A primeira crítica: Museu do Futebol

A primeira crítica não poderia ser sobre outro espaço que não o Museu do Futebol dado que foi um dos principais objetos de pesquisa da autora deste blog na sua dissertação de mestrado: “Expografia contemporânea no Brasil: a sedução das exposições cenográficas”.

Inaugurado em 2008, o Museu do Futebol que segue um padrão internacional de exposições blockbusters, que em geral contam com uma equipe de produtores de exposições e cenografia renomados e, no caso do Brasil, em geral é financiado parcialmente pela fundação Roberto Marinho.

Só no Brasil, há pelo menos dois grandes museus recentes que seguem a mesma narrativa: o Museu do Amanhã e o Museu da Língua Portuguesa.

Infelizmente este museu de um dos temas que mais apaixona os brasileiros decepciona quando tentamos nos aprofundar nos conteúdos.

A exposição de longa duração é dividida em três eixos: história, emoção e diversão. Porém parece prezar essencialmente pelos últimos dois, emocionando e divertindo o seu público.

Sala Exaltação. Foto: Luciano Mattos Bogado

Você pode então questionar esta autora: mas um museu não pode divertir? Pode, é claro. Mas se limitar ao entretenimento é oferecer pão e circo a semelhança dos romanos: desviando a atenção do povo para o seu direito a educação e ao questionamento. Uma sociedade desacostumada a refletir e a questionar, aceita com muito mais facilidade as imposições que lhe são feitas por seus governantes. 

Você pode então argumentar: ah, mas tem muito conteúdo histórico no museu! Fato. Não há dúvidas de que existe conteúdo histórico em excesso na sua exposição de longa duração. E essa é uma outra estratégia interessante dos museus recentes. Oferecer informações em excesso. E neste excesso o visitante se perde, o individual se torna abstrato e é desvalorizado em função do coletivo.

Alguns exemplos bastante significativos são vistos neste museu, em especial na seqüência de salas do eixo história: Origens, Heróis e Sala das Copas. 

Sala Origens. Foto: Luciano Mattos Bogado
Sala Heróis. Foto: Luciano Mattos Bogado
Sala das Copas. Foto: Juan Guerra

Em todas elas se desvia o foco do individual para o coletivo. Se reforça o lugar comum do povo brasileiro como um povo mestiço e que a riqueza do povo viria desta mestiçagem, ignorando todas as questões raciais nada poéticas que enfrentamos no século XXI.

Ignora-se as derrotas como fruto do fortalecimento individual e coletivo. Todo o negativo é apagado e o visitante tem o seu senso crítico e argumentativo.

No artigo “A imagem como substituto do patrimônio material: a fotografia como desvalorização do objeto”, apresentado no “5º seminário internacional museografia e arquitetura de museus: fotografia e memória”, descrevo mais detalhadamente, sala a sala, como essas estratégias se desenvolvem. 

Outra questão relevante se deve à denominação museu. Se esse espaço tivesse chamado de Centro Cultural do Futebol ou ainda “Futebol Experience” (fazendo uma analogia direta ao CampNou Experience que conta a história do time do Barcelona) ele teria uma responsabilidade menor.

Já um museu, em sua denominação original e plena, tem a responsabilidade de ser um centro de pesquisa que exibe em suas exposições os resultados desta pesquisa. O Museu do Futebol, neste sentido, foi feito do avesso: primeiro se criou a exposição e depois das portas abertas e o museu em funcionamento, se começou a produzir um  plano museológico. Como diz uma funcionária do próprio museu: “Tivemos que trocar as rodas com o carro andando”.

No artigo deste blog:  “Museus: para que e para quem?” é feita uma descrição detalhada de como o Conselho Internacional de Museus (ICOM) define como museu. 

Os questionamentos finais então deixo para você, o meu leitor refletir tentar responder:

  • Vale a pena gastar aproximadamente 40 milhões de reais para emocionar o público?
  • Eu acredito que a exposição tenha valido quando você sai do museu com vontade de conhecer mais sobre o assunto, de saber mais. E você? Concorda com isso? Se não, qual a razão de ser de um museu?
  • A questão racial no Brasil, tão presente no futebol, pode ser deixada de lado em virtude de um espetáculo? Ou no futebol não devemos pensar nisso?
  • Seria mais um museu em que os apagamentos históricos são evitados para não “incomodar” o público? Mas não são justamente esses “incômodos” que trazem transformações sociais importantes? E não é o museu um ligar-se educação não formal que tem a liberdade de trazer isso a tona?

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@criticaexpografica

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Desvallées

André Desvallées tem um capítulo dentro do livro Manuel de muséographie: petit guide à l’usage des responsables de musée (Manual de museografia: pequeno guia para uso dos responsáveis pelo museu), que define de maneira muito competente certos termos referente ao universo dos museus, entre eles: Expografia, Expologia, Museografia e Museologia.

Eu só conheço a versão em francês deste livro, mas talvez haja alguma tradução para o inglês ou espanhol. Se alguém conhecer, me avise que eu posto aqui!

Da versão em francês, segue a referência bibliográfica completa:

DESVALLÉES, Andre. Cent quarante termes muséologiques ou petit glossaire de l’exposition. In: BARY, Marie-Odile; TOMBELEM, Jean-Michel (Dir.). Manuel de muséographie: petit guide à l’usage des responsables de musée. Haute-Loire: Séguier, 1998.

O que é expografia?

Segundo André Desvallées, no livro Manuel de Muséographie, a expografia “visa a pesquisa de uma linguagem e de uma expressão fiel para traduzir o programa científico de uma exposição”. (DESVALLÉES, 1998, p. 221, tradução nossa)

É por meio dos elementos expográficos que os criadores do conteúdo da exposição – curadores, museólogos, artistas, empresas, entre outros – se comunicam com o seu público. A expografia é então uma importante ferramenta de comunicação do museu, estabelecendo um diálogo entre o acervo (material ou imaterial) e o visitante.

É por intermédio dela que é construída uma narrativa em torno de cada tema, sendo objeto de cultura, informação, educação ou deleite dos visitantes. Assim, o profissional responsável pela expografia vai buscar relações formais para expressar o conteúdo proposto pela curadoria.

Ou seja, se o curador está falando de determinado assunto, o profissional responsável pela expografia deve buscar a melhor maneira de traduzir os conceitos deste assunto. Isso pode ser expressado de várias maneiras, das quais cabe destacar algumas:

Pelo ambiente criado em uma exposição. O ambiente envolve principalmente o percurso do visitante e a sequência na qual ele vai receber as informações, até as reconstituições de espaços históricos. Em geral o espaço para construção de uma mostra é pré-definido e devemos construir uma narrativa dentro deste ambiente.

Exposições que emocionam: a coragem do pink no outubro rosa. No jardim da Casa das Rosas: de 1 a 20 de outubro de 2019. Design gráfico e produção executiva: Renata Figueiredo design gráfico + expografia. Design gráfico e produção executiva da exposição: “Renata Figueiredo design gráfico + expografia”.
O percurso desta exposição era relativamente livre, pois existem dois pergolados na Casa das rosas.. As pessoas poderiam iniciar o percurso em 3 pontos diferentes. No início, meio ou final da exposição. Neste caso teve que se pensar a sequencia lógica de exposição em função desses diferentes percursos, de maneira a não perder a lógica da narrativa. Design gráfico e produção executiva da exposição: “Renata Figueiredo design gráfico + expografia”.

Pelas cores das paredes e dispositivos. Cada cor deve traduzir as emoções e os conceitos imaginados pela curadoria. Durante a criação das exposições, os criadores do conteúdo expositivo sempre dão pistas do que ele desejam transmitir.

Pela tipografia. Aqui é importante ressaltar que a tipografia não é apenas o tipo de letra escolhida, mas sim o arranjo gráfico dos textos, sua legibilidade em diversos níveis, desde a letra escolhida até os seu contraste com o fundo, tipo de dispositivo em que se localiza, entre outros. Por isso muitas vezes se fala em “escrita da exposição”.

Pela proporção entre os elementos. A forma como o visitante se sente na exposição depende da proporção dos elementos e da forma como eles são dispostos. Uma exposição pode ser extremamente sufocante em que o visitante se sente minúsculo entre displays enormes e, pode ser essa a intenção da curadoria, dependendo do tema.

Pela cenografia e iluminação da exposição. Muitas vezes a necessária imersão na exposição – separação entre o mundo exterior e interior do espaço expositivo – se dá através da concepção de um verdadeiro cenário em que o ator/visitante é o protagonista principal da exposição. Através dos elementos acima, aliado a luz e a dramaticidade na representação do tema, a cenografia se destaca nas exposições do século XXI.

Expografia e ambientação de exposição no Instituto Tomie Ohtake em 2017. A imersão no ambiente se deu através da da baixa luminosidade e da criação de um ambiente mágico e acolhedor. Foto do acervo: Renata Figueiredo design gráfico + expografia.

Pelos materiais utilizados na construção da exposição: eles também são responsáveis por trazer leveza ou peso para uma exposição e devem estar alinhados com a proposta temática da curadoria.

Portanto, todos os elementos colocados dentro do espaço expositivo devem ser idealizado de forma a traduzir os conceitos da curadoria, desde o elemento mais básico, como a escolha das cores utilizadas até os displays que dão suporte aos textos ou a objetos.

Por fim, é importante ressaltar que a expografia não ocorre somente nos espaços de museus, mas abrange todos os espaços de exposição, públicos ou privados, comerciais ou culturais.

Quem escreve o crítica expográfica?

Meu nome é Renata Figueiredo Lanz e sou a principal produtora de conteúdo para o blog Crítica Expográfica. Sou formada em arquitetura e urbanismo pela FAU-USP e fiz mestrado na mesma faculdade, com o tema relacionado à expografia, no qual eu estudava o design de diversas exposições pelo mundo. A principal exposição que analisei no meu mestrado foi a de longa duração do Museu do Futebol. Essa dissertação está disponível na linha do tempo do site da minha empresa desde agosto de 2020.

Sou também uma visitante assídua de exposições por todo mundo. Onde quer que eu vá, sempre encontro um museu ou uma exposição para visitar. Fanática por exposições até a raiz do cabelo, olho para tudo: não só o conteúdo, mas como ele é mostrado, enobrecido ou  depreciado e ainda quais as evidências de um conhecimento em cada display.

O mais interessante para mim é buscar quais as peripécias feitas pela curadoria para “encobrir” a falta de conteúdo crítico em uma exposição que, ao contrário do que deveria ser o propósito de um museu, não visa a reflexão, mas prima pelo simples entretenimento do público. Em geral para isso se cria uma exposição tão pirotécnica que as pessoas adoram, postam fotos e divulgam este “evento”, porém entram e saem sem conhecer quase nada sobre o assunto. 

Então na tentativa de passar um pouco dessa minha experiência para aqueles que, como eu, adoram museus e exposições, criei este blog. Divirta-se, aprenda, discuta, interaja. Aguardo sua colaboração para enriquecer ainda mais as reflexões e críticas.

 


Este conteúdo foi escrito por Renata Figueiredo Lanz que, além de produtora de conteúdo no blog crítica expográfica é diretora de criação da Renata Figueiredo | design gráfico + expografia . Para entrar diretamete em contato com a autora, envie um e-mail para contato@refigueiredo.com.br