Como educar o público das exposições

“O Museu Paulista é, muitas vezes, o primeiro museu onde as pessoas vem, e elas não sabem o que fazer, como se comportar” me disse uma vez um profissional deste museu, logo no início do meu mestrado, há muitos anos atrás (quando este museu ainda estava aberto).

Porém, só muitos anos depois, esta imagem foi se construindo na minha cabeça. E se solidificou de fato nesta segunda-feira, aniversário de São Paulo, na abertura da exposição  sobre Mondrian no CCBB (em breve farei uma crítica específica sobre esta exposição).

Em um primeiro momento, achei que o profissional do Museu Paulista (também conhecido como Museu do Ipiranga) se referia ao comportamento dentro de uma exposição como algo mais específico: saber qual percurso ir, saber que não deve tocar em objetos, etc. Mas hoje acredito que isso seja algo para um segundo momento.

Nesta semana descobri que precisamos ir além: a idéia de espaço público, sabendo respeitar o espaço mas, antes de tudo, respeitar o outro visitante. Exemplifico:

1 – A experiência da coletividade da leitura

Entrando no 1º andar desta exposição encontrei um texto que eu tentava insistentemente ler, enquanto a criatura do meu lado, lia em voz alta para o ser ao seu lado, que comentava e lia trechos também, como num jogral. E daí que tinha alguem ao lado?

2- A experiência da coletividade das fotos alheias

Insistindo nesta leitura que já exigia alto nível de concentração, fui interrompida (eu e a sala toda) por um outro ser humano com um celular que, a cada foto, fazia um efeito sonoro de uns 3 segundos, algo como um apito e uma pirueta. Todos olham. Esta pessoa estava tirando fotos de todos os quadros da sala (sabe-se Deus para que) até que o guarda foi conversar com ela e ela sumiu. Ou seja, se não dá para fotograr, não interessa.

3 – A obsessão coletiva por fotos e celulares

Não bastasse a primeira pessoa, um grupo de três indivíduos estava fotografando insanamente todas as obras – que, diga-se de passagem, tinham vidros na frente. Aos berros, uma das meninas do grupo berra para o menino: “Você vai me mandar todas as fotos que está tirando não é?” e continua o discurso aos berros. Tudo isso ocorrendo entre eu e mais um grupo que observava o quadro. O sujeito então pega o seu celular e se planta na frente do quadro (de costas para ele), parado, e fica digitando, até que alguém que estava olhando o quadro se cansa de aguardar e lhe pede licença para ver a obra.

4 – Silêncio!

Nesta mesma sala, minutos depois, houve um “shhhhhhhh” coletivo (juro que não fui eu!) tamanha a zona que se apresentava, a ponto de incomodar a todos os outros que tentavam se concentrar. Meu único comentário, baixinho: “Que bom, acabou a feira!”.

 

Todas as experiências mostram sim que as pessoas não sabem se comportar- ou ainda não aprenderam, na minha visão otimista –  dentro de um espaço expositivo, em especial no que diz respeito ao respeito a experiência de visita do próximo. Mas, me pergunto se elas sabem se portar como cidadãos de uma cidade em que seria necessário respeitar o espaço coletivo.

Muito antes de pensarmos sobre se as pessoas vão seguir um percurso, se elas vão apreender a obra, se a cenografia causará impacto ou se os dispositivos interativos funcionarão adequadamente, acho que precisamos pensar: será que a pessoa vai ver a exposição através dos seus próprios olhos ou vai passear (como num parque) entre as salas e fotografar alucinadamente para ter mais “posts” em seu facebook mostrando pseudo-experiências vividas?

Há um tempo atrás, postei neste blog a iniciativa de um museu para que as pessoas parassem de fotografar e olhassem para as obras de arte, desenhando-as (https://wordpress.com/post/criticaexpografica.wordpress.com/284). Isso mostra que o problema não é só nosso: sem essa besteira preconceituosa e de “Só no Brasil mesmo”! Isso ocorre também na Holanda, olha só! E, na Capela Cistina, há mais de 10 anos, eu ouvia guardas de 3 em três minutos, fazendo um sonoro “shhhhhh”, tal o ruído ensurdecedor lá dentro. Só na Italia mesmo!

 

 

 

12 comentários sobre “Como educar o público das exposições

  1. Não sei se isso é um problema a ser resolvido. Como foi colocado as pessoas querem demonstrar ou se orgulhar de suas vivências eu particularmente acho ótimo que isso inclua museus e exposições. Salas cheias na minha opinião também são bem vindas!

    1. Sem duvida. Mas será que essas pessoas olham as obras? Será que elas saem das exposições tendo alguma noção do que viram lá? Tenho essa dúvida quando vejo os visitantes fotografando tudo e não olhando verdadeiramente para nenhuma obra, sem ser na tela do celular…

  2. ” obsessão coletiva por fotos e celulares”

    Obsessão coletiva por imagens, objetos, documentos. Obsessão em registrar, catalogar, reunir, colecionar.

    Não sei por que se incomodar com isso. Não é isso, afinal, o que levou esses seres esquisitos que são os ocidentais modernos a criarem seus museus — ainda que travestidos de suposta ciência e intenso positivismo após o século das luzes, mas ainda mantendo a mesma obsessão dos velhos gabinetes de curiosidades?

    A maneira letrada e comportada de experimentar o espaço museal que as elites cultivam há dois séculos não é a única, sabia?

  3. Gabriel, em primeiro lugar obrigada pelo comentário. Gosto de saber que sempre existem outros pontos de vista. Quanto a suas questões: a nova museologia busca criar relações entre os elementos para gerar reflexão no visitante. Se o museu não pretende ser simplesmente entretenimento e sim um espaço de reflexão, como isso pode ser gerado em meio a um caos em que os visitantes querem apenas mostrar para o outro (através de fotos) que viveram uma experiência que, na verdade, não viveram.

    Como conceptora de exposições, me preocupa que as exposições – que são resultado de pesquisas sobre o acervo dos museus – na verdade se tornem entretenimento vazio. E pior: que aquele que querem realmente apreciá-las tenham dificuldades por conta dessas divergências.

    Por fim, concordo com você que não tenhamos que vivenciar a experiência de templo, que se enfatizou no Cubo Branco, mas será que temos nos comportar na exposição de arte da mesma forma que na de ciências? Ou ainda nas exposições de história? Será que a própria temática da exposição não exija uma recepção diferente do expectador?

    1. O problema da maneira como você está construindo seu argumento é a naturalização de protocolos sociais próprios dos grupos a que (supostamente) se destinam os variados tipos de proposta museográfica/expositiva — no fundo, apenas naturaliza preconceitos de classe relacionados à fruição estética.

      Em nenhum momento falei em museus de ciência ou de história (até mesmo porque é nas propostas artísticas mais contemporâneas que vejo soluções mais interessantes para esses impasses, distantes do excessivo didatismo de espaços de divulgação científica, por exemplo). No entanto, sua menção a tais categorias apenas reforça estereótipos: em nenhum momento defendi a abordagem pirotécnica do tipo “hands-on” que por vezes vemos em museus de ciências e história, por exemplo. Pelo contrário: trata-se de um protocolo de fruição supostamente “lúdica” que em nada difere dos protocolos blasé dos museus de arte. Em ambos os casos há uma disciplinarização da experiência.

      Meu argumento vai em outro sentido: há de cara uma perspectiva paternalista (ou excessivamente didática) quando se considera que a experiência do outro foi simplesmente “entretenimento”, diferente da minha, que foi “superior”, “sublime”. Afinal, EU compreendi os significados da exposição, já o fulaninho que fala alto e tira selfies apenas “se divertiu”.

      Não há justificativa para isto: é um argumento simplesmente preconceituoso, classista, elitista. Não compactuar com a disneyficação dos museus não significa adotar tais preconceitos.

  4. Há alguma reflexão na pessoa que entra na sala, tira uma foto em frente ao quadro e simplesmente vai embora da exposição após 4 ou 5 fotos em salas diferentes? Será mesmo classista querer que as pessoas parem e olhem o que está exposto? É elitista querer que elas reflitam sobre o que estão vendo?

    Grandes museus de arte como o Rijksmuseum (vide https://criticaexpografica.wordpress.com/2015/11/11/parem-de-fotografar-e-olhem-a-obra/ ) estão adotando estratégias justamente para fazer com que as pessoas olhem para as obras e compreendam melhor o que está sendo exposto, ou seja, não é um problema local nem uma preocupação exclusivamente minha. Será elitista, preconceituosa e paternalista esta iniciativa dos museus? Ou reflete uma preocupação atual dos museus com o seu público?

    1. Mais uma vez: quem disse que o ato breve de fotografar não indica uma maneira peculiar de “refletir” sobre a obra? Ou, de outro modo: por que diabos queremos EXIGIR que o visitante reflita, segundo termos e valores que são nossos? É muito fácil simplesmente rotular o frenesi fotográfico dos “não-iniciados” como uma forma de consumismo de massas iletrada e inculta. Isso é puro preconceito de classe.

      Mais uma vez: você está naturalizando práticas e saberes específicos de um grupo social para o conjunto da sociedade. As maneiras de fruição variam — e os museus podem sugerir formas distintas de contato e fruição, mas nunca tentar impor ou explicar obras e escolhas curatoriais.

      Seu argumento parece querer voltar aos velhos paradigmas oitocentistas de que a função dos museus é “educar” (no pior sentido da palavra) as massas incultas, “civilizando-as”.

      1. Gabriel, muito pelo contrário.

        Não considero a “massa inculta e iletrada”, isso são palavras e preconceitos seus, não meus: acredito sinceramente na capacidade de todos os visitantes de compreenderem a exposição e refletirem sobre ela, independente de conhecimentos prévios sobre o tema. O discurso de exclusão e diferença de classes veio de você, eu apenas disse que essas pessoas pareciam entrar em um museu pela primeira vez. E sim, se portam como em um shopping center ou um parque de diversões, locais onde os propósitos são muito diferentes de uma instituição museal.

        A prática da reflexão nos museus e, consequentemente, nas exposições geradas por eles vem justamente da idéia de democratização do conhecimento e inclusão socio-cultural. O que são os museus se não instituições do saber? Não querer que as pessoas adquiram conhecimentos na exposição não é por si só, um pensamento exclusivo e elitista? O conhecimento não continuaria segregado a poucos, enquanto o restante dos visitantes se sente falsamente incluído?

        Quanto ao seu argumento do século XVIII, recomento o artigo de Alice Duarte, sobre a Nova Museologia, que mostra a busca justamente das novas perspectivas de inclusão no museu, citando Georges Henri Riviére, um dos pilares para a construção desta nova museologia do século XX e XXI, voltadas para o maior número de pessoas e buscando sim ensinar – e não civilizar, pelamordedeus.

        Segue um trecho de um artigo da Revista do Programa de pós-graduação em museologia e patrimônio da UniRio que acredito que ilustre bem as questões dessa nossa discussão. Discussão essa, bastante pertinente na atualidade.

        “A temática da democratização cultural (ou “educação popular”) surge especialmente relevante em França. Da apreciação crítica de que, até aí, o museu tinha sido um instrumento ao serviço das elites sociais e intelectuais, é entendido que a continuação da sua existência deve passar pela sua transformação em instituição ao serviço de todos e utilizada por todos. O museu pode e deve ser um instrumento privilegiado de educação permanente e um centro cultural acessível a todos. Em função de tais posicionamentos, é defendido um conjunto de reformulações que, de forma mais ou menos lenta, será adotado dentro e fora do território francês.

        No interior desta linha de renovação, é incontornável a personagem de George Henri Rivière (1897-1985) e as suas teorias museológicas defendidas e aplicadas no Musée National des Arts et Traditions Populaires, em Paris. A possibilidade do museu cumprir as novas funções que lhe são atribuídas passa, entre outras coisas, pela introdução de alguma experimentação museográfica orientada pela intenção de fazer chegar a mensagem do museu ao maior número possível de pessoas. Nas palavras de G. H. Rivière, “[…] o sucesso de um museu não se mede pelo número de visitantes que recebe, mas pelo número de visitantes aos quais ensinou alguma coisa. Não se mede pelo número de objetos que mostra, mas pelo número de objetos que puderam ser percebidos pelos visitantes no seu ambiente humano” (apud SCHLUMBERGER, 1989, p. 7). O seu trabalho pioneiro traduz-se, nomeadamente na recusa do mero deleite visual de observação de objetos isolados e na procura de um itinerário expositivo ou linguagem museográfica.” (http://revistamuseologiaepatrimonio.mast.br/index.php/ppgpmus/article/viewFile/248/239)

        Durante o meu mestrado, o que mais me incomodou nas entrevistas com os conceptores das exposições é a discussão de “o público não vai entender” e então não se dá ferramentas para que ele aprenda ou reflita. Ou ainda, se conforme com o comportamento de entrar, fotografar, popularizar a exposição através dos números de visitantes e pronto. Os patrocinadores estão satisfeitos.

      2. Ainda insisto em meu argumento: você está considerando apenas uma forma de fruição e percepção como universalmente válida. Mais uma vez: quem disse que a performatividade do ato de fotografar não constitua ela própria uma forma de conhecer, diferente da nossa? (mesmo que seja um fotografar de maneira obsessiva e “pouco atenta”, ou influenciada pelo tal “consumo cultural de massas”)

        Parece-me que existe algo de contraditório em seu discurso: você reconhece a potencialidade de percepção por parte dos diferentes sujeitos, mas em seu post faz questão de cultuar como única possível a ritualística própria e blasé dos grupos que tradicionalmente estão ligados às instituições museais (silêncio, sobriedade, etc).

        Insisto: as formas de conhecer e fruir são diversas — não devemos naturalizar a nossa como universalmente válida.

  5. Concordo com as colocações do Gabriel, a matéria soa um pouco preconceituosa, adentrar mais nas questões de mediação cultural e educação em museus através de estudos e em contato com os próprios educadores vai ajudar-te a ampliar e rever seu ponto de vista e abordagem sobre o público. Educativos como do MASP, MAM, Tomie Ohtake, Museu Lasar Segall, Museu da Cidade de São Paulo entre muitos outros em São Paulo, inclusive as propostas dos SESC’s, trarão um frescor e maior compreensão em relação ao público.

  6. Olá Camila, muito obrigada pela colaboração. Como disse, gosto de ouvir diferentes pontos de vista. E gostaria de ouvir de você a sua opinião a respeito desse novo público que encara a exposição como entretenimento fotográfico e também sugestões bibliográficas sobre essas questões atuais.

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