Exposição Universal – Milão 2015

_9FT9147O texto de Francisco Spadoni, Stefano Passamonti e Giulia Ricci me fez ter vontade de escrever sobre a Exposição Universal de 2015, sediada em Milão. 

Fui convidada para fazer a sinalização e a marca do pavilhão em 2014, por Carol Melo, trabalhando juntamente com o Estúdio de Marko Brajovic e Artur Casas. Um processo muito interessante que gerou uma grande (enorme) expectativa de todos os envolvidos. Interessante a perspectiva do Marko: ele queria a rede. Ela tinha que estar presente na marca, devido a sua importância. Acertou em cheio: a rede, que passa por cima de uma plantação, é a grande estrela da Expo. Cerca de 15 mil pessoas passam diariamente por ela. E ainda não chegamos no verão. Mas, a parte do cenário brasileiro vem a expografia da Expo como um todo. Sobre a arquitetura e uma crítica arquitetônica sobre a expo, o texto da Arcoweb de Spadoni dá conta de resumir o que penso, com uma perspectiva mais do que interessante.

Já a expografia, acho que encontro aqui o espaço correto para externar as minhas impressões. A chegada na expo é normalmente conduzida por uma rampa imensa, a qual não peguei pois cheguei de trem. Aqueles que vem de metro, são conduzidos a andar quilômetros até conseguir, enfim, ingressar na exposição. Passamos primeiro por todos os controles exigidos para um grande evento como este – no qual algum maníaco pode tentar se manifestar contra alguma nação que não lhe apeteça – chegamos enfim aos pavilhões. Minha primeira impressão foi de certa frustração pela dimensão geral de tudo. Na minha imaginação, tudo deveria ser monumental.

Mesmo o pavilhão Brasileiro, durante o projeto, eu imaginava como algo maior, mais isolado no espaço, com menor interferência dos outros pavilhões – quase colados nele. Visitei mais de uma dúzia de pavilhões em dois dias de Expo. Tarefa exaustiva para o corpo e cérebro. Passar do Brasil à Bélgica em 30 metros é complexo. Excesso de línguas também exaure qualquer cérebro. Ler e compreender textos em Inglês, Português, Francês, Italiano e Espanhol no mesmo espaço, ouvir estas e outras línguas com uma diferença de minutos, é capaz de dar curto em qualquer cérebro preparado. Neste sentido as línguas desconhecidas são mais fáceis. Você simplesmente procura o inglês.

À parte das diferentes línguas é realmente interessante a coexistência pacífica entre as nações, a possibilidade de conhecer um pouco de cada em cada pavilhão. Dois em especial me marcaram pois, talvez, sejam os que mais levaram o tema “Alimentando o Mundo com soluções” a uma maior profundidade. O primeiro, francês, cria uma discussão em torno do tema e das perspectivas de alimentação para as próximas décadas. A entrada deste pavilhão passa por um grande jardim de plantações, chegando a uma lindíssima estrutura de madeira e a uma espécie de caminhão com um telão na entrada. Infelizmente a maioria dos passantes ignora o telão que ainda tem incidência do sol e, para os não falantes de francês é difícil ler as legendas.

5De maneira simples e didática a sequencia de telões – que dentro do pavilhão se tornam mais visíveis –  compara os produtores rurais europeus (em especial franceses) e africanos, dando um enfoque na produtividade e na capacidade de alimentar o mundo. Como bons franceses sempre colocam uma perspectiva crítica e mais profunda sobre algum tema e por isso gerou grande curiosidade de conhecê-lo. A cenografia interna, muito bonita, apresenta elementos interessantes da culinária e do cultivo francês. Mas o mais interessante, sem dúvida alguma, se concentra nos telões. Interessante como a cultura francesa se revela também em pequenos detalhes. Me incomodou muito em todas as vezes que fui para a França e, em especial Paris, a necessidade dos monitores e guardas dizerem que você não pode fazer alguma coisa: PAS DE FLASH! (Quando você nem levantou a câmera ainda) é o que ouvi diversas vezes. E por ai vai, ouvindo PAS DE mil coisas absurdas. Pois é, lá achei que estivesse isenta. Não: encostei em um guarda-corpo para ver melhor o vídeo e dar espaço para as pessoas passarem e rapidamente vem a francesinha franzindo a testa, mandando não encostar no guarda-corpo! O pavilhão de Israel tem um grande jardim vertical com diversas espécies em seu exterior. Israel é um lugar que gera curiosidade graças a sua capacidade de gerar soluções tecnológicas para a agricultura, entre outros. Basta lembrar que eles plantam no deserto e, muitas vezes em terrenos com teores de sal acima do desejado. Depois de uma certa fila, ingressamos em um lugar fechado, com um vídeo sem graça em que uma atriz israelense famosa no interagia com um “ator” no palco. Bem cercados como gado, tivemos que assistir o filme até o ultimo minuto quando fomos liberados para a próxima sala, onde o conteúdo começou a ficar mais interessante. Vídeos mostrando os avanços tecnológicos da agricultura que Israel alcançou e que hoje são conhecidos e utilizados no mundo inteiro conduzem a uma visita a este distante universo numa sequencia de salas, sempre guiadas por liberações para passar à próxima, algo que talvez mostre a postura de medo deste país em relação a um povo desconhecido, muito mais uma multidão de estrangeiros sabe-deus-daonde. U211P5029DT20150502105951_1_1Por fim, a interessante expressão mais-do-que-cliché de uma cultura tipo exportação: somente um país no mundo poderia ter a sua bandeira, com um prato de comida em um dos lados e as inscrições: FOOD 2.0. Sinceramente, é agressiva e quase massacrante a forma como se posicionam em meio a tanta delicadeza na maioria das propostas dos pavilhões da Expo. Mas sem dúvida, mostram também a sua postura diante do mundo. usa_pavilion_expo_2015_01Todos os pavilhões são, sem dúvida, uma grande propaganda do próprio país.A maioria, na verdade, é só isso. Mostrar o país para o mundo, ignorando a grande discussão que pode haver sobre o futuro da alimentação ou a sua colaboração neste. Alguns plantam alguma “coisinha em um canto obscuro” para dizer que não esqueceram do tema. Alguns viram um grande merchandising. Milhões gastos e nenhuma criatura envolvida se deu ao trabalho de entender a proposta, se aprofundar no tema e mostrar o que o seu país trás de bom para um mundo que vai continuar passando fome, com uma população em constante crescimento. Pena. Neste momento em que podemos pensar que os países não mostram porque não tem nada de interessante a mostrar me lembro do pavilhão da Austria, que vinha com um discurso vazio de que estava fornecendo ar para o mundo – e tinha uma floresta plantada no pavilhão, com algumas poucas ilustrações e joguinhos nas paredes.

Pensando que este país vem Sepp Holzer, com um interessantíssimo trabalho com permacultura, vemos que sim, há algo a mais para mostrar além da propaganda do seu próprio pais. Sobre Sepp Holzer, veja: https://www.youtube.com/watch?v=SbbLi3x0X1I

Para ver o texto da Arcoweb sobre a arquitetura da expo: http://arcoweb.com.br/projetodesign/arquitetura/internacional-milao-segunda-exposicao-mundial?utm_source=Edicao15061&utm_medium=150617&utm_campaign=NewsletterARCOweb&utm_source=Virtual_Target&utm_medium=Email&utm_content=&utm_campaign=news-150617&utm_term=

Os cavaletes de Lina Bo Bardi

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O novo diretor do MASP, Adriano Pedrosa, anunciou no ano passado que iria ressuscitar os cavaletes de vidro de Lina Bo Bardi. Ontem, na página do facebook, este projeto mostrou que vai se confirmar, em um anuncio que tem o texto “em breve volta ao MASP” e a foto da exposição dos cavaletes.

Os cavaletes de Linas foram subversivos, chocantes, inovadores. Os quadros transpõe os limites do quadro, cria relações inimagináveis entre as obras e o espaço. As obras flutuam, conversam, se contrapõe. O espaço se divide entre sério e lúdico, podendo criar relações interessantes e até mesmo divertidas com os visitantes.

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Inaugurada em 1968 com o Museu, a exposição não somente fazia com que as obras criassem uma nova relação com o espaço do museu, mas também com o espaço da cidade, dado que estavam dentro do MASP, cuja transparência deveria convidar os cidadão comuns a entrar no Museu e conseguir a tão sonhada (especialmente por Lina) popularização da Arte.

Em 1996 estes suportes expositivos foram tirados do Museu e aos poucos foi criado um espaço de Cubo Branco, uma perspectiva expográfica diametralmente oposta à de Lina. As paredes brancas, isolam a obra da influencia de qualquer outra e as vezes até mesmo da moldura.

O novo diretor, ao contrário, vem de encontro a estas decisões e resolve resgatar a memória do Museu, buscando a sua vocação primeira, dando a todos aquela curiosidade de vista a exposição, de entender melhor o pensamento expositivo e arquitetônico, de uma exposição e um edifício inter-relacionados, contínuos e coerentes.

Não vejo a hora de conhecer o que a equipe de Adriano Pedrosa resgatou, reconstruiu, ressuscitou.