A experiência do Inhotim: um deleite dos sentidos

Jardins do Inhotim vistos atráves do grande caleidoscópio.
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Passei alguns anos querendo conhecer este lugar, sobre o qual nunca ouvi nenhuma crítica negativa, muito pelo contrário: os comentários são sempre apaixonados.

Finalmente surgiu uma oportunidade de conhecê-lo, numa manhã ensolarada de um feriado. Como boa parte dos percursos do museu são a céu aberto, o fato de estar sol colaborou de maneira definitiva na experiência. Caso estivesse chovendo, a experiência certamente seria diferente. Diferente, não pior ou melhor.

O percurso de Belo Horizonte ao Inhotim é longo. Não tanto pela quilometragem, que é de menos de 70km, mas sim pela estreita, sinuosa e arborizada estrada. A ansiedade torna ainda cada quilômetro mais comprido.

Por outro lado, este percurso faz parte de um rito de passagem. O francês Jean Davallon cita inúmeras vezes a necessidade de um rito de passagem para a entrada em uma exposição. O visitante deve passar por uma transformação antes de imergir no universo expográfico e assim conseguir viver parte desta experiência. Pois bem, este longo percurso em um simpático e arborizado faz isso: um rito de passagem, onde o visitante vai, pouco a pouco, acostumando os seus olhos a uma nova realidade.

Chegando finalmente ao museu é possível perceber três das grandes marcas da experiência: organização, gentileza e facilidade. A sensação de acolhimento é imediata. Uma linda entrada arborizada, direcionada por gentilíssimos funcionários, mostra que você, visitante, entrou em um lugar que vai viver uma experiência realmente diferente.

Você então pega a sua pulseira na portaria e segue para o exuberante museu que, em grande parte, é a céu aberto. Com o mapa em mãos o visitante é informado sobre tudo que há e como chegar aos lugares.

O visitante segue o caminho buscando desvendar o lugar. Percebe-se então mais uma característica interessante do percurso: os pontos focais. Você então começa a ser atraído, continuamente, para a próxima obra, para o próximo pavilhão, etc. Se não tiver um mapa em mãos, ainda assim será “guiado” de uma obra para a outra, fazendo um percurso expográfico em que ela não se perde mas sim é constantemente estimulado a seguir em frente. Mesmo quando entra em uma mata fechada, as trilhas te conduzem até o próximo ponto focal.

Apesar de acreditar que está seguindo um caminho de acordo com a sua vontade e aleatório, acredite: você está sendo guiado. Isso faz parte do planejamento da exposição. Qualquer exposição bem feita é conduzida desta maneira. Você não precisa de guias, sinalização excessiva por todos os lados: os pontos focais simplesmente te conduzem à próxima informação.

A experiência de entrar e sair dos pavilhões também é única. Uma quebra acontece na entrada e saída de cada pavilhão, fazendo com que o visitante viva uma experiência sensorial que se alterna a cada movimento entre os pavilhões.

Esses movimentos de contração e expansão são muito importantes e interessantes para um visitante. Quando você entra no ambiente – em geral silencioso – é um movimento de contração, de absorção de informações. Quando sai, ocorre uma expansão, na qual é possível absorver as informações recebidas, processá-las, eventualmente descansar o corpo e a mente e ir para o próximo. Jean Davallon chama este movimento de jogo de retenções.

O apelo sensorial é, sem dúvida, uma das grandes características expográficas do Inhotim.

As obras de arte, arquitetura dos pavilhões, esculturas a céu aberto e o paisagismo de de Burle Marx fazem um interessante jogo visual. O visitante se sente estimulado a entrar em um pavilhão, apreende o seu conteúdo e, saindo deles, descansa o olhar em meio a natureza.

Qual a intenção disso?

Enquanto o visitante descansa os olhos, ele consegue também refletir, pensar sobre o que viu, fazer conexões, antes de chegar ao próximo ponto focal, que vai novamente trazer novos conhecimentos para o cérebro e possibilitar novas conexões. Ou seja, o espaço entre um ponto e outro permite ao visitante atingir o principal objetivo de um museu: levar a reflexão.

A mesma quebra ocorre também nos outros sentidos: a audição estimulada pela obras sonoras descansa ao som da mata. A dura sensação tatil do reto concreto dos edificíos, ou a frieza do metal das esculturas a céu aberto se contrapõe à irregularidade e ao calor dos trocos das árvores. O mesmo ocorre com as variações olfativas percebidas a cada entrada e saída.

E o paladar? Bom, ai é que o Inhotim mostra a sua característica de vender facilidades: o mapa já indica, mas o visitante certamente vai “tropeçar” em vários pontos de alimentação. Todos marcados pela elegância. Seja no restaurante da entrada onde é possível saborear longamente um buffet ou no ponto de hot-dog em que o visitante come rapidamente o seu lanche embaixo de uma frondosa árvore, o Inhotim oferece uma gama de opções para o visitante saborear aquilo que lhe convier. Sempre em um local agradável, pois a experiência do paladar também vem seguida de outras igualmente agradáveis e acolhedoras.

Para finalizar a questão da experiência resta fechar com a qualidade já citada no início: a facilidade. Um interessante recurso para facilitar a visita são os carrinhos de golf, que percorrem o parque levando os visitantes de um ponto ao outro. São pagos à parte, é claro. Mas trazem conforto, acolhimento, bem-estar.

É certo que toda essa estrutura tem um preço, pago parcialmente pelo visitante. O custo da visita é bastante alto, para padrões de museus brasileiros. Mas vale lembrar que nenhum museu no mundo se sustenta pela bilheteria.

Para finalizar, é importante lembrar que o foco desta análise discute a experiência do visitante e a forma como ele é conduzido e acolhido pelo museu. Discussões políticas, de relevância social ou até mesmo sobre arte serão feitas em outros artigos.

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