Deutscher Werkbund: uma exposição sobre exposições

Cartaz Deutsher Werkbund
Cartaz Deutsher Werkbund

A Exposição “Deutsher Werkbund – 100 anos de Arquitetura e Design na Alemanha” , no Centro Cultural São Paulo, pode ser considerada uma exposição sobre exposições.

Com conteúdo bastante interessante, ela mostra o crescimento deste movimento e as mudanças que ocorreram nele ao longo da história e também por consequência dos acontecimentos de cada época. Ao percorrer os inúmeros painéis de conteúdo, vê-se que cada painel fala de uma exposição representativa feita por aquele movimento para divulgar as suas inovações. E algumas delas traziam inovações nas suas formas de expor, como a exposição no Grand Palais em 1930, feita por Walter Gropius, na qual o arquiteto e antigo diretor da Bauhaus deu destaque a dois pequenos apartamentos – ou seja, uma montagem cenográfica – apresentando uma nova forma de habitar.

Diz o painel da exposição: “Para o enorme sucesso da muito admirada mostra contribuiu, em especial, o novo modo de apresentação. A partir de uma rampa com várias mudanças de direção, constituída por uma grela de aço era possível ver a partir de diferentes níveis, a decoração dos diferentes interiores das cinco salas. Os objetos estavam parcialmente empilhados uns sobre os outros nas paredes, fotografias de grandes dimensões foram montadas suspensas em vários ângulos de acordo com a linha de visão do observador. A percepção alterada e a encenação simultânea de arquitetura e objetos do quotidiano davam uma maior profundidade a impressão de se poder lançar um olhar sobre o mundo da habitação e da vida de um futuro determinado pela técnica, a mobilidade e a internacionalidade. A mostra, de uma modernidade radical, revelou não só uma atitude totalmente diferente da do anfitrião, mas também desencadeou uma discussão na França sobre as diferenças nacionais e os valores culturais”.

 

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Desta maneira, a exposição “Deutsher Werkbund – 100 anos de Arquitetura e Design na Alemanha”, vai se desenvolvendo e mostrando o quanto foram importantes as exposições para o crescimento e divulgação do movimento alemão. Com um conteúdo extremamente interessante para alguém que ama design e também exposições, a mostra lembra um pouco o Deutshes Museum, em Monique pela maneira que compõe o ambiente. E lembra este primeiro museu também pela exaustão causada bem antes do final da exposição.

Apesar de ocupar um pequeno espaço, os inúmeros paineis (mais de 50) apresentando o conteúdo, parecem apresentar a forma de um livro. Além disso, os textos em português estão na parte inferior, o que nos obriga a dobrar a cabeça para ter que lê-los. Fato esse que, claro, não faria tanta diferença se fossem um ou 2 painéis. O cansaço físico e intelectual é enorme e, ao fim da exposição o visitante está exausto. Mesmo que não tenha conseguido ler mais da metade dos painéis.

 

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Porém, como parece ser uma expo itinerante ela tem algumas caracteristicas interessantes: os paineis com imagens, são de alta qualidade, protegidos por um vidro e com legendas em duas línguas (alemão e inglês). Já os painéis com textos são claramente adaptados aos países em que estão. De qualidade inferior, mas seguindo a mesma linguagem e provavelmente o mesmo padrão de 2 linguas.

A imersão na exposição ocorre aos poucos, ainda na parte de fora da sala, com a contextualização histórica. Sem grandes pirotecnias conta a história de maneira precisa e direta. Bem alemã.

Mas não há dúvidas de que, pelo menos comigo, a exposição cumpriu o seu papel: despertar o interesse pelo assunto e fazer com que se continue buscando mais conhecimento sobre o assunto fora da exposição. Em breve, quem sabe, consigo postar aqui sobre as expos do Deutsher Werkbund.

 

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Abaporu: autoretrato?

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Sobrinha-neta de Tarsila do Amaral lançará novo livro, “Abaporu: Uma Obra de Amor“, defendendo a tese de que se trata de um autoretrato da artista, feito em frente ao espelho, para impressionar a sua paixão na Época, Oswald de Andrade. Interessante perspectiva que ao mesmo tempo que gera polêmica, ajuda a promover a obra com direitos pertencentes a autora do livro. Segue um trecho do livro…

“Num dia, estava Tarsila sentada no chão, pensando. Talvez, nua – já que fazia muito calor. Ou com alguma roupa colada ao corpo. Provavelmente, como de hábito, usava os cabelos presos. Devia estar com a mão apoiada na cabeça, as pernas juntas, os pés descalços.

Diante dela, havia um grande espelho. Por acaso. O espelho ficava apoiado, de forma inclinada, numa parede – sobrinha da pintora, Helena do Amaral Galvão Bueno diz se lembrar perfeitamente da casa na Rua Barão de Piracicaba; segundo ela, junto ao quarto-ateliê de Tarsila havia um corredor e, nele, um grande espelho, assim, posto no chão, apenas encostado na parede.

O reflexo, distorcido por conta da posição inclinada do espelho, mexeu com a imaginação da artista. Foi um estalo. Ela sabia perceber a poesia nos detalhes, tinha esse faro artístico aguçado de quem não enxerga o óbvio nas coisas, mas vai além. Tarsila viu na cena uma oportunidade de criação.

No espelho, a cabeça da artista aparecia bem pequena. O pé, gigante. Seus olhos de pintora se encantaram com aquela visão inusitada, diferente e, por isso mesmo, interessante.

Tarsila deve ter gastado muito tempo se observando. Horas, talvez. O pé imenso… A cabeça, minúscula… A boca e os olhos quase sumindo, a mão caída ao lado do pé grande… Que figura diferente!

Aquela imagem lhe parecia provocativa, ousada, perfeita, bem-humorada. Ficou gravada em sua retina, grudada em seu pensamento. Tornou-se uma insistente obsessão.”