4 erros expográficos fatais que ofuscaram Caravaggio em BH

A exposição ”Carvaggio e seus seguidores” que inaugurou com recorde de público, infelizmente decepciona pela forma como a expografia desvaloriza as poucas obras deste grande mestre do Barroco.

Durante a visita ficou muito claro que há pouca experiência e vivência em exposições de quem idealizou o espaço, o que impacta diretamente na experiência da exposição (reflexo imediato da falta de qualidade da expografia) .

1. Percurso/Fluxo

Logo na entrada da sala você fica em dúvida se vai a esquerda, ler as explicações sobre a obra San Francesco in Meditazione ou se disputa um lugar na frente do painel de abertura da sala com as obras de Caravaggio.

O percurso se torna portanto, livre, e o visitante pode transitar e ver as obras na seqüência em que preferir.

O percurso livre de exposições não necessariamente é ruim, mas é mais difícil de ser trabalhado, pois devem ser criados pontos de atração muito interessantes, especialmente quando se trata de uma sequência cronológica. Então necessita mais vivência e conhecimento do museu em que se trabalha. Para uma exposição temporária, pode ser desastroso.

Optando por ler sobre San Francesco in Meditazione, você se depara com os seguintes painéis:

Imagem retirada do facebook da Casa Fiat, já que não é permitido aos visitantes fotografar a exposição.

Os textos – excessivamente longos – explicam a questão sobre as cópias existentes de uma mesma obra e todas as técnicas utilizadas para tentar perceber o que estava por baixo da obra final, descobrindo assim um possível “original”  e suas possíveis cópias.

O conteúdo do texto é bastante interessante, mas um pouco prolixo e desnecessariamente longos. Além disso, os painéis acumulados em um canto da sala, com textos sem fim faz com que o visitante interessado queira – ou pelo menos tente – parar por alguns minutos para lê-los.

Quando o visitante passa muito tempo em frente a um painel, acontece o óbvio – pelo menos para aqueles que tem alguma vivência em museus – os visitantes se acumulam no canto tentando ler o texto, o cansaço físico e visual bate e você, que estava interessado no conteúdo, desiste de ler, impedido também pelos esbarrões, pessoas que entram na frente e um sinal sonoro que insiste em tocar cada vez que uma pessoa avança além da faixa permitida.

São muitos estímulos para que você, visitante interessado, perca a concentração, mas a principal questão reside em que aqueles que contratam uma exposição, acreditarem que aquele profissional que trabalha apenas com arquitetura ou com design gráfico pode fazer uma exposição de forma competente. Leia “Como se forma um profissional de expografia” e entenda qual a complexidade da formação profissional exigida para esta área.

Jean Davallon, autor de “L’exposition à L’ouvre” e grande especialista em exposições, deixa bastante claro que uma exposição não é um livro. E tanto a diagramação quanto a imensa quantidade de textos dessa exposição mostram que os textos foram tratados como um livro a ser lido na parede.

Após as longas explicações sobre as obras você espera encontrar as obras, certo? Errado. Você lê o texto, atravessa a exposição – que não é tão grande – e observa as obras. Após observar a obra, você lembra de algo que leu no texto e tem uma dúvida, então volta e lê novamente. Nesse caso então, o percurso livre e muito mal projetado torna o fluxo de visitantes caótico.

Duas das obras referenciadas no texto sobre as cópias estão na exposição. Você espera, depois de tantas e tão longas explicações, poder compará-las para ver se realmente elas são idênticas. Por alguma razão desconhecida elas estão em paredes opostas, o que impossibilita essa comparação da maneira que se gostaria. Porque elas não estão lado a lado?

Você então, junto com os outros visitantes, vai de uma a outra tentando buscar semelhanças e diferenças. O fluxo da exposição é perturbado ainda mais, aumentando o caos desta pequena exposição, com um grande fluxo de pessoas atraídas por uma propaganda massiva que se interessa pelo tema. Uma pequena exposição, para grande público, sem projeto de percurso transforma os visitantes em peregrinos desorientados, sem mapa, em busca de uma catedral.

Se você ainda não compreendeu a razão pela qual deve pensar o fluxo de uma exposição antes de projetá-la, conheça o nosso artigo a esse respeito

2. Iluminação

A dramaticidade da iluminação das salas parecem remeter a própria obra de Caravaggio, que iluminava pontos focais das cenas considerados relevantes para a sua narrativa.

Porém, ao contrario do grande mestre Barroco, a exposição tenta iluminar o mais importante, mas sofre com problemas como o ofuscamento.

No painel de entrada da sala a luz focada nos textos dificulta ou impossibilita a leitura graças a esse fenômeno do ofuscamento. Erro básico, sem dúvida, mas encontrado até em um dos mais recentes – e polêmicos – museus de Paris, o Musée du Quai Branly. Diante de tanto brilho refletido na parede, o visitante tenta ir de um lado para o outro para conseguir ler tudo, fugindo do foco de luz incidente no meio do texto. E, como citado no item anterior, o percurso, já caótico, é ainda mais atrapalhado por pessoas em zig-zag na frente de um texto de abertura.

O mesmo acontece com as legendas das obras e, por incrível que pareça, em algumas obras. Focos de luz brilham em pontos de San Francesco e interferem significativamente na percepção da obra de arte.

Imagem retirada do facebook da Casa Fiat, já que não é permitido aos visitantes fotografar a exposição.

Por outro lado, a luz em volta da Medusa chama a atenção para aquele ponto focal no fundo da exposição. Chegando lá, além da iluminação, a caixa de vidro que protege o quadro parece mostrar que estamos diante de uma jóia. A obra do mestre encanta, sem intervenções luminosas, e se valoriza.

3. Intervenções sonoras

Como dito então em muitos momentos, devido a luz projetada nas obras e nas legendas, não é possível ler as legendas de tais obras. E quem se aproximar da legenda para tentar ler mais de perto no escuro espaço, ouvi um agudo: piiiiiiiii! Soa um alarme altissimo, com um segurança ao lado pronto a dar uma bronca: para trás da faixa! (Sirrr, yesss sir!)

Fui numa sexta feira, emenda de feriado para muitos. Sem fila, ao contrario do que é visto na reportagem acima. Sem multidões. Não tinha mais de 30 ou 40 pessoas na sala. O alarme tocava a cada 2 ou 3 minutos. Depois de alguns instantes os visitantes se cansam, se irritam e saem.

Ainda segundo a reportagem esta foi uma exigëncia dos museus para trazer as obras para o perigisissimo país em que vivemos. Até onde me consta, existem alarmes que tocam se alguém mexer na obra ou tirá-la da parede. Considerando que são apenas 20 obras no total, seria muito complexo não transformar a visita num terror sonoro e garantir a segurança das obras?

O visitante não pode fotografar, não pode se aproximar, não pode usar o celular e ah, não pode fazer anotações também. Vejam o relato do visitante maltratado em: 

“Além da beleza inconteste das obras de Caravaggio e seus seguidores, o que mais chamou a atenção na exposição em cartaz na Casa Fiat de Cultura de Belo Horizonte (MG) foi a arbitrariedade da segurança do local. Ao tentar fazer anotações a respeito das telas com papel e caneta, como um espectador comum, sem as vantagens e os mascaramentos geralmente oferecidos à imprensa nesse tipo de evento, o autor dessa resenha foi impelido abruptamente e sem qualquer tipo de respeito por um segurança como se estivesse cometendo algum crime. Cita-se esse caso como exemplo do excesso de zelo e a total inabilidade de muitos museus brasileiros com relação aos visitantes, o que confirma a eterna sensação de que eles geralmente não são bem vindos nesse tipo de ambiente.” (Rede Brasil Atual)

Isso mostra apenas como a falta de experiência em exposições pensou apenas no impacto na mídia e nas filas na porta e não no público geral. Fazer com que o visitante seja bem vindo e se sinta confortável e acolhido no museu é obrigação dos criadores da exposição. A responsabilidade por treinar e orientar os seguranças ou demais funcionários portanto também é deles. Veja o exemplo do Inhotim, fruto de outra crítica deste blog e como o visitante pode se sentir acolhido se os seus funcionários são orientados e treinados de maneira adequada.

4. Acessibilidade

Laura Martins, do blog Cadeira Voadora, define alguns pontos importantes sobre a acessibilidade da exposição:

  • mesmo a exposição sendo acessível, o acesso a ela pela rua é bastante difícil envolvendo ladeiras, risco de queda e quantidade de estacionamento restrita.
  • o transporte gratuito oferecido não atende a cadeirantes.
  • o banheiro acessível não tranca, o que causa constrangimentos.
  • as rampas são muito íngremes e o elevador é pequeno.

Esse importante depoimento nos mostra que, mesmo existindo uma regulamentação para deficientes, ela nem sempre funciona e, principalmente, que o acesso para a chegada das exposições também deve ser considerado na produção de uma exposição acessível.

Por fim, Caravaggio é um artista que tem seu brilho próprio. Porém essa exposição nos mostra como um projeto expográfico mal conduzido pode ofuscar até mesmo um dos grandes mestres do Barroco, fazendo com que você, visitante interessado e curioso, acabe se desinteressando pelo conteúdo graças as dificuldades impostas pela forma da exposição.

Medusa, de Caravaggio. Foto: Carole Raddato.

___

Curta Crítica Expográfica também em:

Instagram: @criticaexpografica |  facebook.com/criticaexpografica

___

7 comentários sobre “4 erros expográficos fatais que ofuscaram Caravaggio em BH

  1. A-do-rei seu blog! Nunca havia ouvido falar em expografia, e estou feliz por ter descoberto essa área de conhecimento.

    Cheguei até aqui porque o Google Analytics registrou seu endereço, pois alguém linkou meu blog (A Cadeira Voadora) através do seu.

    Foi então que vi este post, que indica um texto no meu blog sobre a exposição de Caravaggio na Casa Fiat.

    Não entendo nada de museus — não é a minha área. Mas vou a todos que posso, em todas as cidades que visito, porque amo arte, história, cultura. Por isso, devo dizer que me senti gratificada ao ler sua crítica. E concordo com TODAS as considerações sobre a exposição na Casa Fiat.

    Foi gratificante travar contato com as obras de Caravaggio, mas a exposição me frustrou por todos os aspectos que vc apontou. Sobretudo, saí de lá irritadíssima com o constante soar do alarme.

    Dias depois, entrei em contato com a Casa Fiat através do mural da instituição no Facebook e registrei o desconforto que o alarme havia me causado. O responsável pelo mural me informou o que eu já sabia: o alarme era necessário para evitar que as pessoas se aproximassem muito das obras. Respondi que compreendia, mas que outra solução poderia ser encontrada. Acrescentei que estava acostumada a frequentar museus, dentro e fora do país, e nunca havia presenciado um inferno como este. Ainda disse que, para mim, um museu era um templo sagrado e que o barulho prejudicava a interação com as obras.

    Qual não foi a minha surpresa e a minha decepção ao receber a resposta… A distinta pessoa então me disse que, infelizmente, eu havia visitado a exposição em um horário com muito público. Que eu voltasse em um outro momento, com menos pessoas, para usufruir melhor.

    Não, a exposição não estava cheia… Imagine se estivesse!

    Sabe o que aconteceu? Fiquei me achando uma suburbana que não entende nada de planejamento de eventos e exposições.

    Agora, vc pode ter noção de como me senti aliviada ao ler sua crítica.

    Vou divulgar seu blog com muita alegria, porque achei seu material realmente relevante. Tomara que continue!

    Grande abraço!

    Laura Martins
    http://cadeiravoadora.blogspot.com.br
    acordodepaz@gmail.com

    1. Laura, muito obrigada pelo comentário!

      Sim, esta questão do alarme é completamente inusitada e considero um desrespeito com os visitantes de uma exposição. Acredito que seja um ultraje com todos os brasileiros. Fui recentemente a uma exposição (lotadaaaaaa) de Salvador Dali no Pompidou e, em algumas obras, vi as pessoas se aproximando bastante e quase encostando o nariz na obra e ninguem falou NADA. O segurança se aproxima, observa e espera. Se você tocar na obra, ele te repreende. Se não, olhe a vontade, veja de perto o relevo da obra, sem problemas. Apenas não toque. Conhecendo os franceses, haveria uma manifestação contra o tal alarme se alguém ousasse insultá-los com tal alarme.

      Abraços,

      Renata

      ps: dei uma pequena pausa no final do ano para as férias mas vou continuá-lo, sem dúvida!

  2. Cara Renata, trabalho com montagens de exposições a mais de 12 anos, em estou muito interessado em estar continuamento discutindo este tema, já que me proponho a fazer críticas de montagens expográficas. Atualmenet estou montando meu projeto de mestrado sobre este tema, e quero manter contato aqui com seu blog. atenciosamente Jeff Keese arquiteto.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s