Museu do Oratório: porque a exposição não tem nome?

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Vista do Museu do oratório.
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O Museu do Oratório, localizado no adro da igreja do Carmo em Ouro Preto, Minas Gerais, surpreende em diversos aspectos. A começar pela localização: ao lado de uma igreja, símbolo da fé cristã, tal qual os oratórios, ele fica muito bem contextualizado.

Historicamente também é interessante esta escolha: o edifício onde se localiza o Museu foi construído para funcionar como Casa do Noviciado, guardando, desde o princípio, móveis, objetos sacros e documentos da Irmandade do Carmo.

Como não é permitido fotografar no museu, as imagens daqui foram retiradas da internet.

Logo na entrada, gentis e cordiais funcionários te recebem da maneira bem acolhedora mineira. Um dos funcionário conduz então o visitante ao pavimento inferior.

Ao entrar na exposição, destacam-se duas grandes questões: a exposição não tem um nome e não há texto introdutório (texto de abertura da exposição). Infelizmente grande parte dos museus esquece de nomear as suas exposições e elas acabam se reduzindo a “Exposição de longa duração do museu X”.

O texto introdutório, que recebe o visitante, o acolhe e o introduz à exposição, também não foi localizado. Interessante foi porém, perceber que ele existia no site do museu. Ou seja, alguém o concebeu:

“Pequenos retábulos de uso particular, os oratórios têm sua origem nos primórdios da Idade Média. Esses utensílios religiosos chegaram à Colônia pelas mãos do colonizador português e se espalharam pelas fazendas, senzalas e residências, tornando-se parte do cotidiano brasileiro.

 Inicialmente, a capela concebida para o rei – na época acreditava-se que ele possuía dons divinos – era o local adequado para se fazer orações. Ao longo do tempo, essas capelas evoluíram para o uso particular e passaram a ser freqüentadas por associações leigas.

 Inspirando-se nos costumes da realeza, as famílias mais abastadas também passaram a possuir seus próprios altares. Esse costume acabou por se estender até o povo. Revela-se, a partir de então, o desejo de posse de relíquias ou outros objetos de piedade que conferiam aos seus donos segurança e intimidade com o mundo do sagrado.

 A partir daí, as imagens pintadas, esculpidas ou xilogravadas de santos protetores proliferaram-se. Muitas vezes, foram guardadas em pequenos altares, buscando-se conferir um ambiente propício para orações e celebrações.”

Sendo assim, a exposição parece já começar falando dos oratórios itinerantes, sem introduzirir a origem ou a função dos oratórios e apresentando a exposição aos visitantes. Algumas explicações podem ser óbvias para quem concebe a exposição, mas é importante lembrar que o público é heterogêneo e nem todos tem conhecimento sobre aquele tema.

Já o percurso proposto pela curadoria para o restante da exposição pareceu bastante fácil de seguir, o que é muito bom, já que orienta o visitante a o deixa confortável para absorver os conteúdos, sem ter que ficar procurando alguma sequência ou orientação por todo tempo, como você pode ver nessa crítica do Museu Guimet.

No Museu do Oratório a principal orientação é uma solução bem simples: numerar as placas explicativas de cada tipo de oratório e assim o visitante vai seguindo a sequência do subsolo (placa 1), passando pelo térreo e chegando ao pavimento superior (placa 25).

Para contextualizar os oratórios e os ambientes onde eles eram introduzidos, o museu arrisca algumas cenografias de ambientes de época. Recurso interessante para quebrar o padrão de vitrines e redomas adotado para proteger os oratórios. Os recursos cenográficos neste caso são interessantes na construção de um percurso com alternância de estímulos visuais para o visitante.

Vista interna do museu. Fonte: http://www.hotelsolardorosario.com/site/ouro-preto/museus/
Vista interna do museu.
Fonte: http://www.hotelsolardorosario.com/site/ouro-preto/museus/

Outro recurso adotado no subsolo para quebrar esta seqüência, uma TV com cadeiras para ver um provável vídeo, estava fora de operação e apenas com um tapume de papel no local da televisão, sem nenhuma explicação sobre se isso seria permanente ou não. Infelizmente este tipo de falta de comunicação com o público, empobrece o conteúdo da exposição, dando uma aparência de abandono e de descaso.

A falta das placas em outras línguas é uma questão relevante em grande parte dos museus brasileiros e nesse não foi diferente. Porém, apesar de não ser facilmente visualizado, na entrada existe uma bolsa com os catálogos plastificados com os textos disponíveis em diversas línguas: inglês, espanhol e frances.

Apesar das críticas acima, a exposição surpreende positivamente. O conteúdo apresentado e a seqüência em que é construída a exposição se revelaram muito interessantes durante a visita. O ambiente do museu é muito agradável e propicia uma visita tranqüila, fora do agito da cidade, possibilitando que se faça a sonhada “imersão para o universo do museu”.

Vista interna de uma das salas do museu.  Fonte: http://www.hotelsolardorosario.com/site/ouro-preto/museus/
Vista interna de uma das salas do museu.
Fonte: http://www.hotelsolardorosario.com/site/ouro-preto/museus/

Comparando com alguns museus visitados na Bahia, o estado de conservação do museu e das peças é excelente. Já se pensarmos em um museu do México, a comparação parece quase injusta. Mas devemos voltar ao velho discurso de que temos limitações de recursos de todas as naturezas?

Voltando ao momento de grandes limitações históricas, o Barroco Brasileiro foi o movimento considerado por muitos autores como um dos únicos movimentos eminentemente brasileiro em suas características. Isso ocorreu, entre outras coisas, porque ele teria se valido das limitações locais – de materiais e técnicas, entre outras – para desenvolver um novo estilo artístico, tipicamente brasileiro.

Será que essa exposição, sem nome ou texto de abertura que o identifica não é um ícone dessa limitação criada por nós mesmos?

Porque as pessoas não vão as exposições?

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Nada mais frustrante do que dar de cara na porta de uma exposição! Não é?

Especialmente em São Paulo, onde já é tão complicado ir a alguma. Todo o processo de saída de casa e chegada a exposição sempre é um pouco traumático. Seja de ônibus, metrô ou carro, sempre temos alguns transtornos como lotação do transporte coletivo, assaltos, trânsito de algumas horas, flanelinha querendo estacionar o carro ou ainda um estacionamento que custa os olhos da cara.

Certa vez, saindo de uma exposição de luminárias na FAAP, um flanelinha – que na entrada não existia – me seguiu e quando entrei no carro começou a me ameaçar. Demorei algum tempo para perceber que aquela pessoa bem vestida que gritava: “Quem agora não quer que você pare o carro aqui sou eu! Vou furar os quatro pneus do seu carro!” era na verdade um flanelinha da região que caiu do céu me ameaçando.

Talvez esse seja um dos fatores que dificultam a ida a uma exposição. Pior que isso é quando você vence a barreira da má vontade de enfrentar essas dificuldades e vai, mas não consegue ver a desejada exposição.

Foi o que aconteceu comigo neste domingo. Resolvi ir uma exposição na Oca. Uma conhecida revista anunciava que a tal estaria aberta até as 19h00. Chegando lá, as 17:05 o guardinha não nos deixa entrar: fecha as 17:00. “Ué, mas eu li na revista que está aberta até as 19:00..”. “Pois é, eles erraram feio nisso aí… fecha as 17:00”.  Não sei se existe algum termo mais adequado do que frustrante….

Isso me lembrou uma questão levantada pela Marília Xavier Cury na sua disciplina “Comunicação e Expografia” no programa de pós graduação da USP Interunidades em Museologia: Porque as pessoas não vão as exposições?

Curso “Prática de exposições”

Algumas pessoas me perguntam sobre cursos de expografia. São poucos no Brasil e em geral eles são esporádicos.

Um que recebo comunicados com certa regularidade é o da EAV, no Rio de Janeiro. Este abaixo começa nesta quarta-feira, dia 19/02/2014.

Segue abaixo o texto recebido no informativo Sinal, da ESDI.

Inicia-se nesta quarta-feira, 19 de fevereiro, na EAV (Escola de Artes Visuais do Parque Lage), o curso “Prática de exposições”, com Luis Albert Zúñiga (form. Esdi 1970) e Cintia Kury Souto (form. Esdi 1975). O objetivo do programa é oferecer a estudantes e profissionais de áreas relacionadas às artes visuais a experiência do trabalho de projeto e montagem de exposições, por meio de apresentações, dinâmicas e atividades práticas utilizando diferentes materiais e ferramental, além de visitas comentadas. O curso, que segue até 25 de junho, acontecerá sempre às quartas-feiras, das 19h00 às 22h30. O custo é R$ 1640,00, pagos em quatro parcelas de R$ 410,00. No primeiro mês haverá taxa de material, de R$ 50,00. A EAV fica na Rua Jardim Botânico, 414 (Jardim Botânico). Mais informações pelos telefones (21) 3257-1800 e (21) 3988-2284 ou no site: www.eavparquelage.rj.gov.br.