“No museum in classical sense”

the-gate_night_web
MOMEM – Imagem: http://www.momem.org/en/concept.html

Museu ou Experiência Sensorial? A Alemanha terá um museu dedicado a Música Eletrônica, o MOMEM (Museum of Modern Eletronic Art). No seu site, eles anunciam que é um museu, mas não no sentido clássico (ou tradicional). É uma “experiência” no hoje e agora… e assim por diante.

A ideia de um museu de musica eletrônica parece desafiadora e muito interessante. Mas ficam algumas questões, diante do posicionamento do museu que ainda não abriu:

Para fazer um museu diferente, é preciso negar a própria ideia de museu? Ou seria apenas uma experiência sensorial, fantasiada de museu?

Ou ainda, para fazer um museu no século XXI, precisamos nos despir dos preconceitos que acreditamos em que museus são um amontoado de objetos antigos em uma instituição que luta contra o mofo? Se o preconceito contra a palavra MUSEU é tão grande, porque não chamam de experiência? Porque usar o status da palavra museu e depois negá-la?

 

Mais em:

http://www.momem.org

https://www.facebook.com/MOMEM.FRANKFURT?fref=ts

Frida Kahlo no Tomie Ohtake: porque uma exposição não é um livro

frida_kahlo_criticaexpografica3

Ao visitar a exposição  “Frida Kahlo: conexões entre mulheres surrealistas do México” não pude deixar de pensar que ela foi projetada para o fracasso. Sim, para um fracasso absoluto de público. Os conceptores devem ter imaginado que ninguém se interessaria em ver a Frida no Brasil e, por isso, fizeram a exposição desta maneira para que, os poucos que a frequentassem, passassem muitas horas dentro da exposição.

Vamos começar do início: entrando na exposição, ao receber o folder, lembrei imediatamente de Jean Davallon, quando ele comenta que o folder é algo para ser lido após a exposição, quase um souvenir, ou ainda um lembrete do que a exposição trata. Dei uma passada de olhos nos textos e imagens e segui em frente.

Qual não foi a minha surpresa ao perceber que os textos do folder, foram reproduzidos na abertura da exposição, tirando um parágrafo ou outro, mas na íntegra.

Textos extensos e prolixos, colocados nas paredes em formato de folder e que, na tela do computador de um designer podem parecer um joguinho interessante de diagramação entre português e inglês. Mas uma exposição não é um folder. Por mais óbvio que isso possa parecer, dificilmente os designers percebem o quanto uma exposição é uma mídia diferente, que funciona de forma totalmente diferente.

A própria diagramação na parede me parece uma “adaptação” das páginas do folder, colocada em formato aberto.

frida_kahlo_criticaexpografica

Além de “abrir o folder na parede”, a pessoa que concebeu desconsidera que a exposição foi feita para seres humanos de, na média, 1,70m de altura. Os olhos em geral lêem confortavelmente textos a 1,50-1,60m, podendo obviamente ter textos mais altos e mais baixos que isso. Mas colocar textos a cerca de 3m de altura (primeiro painel verde ao lado do titulo da exposição) ou a cerca de 2,5m (primeiro vermelho, com textos em português) mostra a falta de experiência do conceptor deste painel em relação a esta mídia – exposição.

Um folder considera um usuário que o carreganas mãos, tendo uma relação bem diferente de uma parede, em que o usuário não pode escalar para ler nesta altura e que a fonte tipográfica, apesar de ter um tamanho razoável, parece minúscula a 3m de altura o que faz com que o leitor se esforce muito para conseguir ler.

Supondo ainda que a pessoa consiga ler o texto horrorosamente alinhado à direita (o que dificulta a leitura nesta mídia também), ela ficaria ali parada por bastante tempo para conseguir ler o gigantesco e prolixo texto.

Cria-se então o primeiro funil de público, logo na entrada da exposição, a pessoa já fica pelo menos 10 minutos parada, tentando ler.

Na sequência, fico feliz após me deparar com a seguinte placa, antes de entrar na sala:

frida_kahlo_criticaexpografica2

Baixei o aplicativo, instalei e depois fiz a instalação do módulo específico para o audioguia, processo que levou de 5 a 10 minutos. Entrei na exposição enquanto ele fazia este processo e comecei a percorre-la calmamente. O percurso sugerido parece ser bastante claro, não tive dúvidas em relação a sequencia das salas até começar a usar o audioguia. Com ele, que apresenta uma sequencia numérica estranha, fiquei em dúvida.

Além disso, os vídeos são extremamente prolixos, em alguns momentos filosóficos. São muitos interessantes, mas parecem mais um audiolivro, interessantes para se ouvir sentado, no silêncio, para conseguir prestar atenção na profundidade do que se diz. Não se debatendo com os outros para conseguir enxergar um quadro. De novo, parece haver uma questão de desconhecimento do tipo de mídia utilizada.

Audios feitos para que o usuário utilize seu próprio celular e depois são muito interessantes. Mas pensar que a pessoa ficará 10 minutos parado em frente a meia dúzia de obras, no canto da sala, é utópico e, novamente desconsidera a existência de um fluxo de público na exposição. Sendo assim, os vídeos são extremamente prolixos e desconectados com a mídia exposição em que se encontram.

Acompanhe abaixo a sequência das salas, seguidas pelo número do audioguia e, na sequencia, o tempo de duração aproximado.

Sala da esquerda (logo atrás do painel da abertura), fazendo o percurso iniciando pela parede da esquerda para o fundo e depois voltando (sentido horário):

A construção do sujeito – nº 1103 – 9’44”

Poéticas do Espaço Doméstico – nº 1105 – 8’23”

Performidade do corpo – nº 1104 – 7’23”

 

Sala da direita (atravessando o dispositivo para vídeo):

Surrealismo – nº  1102 – 6’24”

O Gênero feminino na arte – nº 1107 – 7’08”

Narativas autobiográficas – nº 1106 – 2’33”

 

De novo, tenho a dizer que os audios são realmente interessantes. Mas só consegui ouvi-los na íntegra em casa. Na exposição é humanamente impossível prestar atenção nos áudios, com toda a movimentação existente. Parece que a pessoa que os concebeu queria dizer tudo, em poucos audios, longos e prolixos.

Gosto bastante de audioguias mas, raramente se vê descrições tão longas e prolixas. E as mais longas em geral, geram o rápido desinteresse pela mídia. Não estamos, infelizmente, em uma aula de história da arte mas em uma exposição, que necessita uma objetividade maior para conseguir despertar o interesse do visitante pelo assunto.

Por fim, vem o vídeo no meio do espaço. Em um espaço que cabem, sentadas, cerca de 16 pessoas, encontrei a seguinte placa:

frida_kahlo_criticaexpografica4

Repare novamente no tempo de duração do filme: 90 minutos. Sim, uma hora e meia de filme no meio da exposição. 16 lugares sentados em banquinhos desconfortáveis de madeira. Não é um vídeo de exposição é um longa metragem!

Obviamente assisti o filme todo. Parte congelando sentada no chão, parte em pé, parte sentada em um banquinho (depois de 45 minutos de vídeo algumas pessoas começaram a ir embora). O vídeo descreve em detalhes a vida de Frida. Em detalhes minuciosos, sobre os casos de amor do marido, dela, cada viagem, etc. Fala pouco sobre as suas obras, perto do tempo despendido falando sobre a sua vida. Interessante, mas extremamente prolixo. Extremamente. Absurdamente.

O visitante sai então tonto da exposição e vai cambaleando para o andar debaixo quando se depara com o seguinte:

IMG_4740

 

 

No meu caso, mesmo sendo apaixonada e interessada por conhecer melhor essas outras artistas, foi impossível imaginar ficar mais tempo lá dentro, vendo outros vídeos. Estava exausta. Talvez eu volte outro dia apenas para ver 1 ou 2 vídeos sobre estas artistas. Na posição em que estão, estes sim, não no meio da exposição mas em uma sala de vídeos a parte, acredito que seja possível apenas ver a “sessão” e não fazem parte da exposição como um todo mas sim de um “anexo”, opcional.

 

Posso estar enganada mas, a sensação que ficou é de uma exposição feita as pressas, aproveitando o material já existente, sem edições, sem recortes, sem pensar que um grande público efetivamente iria percorrer o espaço. Sem pensar que uma exposição não é um folheto, não é um livro, não é uma aula de historia da arte e, principalmente, não é uma exibição de filme completo no meio do espaço expositivo.

Por isso considero projetada para o fracasso de público. Considerando que a pessoa se interesse por assistir o vídeo da Frida inteiro (1h30), ouvir o audioguia (40m, se não acabar a bateria do celular) e percorrer “rapidamente” as salas da exposição, lendo os textos de parede e olhando para as obras (1h a 2h), um visitante passaria entre 3 e 4 horas na exposição. Números inviáveis para receber um grande público neste espaço.

 

 

 

Afinal, o que é interatividade em museus?

Na última década, tem crescido a febre por “Museus Interativos”. E as definições divulgadas na mídia nada mais são do que uma confusão danada, tentando convencer os visitantes que qualquer coisa que pisque, é interativa.  Apertou um botão? Passou e um sensor ascendeu uma luz? Viu um vídeo?  Olha que coisa, está interagindo com o museu! Só que não.

white-nude-sculpture-covered-blue-plastic-on-head-3683191

Vamos então fazer o caminho contrário. O que não é interatividade em museus?

O fato de um museu ter muitos monitores, vídeos, gadgets, luzes e efeitos especiais não o torna interativo. O fato de dar qualquer estímulo sensorial para o museu também não o torna interativo por si só. Diversão em museu, joguinhos, controles remotos, entre outros, por si só, também não o são.

O fetiche pelos dispositivos digitais fez com que se investissem milhões de reais (ou dólares) nas Novas Tecnologias de Informação e Comunicação e dos dispositivos audiovisuais e muito pouco em pesquisa. A aparente “facilidade” da apreensão do conteúdo, data por esses recursos, é capaz de transformar grandes museus em parques de diversões. Não sou contra o visitante aprender se divertindo. Nada disso. Mas até que ponto isso ocorre realmente nos museus brasileiros modernos, como o da Língua Portuguesa ou o do Futebol?

Se olharmos no dicionário, encontraremos a definição de interativo:

  1. Diz-se de fenômenos que reagem uns sobre os outros.
  2. Dotado de interatividade.
  3. Diz-se de um suporte de comunicação que favorece uma permuta com o público.

O que seria então esta “permuta” ou melhor, esta troca com um público?

A Revista Museologia e Patrimônio nos traz um artigo interessante que aborda a questão da fuga dos museus tradicionais – vistos como sisudos e chatos – para um novo modelo, mais “divertido” e interessante, dito então como interativo. O artigo define 3 formas de interatividade em museus, segundo a pesquisa de Wagensberg:

  • HANDS ON: muito utilizada em museus de ciência, é aquela em que o visitante tem uma interação mecânica com um objeto e assim é demonstrado um fenômeno.
  • MINDS ON: “Aqui, os elementos de interação estimulam o funcionamento da mente, instigando os visitantes a empreender um “exercício” mental, elaborando questões, solucionando problemas, criando analogias e percebendo contradições. Coloca-se, então, a expectativa de que, ao se estabelecer uma atividade capaz de correlacionar mente e realidade através da reflexão, se faça possível a produção de significados e o desejo de se colocar novas questões. Esse tipo de interatividade nem sempre se produz pelo intermédio de recursos digitais, podendo a experiência ser “desencadeada” em momentos de interação entre visitantes ou por um processo de mediação ou visita guiada.” (http://revistamuseologiaepatrimonio.mast.br/index.php/ppgpmus/article/viewFile/273/267)
  • HEART ON: busca uma identidade cultural do visitante com o objeto exposto e reforça as questões emocionais de vivenciar a experiência.
A interatividade do tipo “hand-on” é a que mais se difundiu e se distorceu nos ultimos anos. Nos museus de ciências, em geral esta experiência tem como função comprovar conceitos físicos, através da experimentação do usuário. Como se vê em:  https://youtu.be/boEyU0Pq_Lc
Mas essa experiência não tem nenhum valor se não se entender o conceito explicado, em geral mediado por um monitor da exposição ou por algum aparato explicativo.
Caso contrário, ela se torna uma experiência vazia, como a exposição temporária de Bia Lessa, em que o visitante fazia o movimento de puxar as 400 paginas ampliadas de Grande Sertão Veredas e ler um trecho em um dispositivo diferente. Essa “experiência” não agrega valor ao conteúdo e o leitor não aprende com ela. A interatividade “hands-on” se torna então, um belíssimo aparato cenográfico.
Essa exposição então, como muitas outras que temos nos museus atuais, vende uma pretensa interatividade em que não há de fato uma “troca” com o público. Não há reflexão, não agrega conhecimento nem senso crítico. Muitas vezes nem sequer emociona, informa ou diverte. Só estimula os sentidos do visitante. Outra vezes é tão “interativo” quanto uma televisão.

Parem de fotografar e olhem a obra!

CSKXP1QWUAAMHw3

O Rijksmuseum, um dos mais famosos museus de Amsterdã e que costuma inovar em suas campanhas traz agora mais uma inovação: pede aos seus visitantes que parem de fotografar e desenhem as obras, nas visitas aos sábados.

O site do museu estimula as pessoas a olharem para as obras e conhecerem as técnicas empregadas e enfim, dá papel e lápis para que o visitante experimente enxergar de fato a obra, olhando os detalhes e entendendo – ou tentando – o que o artista queria mostrar. Para quem ainda acha que interatividade é apertar um botão e acender uma luz (a Fundação Roberto Marinho que me desculpe), deveria começar a conhecer essas iniciativas, que fazem com que de fato o visitante interaja com a obra.

10320388_10156120567835177_995867986398239868_n

Não é a primeira vez que este museu cria uma campanha inovadora (e capaz de se tornar um viral na internet). Uma campanha anterior, em 2013, fez uma intervenção muito interessante em um shopping center da cidade, chamando os visitantes para o museu: https://www.youtube.com/watch?v=ixWdRZip2TI

Essa visão crítica dos profissionais desse museu, aliada a campanhas de marketing extremamente interessante, mostra dois momentos e duas visões bastante interessantes sobre o público do museu. Em uma, ele chama a atenção das pessoas dentro de um shopping center, para que saibam o que está acontecendo em um dos principais museus Holandeses (em contraponto ao consumo de massa do shopping, a cultura). Na outra, o olhar atento dos profissionais deste museu, busca estimular que as pessoas parem de fotografar e olhem de fato para as obras.

Isso me lembra quando, no museu de antropologia de Atenas, um senhor fotografou uma vitrine inteira, a cerca de 2m de distância, com um iPad. Aquela vitrine estava cheia de pequenos objetos com não mais de 10cm de comprimento. Fiquei me perguntando o que ele veria, naquela única foto, tirada à distância, depois de voltar para o Japão.

Depois disso fiquei me perguntando SE ele veria esta foto e, não só isso mas, para onde vão esses milhares de fotografias tiradas em museus, de obras de arte ou não. Será que algum dia alguém vai parar e olhar aquela foto? Ou melhor, será que a pessoa que a viu através da tela, vai vê-la realmente algum dia? Ou vai apenas fazer parte de mais uma tonelada de lixo cibernético, armazenado em zilhões de Gigabytes que nunca serão mexidos?

O Rijksmuseum cumpre então a sua função crítica de olhar para o visitante do museu e fazer com que ele mesmo passe a ter uma visão crítica… mas dessa vez não só sobre as obras, mas sobre si mesmo.

Para saber mais:

Conheça as técnicas e as obras: https://www.rijksmuseum.nl/en/startdrawing/drawing-saturday

Entenda os conceitos da campanha: https://www.rijksmuseum.nl/en/startdrawing