencia de fotos até que chega, enfim a um “acervo material”. Não de Aleijadinho, mas de esculturas de santos, ex-votos.

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Introduzida a coleção sem nenhuma conexão do que foi dito na sala anterior, fico confusa. Sem o ferramental necessário para articular ou relacionar aquela coleção com o que tinha visto até então, encaro aquela sala como mera “curiosidade”. Fotografo “São João Evangelista” e mando para uma amiga designer, pedindo que reze para ele, pois os tempos estão difíceis.

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As informações dadas de cada obra não me dão mais ferramental nenhum, além de uma sala cheia de esculturas. Ainda tento entender porque isso está ali, bem como a indignação de algumas pessoas na sala, que claramente conheciam a coleção,  revoltadas por este acervo ter sido levado para este museu e não deixadas no seu local original. Não entendi. Ma são tudo bem, n vou entender a conexão com a próxima sala, que volta ao tema anterior.

Sigo em frente por um percurso meio labiríntico. O acesso ao pavimento seguinte de exposições não deveria ser obvio? Não é. Chego enfim a um corredor, lá no final, um “um happy end” em um corredor não muito largo onde deveriam estar os profetas. Não estão. Apenas 2 réplicas. Mais nada. R$ 500mil é o custo de cada réplica. Vai demorar. O museu construído com o propósito inicial de abrigar as esculturas e protegê-las da ação do tempo, abriga réplicas.

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E quase como se o pensamento coletivo levasse a isso, chega-se a um “beco sem saída”, após as réplicas do corredor, que é o final da exposição. Sim, do museu construído e projetado para isso, que não é a adaptação de um prédio existente, termina em um beco sem saída. Termina numa porta de emergência fechada e você é obrigado a voltar pelo meio da exposição.

Mas ainda no final, neste “beco”, ao lado da saída de emergência  – peço a você, leitor, que interprete semioticamente essa conexão – ainda tem o vídeo de uma pessoa do IPHAN, que trabalha no restauro e conservação das obras e justifica o porque as obras originais não estão no museu e sim expostas ao tempo. Interessante imaginar que o museu foi construído para abrigar as esculturas e escolhe a última sala para justificar essa ausência.

Mas essa questionamento e ambiguidade foi um dos poucos momentos que trouxeram a reflexão dentro do espaço expositivo.

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2 comentários sobre “Museu de Congonhas: um museu de grandes novidades

  1. Ótima crítica. Também estive em janeiro no neste museu e passei pela mesma situação quando apresentei carteirinha do ICOM. O circuito não tem um fluxo natural e os “educadores” não ajudam na compreensão da exposição . Exposição bonita. Só isso! Um bom exemplo de que um museu é bem mais do que somente uma bonita exposição. Espero realmente que essa instituição seja diferente de outras que depois de algum tempo, com suas eternas exposições datadas, jamais consigam ser verdadeiramente museus.

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