Frida Kahlo no Tomie Ohtake: porque uma exposição não é um livro

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Ao visitar a exposição  “Frida Kahlo: conexões entre mulheres surrealistas do México” não pude deixar de pensar que ela foi projetada para o fracasso. Sim, para um fracasso absoluto de público. Os conceptores devem ter imaginado que ninguém se interessaria em ver a Frida no Brasil e, por isso, fizeram a exposição desta maneira para que, os poucos que a frequentassem, passassem muitas horas dentro da exposição.

Vamos começar do início: entrando na exposição, ao receber o folder, lembrei imediatamente de Jean Davallon, quando ele comenta que o folder é algo para ser lido após a exposição, quase um souvenir, ou ainda um lembrete do que a exposição trata. Dei uma passada de olhos nos textos e imagens e segui em frente.

Qual não foi a minha surpresa ao perceber que os textos do folder, foram reproduzidos na abertura da exposição, tirando um parágrafo ou outro, mas na íntegra.

Textos extensos e prolixos, colocados nas paredes em formato de folder e que, na tela do computador de um designer podem parecer um joguinho interessante de diagramação entre português e inglês. Mas uma exposição não é um folder. Por mais óbvio que isso possa parecer, dificilmente os designers percebem o quanto uma exposição é uma mídia diferente, que funciona de forma totalmente diferente.

A própria diagramação na parede me parece uma “adaptação” das páginas do folder, colocada em formato aberto.

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Além de “abrir o folder na parede”, a pessoa que concebeu desconsidera que a exposição foi feita para seres humanos de, na média, 1,70m de altura. Os olhos em geral lêem confortavelmente textos a 1,50-1,60m, podendo obviamente ter textos mais altos e mais baixos que isso. Mas colocar textos a cerca de 3m de altura (primeiro painel verde ao lado do titulo da exposição) ou a cerca de 2,5m (primeiro vermelho, com textos em português) mostra a falta de experiência do conceptor deste painel em relação a esta mídia – exposição.

Um folder considera um usuário que o carreganas mãos, tendo uma relação bem diferente de uma parede, em que o usuário não pode escalar para ler nesta altura e que a fonte tipográfica, apesar de ter um tamanho razoável, parece minúscula a 3m de altura o que faz com que o leitor se esforce muito para conseguir ler.

Supondo ainda que a pessoa consiga ler o texto horrorosamente alinhado à direita (o que dificulta a leitura nesta mídia também), ela ficaria ali parada por bastante tempo para conseguir ler o gigantesco e prolixo texto.

Cria-se então o primeiro funil de público, logo na entrada da exposição, a pessoa já fica pelo menos 10 minutos parada, tentando ler.

Na sequência, fico feliz após me deparar com a seguinte placa, antes de entrar na sala:

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Baixei o aplicativo, instalei e depois fiz a instalação do módulo específico para o audioguia, processo que levou de 5 a 10 minutos. Entrei na exposição enquanto ele fazia este processo e comecei a percorre-la calmamente. O percurso sugerido parece ser bastante claro, não tive dúvidas em relação a sequencia das salas até começar a usar o audioguia. Com ele, que apresenta uma sequencia numérica estranha, fiquei em dúvida.

Além disso, os vídeos são extremamente prolixos, em alguns momentos filosóficos. São muitos interessantes, mas parecem mais um audiolivro, interessantes para se ouvir sentado, no silêncio, para conseguir prestar atenção na profundidade do que se diz. Não se debatendo com os outros para conseguir enxergar um quadro. De novo, parece haver uma questão de desconhecimento do tipo de mídia utilizada.

Audios feitos para que o usuário utilize seu próprio celular e depois são muito interessantes. Mas pensar que a pessoa ficará 10 minutos parado em frente a meia dúzia de obras, no canto da sala, é utópico e, novamente desconsidera a existência de um fluxo de público na exposição. Sendo assim, os vídeos são extremamente prolixos e desconectados com a mídia exposição em que se encontram.

Acompanhe abaixo a sequência das salas, seguidas pelo número do audioguia e, na sequencia, o tempo de duração aproximado.

Sala da esquerda (logo atrás do painel da abertura), fazendo o percurso iniciando pela parede da esquerda para o fundo e depois voltando (sentido horário):

A construção do sujeito – nº 1103 – 9’44”

Poéticas do Espaço Doméstico – nº 1105 – 8’23”

Performidade do corpo – nº 1104 – 7’23”

 

Sala da direita (atravessando o dispositivo para vídeo):

Surrealismo – nº  1102 – 6’24”

O Gênero feminino na arte – nº 1107 – 7’08”

Narativas autobiográficas – nº 1106 – 2’33”

 

De novo, tenho a dizer que os audios são realmente interessantes. Mas só consegui ouvi-los na íntegra em casa. Na exposição é humanamente impossível prestar atenção nos áudios, com toda a movimentação existente. Parece que a pessoa que os concebeu queria dizer tudo, em poucos audios, longos e prolixos.

Gosto bastante de audioguias mas, raramente se vê descrições tão longas e prolixas. E as mais longas em geral, geram o rápido desinteresse pela mídia. Não estamos, infelizmente, em uma aula de história da arte mas em uma exposição, que necessita uma objetividade maior para conseguir despertar o interesse do visitante pelo assunto.

Por fim, vem o vídeo no meio do espaço. Em um espaço que cabem, sentadas, cerca de 16 pessoas, encontrei a seguinte placa:

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Repare novamente no tempo de duração do filme: 90 minutos. Sim, uma hora e meia de filme no meio da exposição. 16 lugares sentados em banquinhos desconfortáveis de madeira. Não é um vídeo de exposição é um longa metragem!

Obviamente assisti o filme todo. Parte congelando sentada no chão, parte em pé, parte sentada em um banquinho (depois de 45 minutos de vídeo algumas pessoas começaram a ir embora). O vídeo descreve em detalhes a vida de Frida. Em detalhes minuciosos, sobre os casos de amor do marido, dela, cada viagem, etc. Fala pouco sobre as suas obras, perto do tempo despendido falando sobre a sua vida. Interessante, mas extremamente prolixo. Extremamente. Absurdamente.

O visitante sai então tonto da exposição e vai cambaleando para o andar debaixo quando se depara com o seguinte:

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No meu caso, mesmo sendo apaixonada e interessada por conhecer melhor essas outras artistas, foi impossível imaginar ficar mais tempo lá dentro, vendo outros vídeos. Estava exausta. Talvez eu volte outro dia apenas para ver 1 ou 2 vídeos sobre estas artistas. Na posição em que estão, estes sim, não no meio da exposição mas em uma sala de vídeos a parte, acredito que seja possível apenas ver a “sessão” e não fazem parte da exposição como um todo mas sim de um “anexo”, opcional.

 

Posso estar enganada mas, a sensação que ficou é de uma exposição feita as pressas, aproveitando o material já existente, sem edições, sem recortes, sem pensar que um grande público efetivamente iria percorrer o espaço. Sem pensar que uma exposição não é um folheto, não é um livro, não é uma aula de historia da arte e, principalmente, não é uma exibição de filme completo no meio do espaço expositivo.

Por isso considero projetada para o fracasso de público. Considerando que a pessoa se interesse por assistir o vídeo da Frida inteiro (1h30), ouvir o audioguia (40m, se não acabar a bateria do celular) e percorrer “rapidamente” as salas da exposição, lendo os textos de parede e olhando para as obras (1h a 2h), um visitante passaria entre 3 e 4 horas na exposição. Números inviáveis para receber um grande público neste espaço.

 

 

 

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