Afinal, o que é interatividade em museus?

Na última década, tem crescido a febre por “Museus Interativos”. E as definições divulgadas na mídia nada mais são do que uma confusão danada, tentando convencer os visitantes que qualquer coisa que pisque, é interativa.  Apertou um botão? Passou e um sensor ascendeu uma luz? Viu um vídeo?  Olha que coisa, está interagindo com o museu! Só que não.

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Vamos então fazer o caminho contrário. O que não é interatividade em museus?

O fato de um museu ter muitos monitores, vídeos, gadgets, luzes e efeitos especiais não o torna interativo. O fato de dar qualquer estímulo sensorial para o museu também não o torna interativo por si só. Diversão em museu, joguinhos, controles remotos, entre outros, por si só, também não o são.

O fetiche pelos dispositivos digitais fez com que se investissem milhões de reais (ou dólares) nas Novas Tecnologias de Informação e Comunicação e dos dispositivos audiovisuais e muito pouco em pesquisa. A aparente “facilidade” da apreensão do conteúdo, data por esses recursos, é capaz de transformar grandes museus em parques de diversões. Não sou contra o visitante aprender se divertindo. Nada disso. Mas até que ponto isso ocorre realmente nos museus brasileiros modernos, como o da Língua Portuguesa ou o do Futebol?

Se olharmos no dicionário, encontraremos a definição de interativo:

  1. Diz-se de fenômenos que reagem uns sobre os outros.
  2. Dotado de interatividade.
  3. Diz-se de um suporte de comunicação que favorece uma permuta com o público.

O que seria então esta “permuta” ou melhor, esta troca com um público?

A Revista Museologia e Patrimônio nos traz um artigo interessante que aborda a questão da fuga dos museus tradicionais – vistos como sisudos e chatos – para um novo modelo, mais “divertido” e interessante, dito então como interativo. O artigo define 3 formas de interatividade em museus, segundo a pesquisa de Wagensberg:

  • HANDS ON: muito utilizada em museus de ciência, é aquela em que o visitante tem uma interação mecânica com um objeto e assim é demonstrado um fenômeno.
  • MINDS ON: “Aqui, os elementos de interação estimulam o funcionamento da mente, instigando os visitantes a empreender um “exercício” mental, elaborando questões, solucionando problemas, criando analogias e percebendo contradições. Coloca-se, então, a expectativa de que, ao se estabelecer uma atividade capaz de correlacionar mente e realidade através da reflexão, se faça possível a produção de significados e o desejo de se colocar novas questões. Esse tipo de interatividade nem sempre se produz pelo intermédio de recursos digitais, podendo a experiência ser “desencadeada” em momentos de interação entre visitantes ou por um processo de mediação ou visita guiada.” (http://revistamuseologiaepatrimonio.mast.br/index.php/ppgpmus/article/viewFile/273/267)
  • HEART ON: busca uma identidade cultural do visitante com o objeto exposto e reforça as questões emocionais de vivenciar a experiência.
A interatividade do tipo “hand-on” é a que mais se difundiu e se distorceu nos ultimos anos. Nos museus de ciências, em geral esta experiência tem como função comprovar conceitos físicos, através da experimentação do usuário. Como se vê em:  https://youtu.be/boEyU0Pq_Lc
Mas essa experiência não tem nenhum valor se não se entender o conceito explicado, em geral mediado por um monitor da exposição ou por algum aparato explicativo.
Caso contrário, ela se torna uma experiência vazia, como a exposição temporária de Bia Lessa, em que o visitante fazia o movimento de puxar as 400 paginas ampliadas de Grande Sertão Veredas e ler um trecho em um dispositivo diferente. Essa “experiência” não agrega valor ao conteúdo e o leitor não aprende com ela. A interatividade “hands-on” se torna então, um belíssimo aparato cenográfico.
Essa exposição então, como muitas outras que temos nos museus atuais, vende uma pretensa interatividade em que não há de fato uma “troca” com o público. Não há reflexão, não agrega conhecimento nem senso crítico. Muitas vezes nem sequer emociona, informa ou diverte. Só estimula os sentidos do visitante. Outra vezes é tão “interativo” quanto uma televisão.

8 comentários sobre “Afinal, o que é interatividade em museus?

  1. É um equívoco sem tamanho afirmar que “não existe crítica expográfica”. Isso existe desde que existe crítica de arte. Isso quando não é a própria arte produzindo intrinsecamente essa crítica, nos trabalhos de arte que sempre desafiam os modos de exibir pré-existentes. Os assuntos não podem ser separados: curadoria e expografia são complementares. É uma má-fé enorme criar uma categoria de uma crítica para uma especificidade que não se sustenta sozinha.

    1. Prezada Ana Luisa, a crítica expográfica não se restringe apenas ao campo das artes e nem é vinculada somente a esta. Ela ocorre em exposições de ciências, história, cultura popular, etc. Por isso é restritivo acreditar que exista um vínculo somente com as artes ou com a crítica de arte (que vai muito além das exposições). A expografia envolve características de design gráfico, arquitetura, design de objetos, estudos de circulação, que vão muito além do que hoje temos como critica de arte e que suplantam também a expografia da arte. Concordo que a curadoria e a expografia são complementares, bem como a arquitetura e o design, entre outros aspectos deveriam caminhar juntos em um projeto expográfico, o que nem sempre ocorre. Acredito que você deva pesquisar o assunto de maneira mais abrangente antes de rotular de má-fe. Existem muitas pesquisas sobre expografia “não de arte” sendo feitas nas grandes universidades brasileiras. Dê uma olhada e você perceberá que o campo é muito mais amplo do que supõe a priori.

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