Recordes de público: o que isso significa?

Em reportagem sobre a exposição de Ron Mueck, a Folha de São Paulo divulga os recordes de público de diversas exposições que passaram pela capital paulista.

Mas afinal, o que isso significa? Porque será que continuamos medindo a qualidade de uma exposição pela quantidade de pessoas que ela atrai?

Todos sabem o que uma boa divulgação é capaz de fazer. Temos centenas de exposições em São Paulo. Muitas deles até mais interessantes que as exposições blockbuster abaixo divulgadas…. porém justamente as de maior divulgação na mídia e que trazem grandes nomes normalmente lotam.

Fico na dúvida: será que estamos à margem do mundo cultural mesmo e, quando temos a oportunidade de ver algo que pertencer – teoricamente – ao “centro do mundo” saímos correndo de nossas casas pois é sempre uma oportunidade rara? Ou ainda será que a mídia nos mobiliza a levantar do sofá e ver o que quer que seja, desde que tenha grandes filas e aquela sensação de “eu preciso também estar lá, já que todos foram”?

Lembro-me que em Paris fui em uma exposição do Monet em 2010. Algo absolutamente impressionante. Uma quantidade de obras desse pintor que foram emprestadas do mundo inteiro. Uma exposição organizada cronologicamente (adoro!) mostrando o desenvolvimento da obra do pintor, fazendo um paralelo com o período histórico em que se situava cada obra. Um percurso magnificamente montado, estruturado e desenvolvido. Nada de improviso. Décadas de estudo a cada metro.

As filas apresentavam um cordão com uma estatística do tempo decorrido: “a partir daqui 3 horas de fila pela frente”, foi onde eu cheguei. Nevava. Frio de 5 graus. Todos lá, firmes e fortes aguardando a exposição de Monet. E ainda assim, surpreendente em forma, conteúdo, organização, expografia. Impecável. Valeu cada segundo.

Obviamente em Paris também tem exposições ruins. Uma delas foi a de Salvador Dalí. Até hoje me pergunto se o caos da exposição não era proposital, para estabelecer alguma relação com a obra. Filas grandes, mas não demoramos nem meia hora para entrar. Me neguei a ir na exposição do Brasil – teoricamente a mesma – para ver a exposição novamente. Se fosse o Monet novamente eu dormiria na porta….

Então no mundo inteiro formamos longas filas para ver grandes artistas, divulgado massivamente pela mídia. O que buscamos nelas afinal? Inclusão social, vendo aquilo que todos estão falando ou algum aprofundamento cultural real?

Segue abaixo a lista divulgada na Folha em 23/02/2015.

 

ÚLTIMAS MOSTRAS QUE ATRAÍRAM MULTIDÕES EM SÃO PAULO

Salvador Dalí
Onde: Tomie Ohtake
Quando: 18/10/14–11/1/15
Total de visitantes: 538 mil
Média de visitantes/dia: 6.255

Yayoi Kusama
Onde: Tomie Ohtake
Quando: 22/5/14–27/7/14
Total de visitantes: 522 mil
Média de visitantes/dia: 7.791

Castelo Rá-Tim-Bum
Onde: Museu da Imagem e do Som
Quando: 16/7/14–25/1/15
Total de visitantes: 410 mil
Média de visitantes/dia: 2.113

Ron Mueck
Onde: Pinacoteca do Estado
Quando: 20/11/14–22/2/15
Total de visitantes: 402 mil
Média de visitantes/dia: 4.178

O Mundo Mágico de Escher
Onde: Centro Cultural
Banco do Brasil Quando: 19/4/11–17/7/11
Total de visitantes: 381 mil
Média de visitantes/dia: 4.280

Impressionismo –Paris e a Modernidade
Onde: Centro Cultural Banco do Brasil
Quando: 4/8/12–7/10/12
Total de visitantes: 325 mil
Média de visitantes/dia: 5.000

*A média de visitantes não contabiliza os dias em que as instituições permaneceram fechadas