O que é expografia?

Segundo André Desvallées, no livro Manuel de Muséographie, a expografia “visa a pesquisa de uma linguagem e de uma expressão fiel para traduzir o programa científico de uma exposição”. (DESVALLÉES, 1998, p. 221, tradução nossa)

É por meio dos elementos expográficos que os criadores do conteúdo da exposição – curadores, museólogos, artistas, empresas, entre outros – se comunicam com o seu público. A expografia é então uma importante ferramenta de comunicação do museu, estabelecendo um diálogo entre o acervo (material ou imaterial) e o visitante.

É por intermédio dela que é construída uma narrativa em torno de cada tema, sendo objeto de cultura, informação, educação ou deleite dos visitantes. Assim, o profissional responsável pela expografia vai buscar relações formais para expressar o conteúdo proposto pela curadoria.

Ou seja, se o curador está falando de determinado assunto, o profissional responsável pela expografia deve buscar a melhor maneira de traduzir os conceitos deste assunto. Isso pode ser expressado de várias maneiras, das quais cabe destacar algumas:

Pelo ambiente criado em uma exposição. O ambiente envolve principalmente o percurso do visitante e a sequência na qual ele vai receber as informações, até as reconstituições de espaços históricos. Em geral o espaço para construção de uma mostra é pré-definido e devemos construir uma narrativa dentro deste ambiente.

Exposições que emocionam: a coragem do pink no outubro rosa. No jardim da Casa das Rosas: de 1 a 20 de outubro de 2019. Design gráfico e produção executiva: Renata Figueiredo design gráfico + expografia. Design gráfico e produção executiva da exposição: “Renata Figueiredo design gráfico + expografia”.
O percurso desta exposição era relativamente livre, pois existem dois pergolados na Casa das rosas.. As pessoas poderiam iniciar o percurso em 3 pontos diferentes. No início, meio ou final da exposição. Neste caso teve que se pensar a sequencia lógica de exposição em função desses diferentes percursos, de maneira a não perder a lógica da narrativa. Design gráfico e produção executiva da exposição: “Renata Figueiredo design gráfico + expografia”.

Pelas cores das paredes e dispositivos. Cada cor deve traduzir as emoções e os conceitos imaginados pela curadoria. Durante a criação das exposições, os criadores do conteúdo expositivo sempre dão pistas do que ele desejam transmitir.

Pela tipografia. Aqui é importante ressaltar que a tipografia não é apenas o tipo de letra escolhida, mas sim o arranjo gráfico dos textos, sua legibilidade em diversos níveis, desde a letra escolhida até os seu contraste com o fundo, tipo de dispositivo em que se localiza, entre outros. Por isso muitas vezes se fala em “escrita da exposição”.

Pela proporção entre os elementos. A forma como o visitante se sente na exposição depende da proporção dos elementos e da forma como eles são dispostos. Uma exposição pode ser extremamente sufocante em que o visitante se sente minúsculo entre displays enormes e, pode ser essa a intenção da curadoria, dependendo do tema.

Pela cenografia e iluminação da exposição. Muitas vezes a necessária imersão na exposição – separação entre o mundo exterior e interior do espaço expositivo – se dá através da concepção de um verdadeiro cenário em que o ator/visitante é o protagonista principal da exposição. Através dos elementos acima, aliado a luz e a dramaticidade na representação do tema, a cenografia se destaca nas exposições do século XXI.

Expografia e ambientação de exposição no Instituto Tomie Ohtake em 2017. A imersão no ambiente se deu através da da baixa luminosidade e da criação de um ambiente mágico e acolhedor. Foto do acervo: Renata Figueiredo design gráfico + expografia.

Pelos materiais utilizados na construção da exposição: eles também são responsáveis por trazer leveza ou peso para uma exposição e devem estar alinhados com a proposta temática da curadoria.

Portanto, todos os elementos colocados dentro do espaço expositivo devem ser idealizado de forma a traduzir os conceitos da curadoria, desde o elemento mais básico, como a escolha das cores utilizadas até os displays que dão suporte aos textos ou a objetos.

Por fim, é importante ressaltar que a expografia não ocorre somente nos espaços de museus, mas abrange todos os espaços de exposição, públicos ou privados, comerciais ou culturais.

5 razões porque você deve ser contra a destruição das estátuas de carrascos racistas

O terrível assassinato de George Floyd deu início a uma onda de protestos que culminou na destruição na Europa e Estados Unidos de algumas estátuas de personagens ligados ao tráfico de escravos negros. Porém esse aniquilamento de um símbolo, pode ser muito mais problemático a longo prazo do que preservar-lo. As implicações são inúmeras, mas são citadas aqui apenas 5 para que você reflita antes de apoiar e repetir no Brasil esse aniquilamento da memória.

  1. Derrubar uma a estátua não afasta o problema

O fato de destruir um o patrimônio funciona muito bem na mídia como um símbolo de uma revolta. Os protestos são válidos e devem acontecer. Mas destruir o patrimônio está longe de eliminar o problema racial e o seu efeito a médio e longo prazo é muito pior do que preservá-los por inúmeras razões, dentro das quais discutiremos somente cinco aqui neste artigo.

É natural que todos nós queiramos destruir aquilo que nos incomoda. Mas a verdade é que precisamos ser incomodados. Somente esse incômodo nos leva a transformação. É a presença do problema que nos traz a transformação e não a ausência dele no fundo de um rio.

O patrimônio nos serve portanto para a reflexão e com o objetivo de gerar esse incômodo para trazer à tona as questões que desejamos esquecer mas precisam estar presentes nas nossas vidas. É apenas trazendo o problema à luz que vamos mudar a sociedade e a sua forma de agir e não derrubando um símbolo de opressão.

2. Os apagamentos históricos e seus efeitos

Fonte: Cottonbro/Pexels

Retirando um símbolo de uma praça pública ou de um museu, se deseja apagar aquele episódio ou aquela pessoa da história.

Porém, esse ato além de não apagar o problema, “joga a sujeira para debaixo do tapete”, como se ele não tivesse existido e, pior, se a sociedade não tem consciência de que certa atrocidade existiu, a possibilidade de que os erros se repitam é enorme. Imagine como seria se deletassem Hitler da história?

O registro histórico torna a barbárie presente a qualquer tempo e a preservação da memória nos faz não querer repeti-lo.

Ao invés de destruir o monumento feito originalmente para homenagear um carrasco racista, seria muito mais interessante construir mecanismos de mediação que exponham o problema e mostrem que historicamente ele não é um líder e nem um exemplo a ser seguido. 

3. Efemeridade x materialidade

Alguns grupos defendem que a destruição trouxe a tona as questões pois as fotos foram amplamente divulgadas nas redes sociais e isso se tornou viral. Porém, qual o efeito do seu post no instagram nos próximos 50 anos?

Uma peça de museu é um objeto de estudo e reflexão contínuos, que são  revistos, ressignificados e estudados à luz de novas descobertas ou concepções sociais.

Acreditar que a repercussão nas redes pela força das imagens tem efeitos a médio e longo prazo na história chega a ser ingênuo. Não podemos estudar a memória e a história apoiados em bolhas de sabão.  

4. Revendo a história: o negro como vítima x negro atuante

Fonte: Clay Banks/Unsplash

Na história do Brasil e do mundo o negro é visto como vítima, sem protagonismo ou capacidade de ser agente social.

Desde o ensino básico fomos levados a imaginar que o negro seria mais fácil de ser escravizado que o índio e uma série de lugares-comuns  de uma história superficial que era ensinada nas escolas.

Se você ainda não concorda, então responda: qual costuma ser o grande símbolo da escravidão na maioria dos museus brasileiros? A algema, a corrente e a chibata.

Artigos, teses e mestrados mostram que o escravo negro foi muito mais do que isso e que considerá-lo como ser passivo sem protagonismo histórico é um grande erro.

Especialmente nas cidades, existiam categorias de escravos que eram importantes agentes sociais, participantes, atuantes e relevantes para a sociedade. Essa nova visão que, apesar de não deixar de lado as questões cruéis da escravidão, exalta a figura do negro forte, resistente e atuante em uma sociedade colonial, o coloca o negro na posição de protagonista e não somente de vitima, traz força e auto-estima para os afro-descendentes. Nesse sentido, derrubar estátuas de agressores, continua a enfraquecer a presença do negro no cenário nacional e mundial.  

Por todas essas questões, é muito mais proveitoso para a sociedade a longo prazo re-significar um símbolo ao invés de destruí-lo.

5. Exija dos museus o protagonismo na história, não a destruição de monumentos

Museus são espaços de reflexão, discussão e inquietação. Museus milionários tem sido construídos no Brasil e se transformado em espaços de apagamento.

Dois museus em especial, que são frutos de críticas aqui no blog, o Museu do Futebol e o Museu de Congonhas, tem a questão racial como grande incômodo a ser evitado.

O primeiro exalta o brasileiro como um miscigenado criativo. Esse lugar comum da criatividade advinda da mistura de raças ignora todas as questões advindas do futebol. Em depoimento recente um grande técnico ainda reforça que xingamentos no futebol para os negros não tem importância. Onde está esse espaço de questionamento dentro da exposição de longa duração do museu? Veja a crítica completa aqui no blog.

Já o Museu de Congonhas, que foi criado em um dos grandes centros da escravidão do Brasil para homenagear o Barroco Brasileiro e por consequência Aleijadinho, se esquece da questão racial. Este artista, grande protagonista do Barroco era um filho de português com a sua escrava. Foi alforriado pelo pai. A história dele, que começa assim, foi minimizada em virtude do grande gênio que se tornou. E quais outros tantos apagamentos temos por trás dessa história?

Enquanto os museus brasileiros forem encarados como espaços de entretenimento e lazer, feitos para serem fotografados e viralizados nas redes sociais sofreremos com esses apagamentos que se perpetuam na educação não formal e durante gerações acreditamos na história que nos é contada.

Ao invés de destruir esculturas, exija a presença desses conflitos nos espaços de reflexão.

Portanto está na hora de entendermos a gravidade das consequências do dinheiro público ser utilizado para a construção de parques temáticos e não de museus, na acepção original do termo.

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#5 Qual é a necessidade da arte? Qual o papel dos museus pós pandemia?

Durante o período de pandemia a nossa maior companhia tem sido a arte e a cultura, mas qual é o lugar da arte e do museus na nossas vidas?

Na palestra para o #PinaLive, promovido pela Pinacoteca do estado de São Paulo Mario Sergio Cortella fala sobre o papel dos museus e da cultura na retomada pós pandemia.

O filósofo inicia a palestra citando o livro de Ernest Fischer, no seu livro “A necessidade da Arte”,  e então questiona: qual é a necessidade da arte?

Cortella nos explica a perspectiva de perenidade da nossa existência transmitida pela arte, em contraponto à utilidade dos objetos do cotidiano.

Mesmo que a experiência de estar frente a frente a obra de arte seja insubstituível, a arte ameniza a sensação de estar confinado em casa durante a pandemia.

Diz ainda que a capacidade de criar e de inventar é inerente ao ser humano. E a capacidade de contemplar as obras artísticas também nos pertence.

Mas a arte –manifestada através da arquitetura, escultura, pintura, música, poesia, dança e cinema – é dotada de um imenso valor para o ser humano: a arte é capaz de cessar a dor.

Ao fim da pandemia, poderemos nos deparar com a maior força da inventividade humana e nos emocionar.

No momento, o que temos é a possibilidade de apreciá-la virtualmente, de forma a cessar a dor do aprisionamento.

Veja abaixo o vídeo completo da palestra do Professor Cortella.

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#4 Museus e conteúdo gratuito: Leonardo da Vinci

Muitas instituições estão liberando conteúdos gratuitos durante a quarentena. Segue aqui uma seleção dos melhores.

Como já postado em um artigo aqui, o Renascimento foi o grande momento da história após a pandemia em que a peste negra assolou o século XIV.

Em homenagem a este período, aos 501 anos de Leonardo Da Vinci comemorados em 2 de maio, e na esperança de que venham também tempos tão brilhantes, foi feita uma seleção de material gratuito sobre o artista, emgenheiro, arquiteto, gênio, etc.

1. Hoje tem uma Live do MIS Experience sobre os últimos anos do artista, passados na França. Normalmente as Lives ficam disponíveis por 24 horas no Instagram. Entre em @misexperience

2. Livros gratuitos

• Vida de Leonardo da Vinci, de Giorgio Vasari

Três livros incríveis disponibilizados pelo MET (Metropolitan Museum) gratuitamente:

Leonardo da Vinci: Anatomical Drawings from the Royal Library, Windsor Castle

Leonardo da Vinci: Master Draftsman

Strange Musical Instruments in the Madrid Notebooks of Leonardo da Vinci”: Metropolitan Museum Journal, v. 2 (1969)

3. Artigo que esclarece a rixa entre Leonardo da Vinci e Michelangelo

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#3 Museus, exposições e arte: 8 cursos gratuitos

Fizemos uma seleção de 8 cursos sobre museus, exposições e arte oferecidos gratuitamente durante a quarentena.

EXPOGRAFIA

O Curso “Para fazer uma exposição” faz parte do programa Saber Museu do Ibram (Instituto Brasileiro de museus). Disponível apenas no formato podcast no momento. disponível em 4 módulos:

  1. O que é uma exposição
  2. Pensando a exposição
  3. Planejando a exposição
  4. Executando a exposição

MUSEUS

O Curso museus e patrimônio, da UFRGS, trata de uma ampla gama de assuntos que envolvem o museu.

• Módulo I: definições teóricas de museu, histórico e políticas.
• Módulo II: planejamento e gestão estratégica, sustentabilidade e inovação em museus e leis de financiamento da cultura.
• Módulo III: relações entre museus e economia, sobre a administração de museus como empresas e também sobre modelos de negócios e economia digital.
• Módulo IV: Marketing social, posicionamento estratégico, ferramentas de comunicação e estratégias de internacionalização para museus e patrimônio.
• Módulo V: utilização de tecnologias nos museus, a inovação tecnológica e formatos de acesso virtual.

ARTE

A Casa do Saber está com acesso liberado até 30/04/2020, inicialmente. Quatro cursos sobre arte bastante interessantes, vale fazer o cadastro e entrar nos links abaixo.

  1. Caravaggio
  2. Leonardo da Vinci
  3. Introdução a história da arte
  4. Arte contemporânea nos dias de hoje

O MoMa possui diversos cursos bastante interessantes e gratuitos, dos quais se destacam:

  1. What is Contemporary Art?
  2. Art & Activity: Interactive Strategies for Engaging with Art

MAIS CURSOS, PALESTRAS E LIVES.: toda semana publicamos nos stories do nosso Instagram @criticaexpografica os mais interessantes de cada semana.

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#2 Museus e exposições: 7 experiências virtuais

Que tal aproveitar a semana para conhecer as diferentes tipologias de experiências virtuais expográficas? Conheça 7 experiências bem diferentes de visitas virtuais a museus e exposições.

  1. INSTITUTO TOMIE OHTAKE – Visita guiada por Mariana Palma na exposição LUMINA

A própria artista apresenta a exposição e a proposta expográfica, caminhando pela exposição.

É possível entender a espacialidade do museu, compreender a proposta expográfica e interpretar as obras através do olhar da artista. É feito um recorte pela artista e o foco em obras  é claro. O visitante definitivamente não se perde na exposição, como acontece em outras experiências abaixo descritas.

Porém parece faltar um diálogo com o curador da exposição, o que enriqueceria a conceituação do espaço e das obras.

A artista Louise de Borgeois diria que “Uma obra de arte não precisa ser explicada. Se você não sente nada, não posso explicar. Se isso não te tocar, eu falhei”. Essa visão certamente é compartilhada por inúmeros artistas, curadores, entre outros. Mas em tempos de isolamento e experiências museológicas exclusivamente virtuais, será que este mesmo raciocicío se aplica?

2. CCBB do Rio – visita mediada pelo curador Hélio Márcio Dias Ferreira da Exposição Ivan Serpa

A seleção de obras apresentada pelo curador intercala a apresentação do artista, da sua forma de trabalho, da técnica e história. Percorrendo a exposição Hélio Ferreira mostra as obras segundo um recorte próprio, como não poderia deixar de ser.

Muito interessante poder ver esses raros momentos em que o curador pode falar com um grande público, confinado e tendo como único meio visitar exposições mediadas ou filmadas.

O curador nos contamina com sua paixão pela obra e pelo artista. Porém a apresentação é um pouco longa e o animado curador, um pouco prolixo, se considerarmos o tipo de mídia em que a exposição é apresentada.

Ivan Serpa no CCBB do Rio de Janeiro

3. BANSKY EM CASA

Bansky no seu banheiro: O contraditório e divertido Banksy resolveu criar (e expor) em seu banheiro, com seguinte título: My wife hates it when I work from home. (Minha mulher odeia quando eu trabalho em casa).

Com o tema já familiar dos ratos, e a impossibilidade de “expor” suas obras já que em geral cria obras a céu aberto, Bansky cria uma obra em sua própria casa e a expõe para o mundo no instagram e no seu site.

Interessante observar a “volta” do momento em os próprios artistas escolhem a maneira como vão expor, como acontecia no início do século passado:

“No passado, entretanto, a coisa não era bem assim, já que o próprio artista era muitas vezes curador, montador e vendedor de suas obras. Cabiam a ele os critérios para a montagem da exposição. Exposições não institucionais, como a histórica mostra de Courbet que ele próprio realizou no espaço a que chamou Pavillion du Réalisme, em 1855 ou ainda, no âmbito nacional, a controvertida Exposição de arte moderna organizada por Anita Malfatti, em 1917, e apresentada num salão na rua Líbero Badaró, em São Paulo, são exemplos dessa prática do artista.

Foram artistas também que, a partir dos anos de 1920, começaram a inovar a maneira de distribuir as obras no espaço, até então padronizada pelo Louvre, ou seja, com as obras ocupando toda a parede, separadas apenas pelas molduras. Assim, grandes nomes da arte moderna internacional como Kurt Schwitters, El Lissitzky e Marcel Duchamp contribuíram de maneira definitiva para uma nova maneira de apresentar a produção de arte moderna”. Vide texto completo na exposição que apresentamos na semana passada: https://artsandculture.google.com/exhibit/a-arte-de-expor-arte/sgICVbQQ8IsKJA

Duchamp também pode ser referenciado aqui não só pela exposição feita pelo artista, mas pela sua obra de arte no banheiro, com seu famoso mictório, a “Fonte”.

Poucas obras de arte impactaram e influenciaram tanto a maneira como se a vê a produção cultural quanto Fonte, do pintor, escultor e poeta francês Marchel Duchamp. Cem anos depois de sua criação, a obra mantém acesa a discussão em torno do seu valor e do que é ou não arte.”

https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2017/03/14/interna_diversao_arte,580402/voce-sabia-que-um-mictorio-mudou-o-rumo-da-arte.shtml

4. MUSEU DO ORATÓRIO – Oratórios: a religiosidade no cotodiano

Link para o site

O interessante “passeio” pela exposição não pretende similar o ambiente do museu.

O Museu entende que o espaço virtual e o físico são muito diferentes para que se transmita o conteúdo da mesma maneira. Ele cria então uma exposição em que se é possível entender o recorte da curadoria. As “aberturas” de salas ficam bem claras pela marcação de textos de cores bastante diferentes.  É possível enxergar as obras em detalhes.

O contraste entre fonte e fundo dos “textos de aberturas de salas” é bastante gritante (roxo + amarelo) e dificulta a leitura. É possivel abrir a ficha museologica completa das obras e depois ver os seus detalhes, mas isso é feito em uma nova janela e se torna pouco prático.

5. PINACOTECA – EXPOSIÇÃO DE LONGA DURAÇÃO

link para o site

O passeio virtual pelo segundo andar da pinacoteca permite ver uma planta geral em 3D da pina antes de selecionar uma sala.

Nele pode-se ver as legendas em destaque e dar zoom nos textos de abertura das salas, lendo na íntegra, porém só se pode se ler as legendas determinadas pela exposição, que são poucas por sala. O ponto mais prejudicado são as obras de arte, que são em grande parte distorcidas como no google street view e também não permitem a aproximação, ficando muito pequenas.

6. MUSEU AFRO

https://artsandculture.google.com/partner/museu-afro-brasil

O passeio virtual pelo museu é semelhante ao google street view.

Nele é impossivel ler as legendas e uma parte dos textos de parede. A grande profusão de obras confunde um pouco e fica difícil focar em algo.

Como as obras são grandes e é permitida uma boa aproximação, há um nível de detalhes possível de visualizar melhor do que os da Pinacoteca, mas o zzom grande desfoca as imagens. O subsolo pareceu ser amelhor experiência.

Muito mais interessante que a visita virtual, outras experiências no próprio museu se destacam, como a entrevista com o curador, em que ele explica de forma sucinta a exposição. Porém essa visita mediada ao espaço parece fazer mais sentido no universo digital. 

Museu Afro Brasil

7. INSTITUTO TOMIE OHTAKE – “Tomie Ohtake – Poesia se Medita”

Na forma de um filme em que um visitante vai percorrendo a exposição e mostrando quadro a quadro, o que vê. Sem nenhum som.

Nele é possivel parar o vídeo e apreciar um pouco mas a luz e os ângulos de leitura as vezes são bastante ruins. A noção especial se perde.

Considerações sobre as experiências: uma visita virtual que prentende entrar no museu e simular uma visita real, acaba se tornando confusa e com muitos itens para se ver. Infelizmente o espaço virtual não pode ser substituído e outras maneiras de mostrar os objetos para o “visitante” de maneira que ele possa apreender o conteúdo talvez seja mais eficaz.

O excesso de objetos e informações no espaço físico já dificulta o foco e a compreensão dos conteúdos propostos pela curadoria. No espaço virtual isso se amplifica e a exposição acaba perdendo o interesse pela falta de foco.

São aqui mostradas aqui então diversas experiências de visitas virtuais a exposições. Qual delas você mais aprecia? Porque?

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#1 Museus e quarentena: o melhor da semana

Depois de quase 1 mês em casa, você que é apaixonado por museus, estuda, trabalha ou visita com frequência, já está sentindo falta de visitas, conteúdos, palestras, etc. Então, enquanto durar a quarentena, farei uma curadoria de conteúdo disponibilizando o melhor para casa semana.

13/03 – SEGUNDA-FEIRA às 18:00
MASP LIVE NO INSTAGRAM

O diretor artístico Adriano Pedrosa e a curadora adjunta de histórias Lilia Schwaecz conversam sobre os conceitos de histórias que deram origem à 3 exposições em 2016 e uma em 2018: Histórias da Infância, da sexualidade e histórias afro-atlânticas além de História das mulheres e histórias feministas. Acessar o perfil @masp no Instagram.


14/03 – TERÇA-FEIRA
Baixar GOOGLE ARTS & CULTURE E VER A EXPOSIÇÃO “A ARTE DE EXPOR ARTE”

A exposição “A arte de expor arte”, sob curadoria de Regiane Cintrão, apresenta um texto muito interessante que envolve a história das exposições, expografia e museografia no Brasil e no mundo. Bastante conciso, o texto dá um panorama das mudanças ocorridas no âmbito da expografia, desde o tempo em que a arte de expor ficava a critério do próprio artista até o momento em que os arquitetos e designers começam a transformar este panorama. Pode ser acessado no computador também, através do link: https://artsandculture.google.com/exhibit/a-arte-de-expor-arte/sgICVbQQ8IsKJA

16/04 – QUINTA-FEIRA- 10:30 às 12:00
Curso online: filosofia e arte contemporânea: Louise Bourgeois.

Aula dada pela incrível Magnólia Costa, online, através do MAM. Valor da aula: R$ 105,00. Conheci Magnólia em um curso sobre arquitetura de museus e posso afirmar que ela é uma excelente professora. Não conheço as aulas sobre filosofia, mas acredito que sejam tão boas quanto, pois ela é dotada de conhecimentos profundos sobre o que fala, além de um humor bastante peculiar. https://mamcursos.byinti.com/#/ticket/eventInformation/G7snSQU7HhmqjK47f8Wc

17/04 – 19-04 – SEXTA-FEIRA E FINAL DE SEMANA
Curso GRATUITO sobre Velazquez no Museu do Prado.

Conta a história da criação do edifício e a suas polêmicas até a transformação em museu público. Considera Velazquez como o pintor dos pintores neste museu que se considerada mais de artistas do que de história da arte.

Sobre a usabilidade: escolher a versão gratuita do curso (o valor é somente para quem deseja um certificado). Para quem não entende tão bem espanhol, recomendo fortemente assistir em versão mais lenta. (clicar em detalhes no canto direito do vídeo e escolher a velocidade de reprodução 0.75).

https://miriadax.net/web/velazquez-en-el-museo-del-prado-3-edicion-/inicio

CURSO VELAZQUEZ

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O que acontece depois de uma pandemia?

No meio de uma crise, raramente achamos que aquilo pelo qual passamos poderá ser positivo. Dificilmente acreditamos que algo bom possa vir e somos inundados pelo pessimismo e medo.

Imagine-se então no ano de 1350, no auge da Peste Negra (ou Peste Bubônica), que matou entre 75 e 200 MILHÕES de pessoas (cerca de 1/3 da população mundial da época). Some-se a isso que era um período de pouca informação e boa parte da população acreditava que aquilo era uma praga dos céus e se perguntavam se seriam atingidos pela maldição mortal ou não – – ok, muita gente também acredita nisso hoje. A Peste negra foi uma das maiores pandemias da história humana.

Mapa de avanço da Peste Bubônica na Europa. fonte: https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=1811698

Fato é que, no decurso dos anos, mesmo com recursos infinitamente menores do que temos hoje, a peste foi diminuindo em importância para a população européia quando surgiram medidas de saneamento e limpeza nas cidades, de maneira a evitar a proliferação dos ratos e pulgas e também a adoção de quarentenas, obrigando a população sadia a ficar dentro de casa.A cremação dos mortos também foi adotada de maneira que o os sobreviventes não entrassem em contato com o vírus. Porém, apesar de reduzir significativamente, até hoje essa peste não foi totalmente erradicada.

Curiosamente, o primero surto da Peste Negra ocorreu na China provavelmente em 1330. Veio para a Europa através de comerciantes genoveses (a unificação italiana só vai acontecer séculos depois) e a partir da região que hoje chamamos de Itália se espalhou pela Europa.

Esse momento acaba sendo um grande marco do final da Idade Média, ou Idade das Trevas (denominação dada pelos Humanistas). Mas então, o que veio depois dessa pandemia devastadora?

Um dos períodos mais maravilhosos da história da humanidade: O Renascimento.

Iniciado na Italia, o Renascimento não foi apenas um movimento artístico que aconteceu somente na arte, arquitetura, música, literatura, etc. Ele também foi um movimento econômico e político muito rico.

Graças a essa grande ruptura, o mundo europeu passa a se expandir e busca novas rotas comerciais, consagram novas formas de ver o mundo, passam a valorizar o homem, libertam os seus servos, vão para as cidades criando uma burguesia que consolida um novo sistema social, político e econômico.

Surgem teorias cientificas nas quais acreditamos até hoje (como a teoria Heliocêntrica) e grandes astrônomos, filósofos, matemáticos, físicos, entre outros cientistas que admiramos até hoje, são frutos desse Renascimento. Veja se reconhece alguns desses nomes: Copérnico, Galileu, Descartes e Isaac Newton.

Na literatura tivemos Dane Alighieri, Maquiavel, Shakespeare, Cervantes e Camões. Na arquitetura Brunelleschi, Bramante, Paladio, entre outros.

Santa Maria Del Fiore | Duomo de Firenze. Imagem: Wikimedia commons

Mas o que mais conhecemos, sem dúvida é a magnitude do Renascimento nas artes. Difícil imaginar o que seria da História da Arte sem Michelangelo, Donatello, Rafael, Veronese e Tintoretto.

Toque de Deus. Michelangelo / Public domain

Mais difícil ainda imaginar um mundo sem Leonardo da Vinci. Artista, cientista, engenheiro, inventor, fez estudos de anatomia e talvez a maior contribuição individual para tantas áreas diferentes na história.

Homem vitriviano | Leonardo Da vinci. Imagem: Leonardo da Vinci / Public domain

Assim, uma grande crise, com tantas mortes e um momento que o medo e a doença assolaram a Europa, foram capazes de gestar o que particularmente considero o movimento mais admirável da história humana: o Renascimento.

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A luz nas exposições e museus: ofuscamento

Você já foi a uma exposição e não conseguia enxergar a legenda simplesmente porque refletia a luz? Ou ainda você já não conseguiu ler ou ver o que estava na vitrine por conta do reflexo da luz, das sombras ou do seu próprio reflexo?

Museu de anatomia Veterinária da USP. Vitrine com reflexos das janelas atrás.

Isso ocorre por erros no Controle de Ofuscamento. Ofuscamento é alguma que faz com que o que você deseja ver fique menos visível, fique confuso ou a visão pareça turvada. Ele acontece com a reflexão da luz nos objetos da exposição.

É muito importante controlar o ofuscamento nas exposições para que os visitantes não percam o interesse no que está sendo visto. Afinal, se há alguma dificuldade em enxergar o que quer ser dito, o esforço vai cansando o visitante e ele se desinteressa pelo tema. Então o conforto visual para a leitura e visualização das peças deve ser prioridade em projetos de iluminação de museus e exposições.

Para evitar o ofuscamento podem ser utilizadas inúmeras técnicas utilizando a luz natural e artificial.

Na iluminação natural:

  • Iluminação zenital: dar preferência a esse tipo de iluminação. Ela permite que a luz natural venha por grandes aberturas feitas no teto dos ambientes.  Em geral indicada para salas ou corredores de exposição mais amplos. Em ambientes, pode ser utilizada para aumentar a dramaticidade de alguma exposição, de forma intencional.
  • Usar também tipos de vidros/acrílicos ou materiais translúcidos (e não transparentes) nessas aberturas. Isso possibilita que a luz entre de maneira difusa e não penetrem os raios de sol diretamente no ambiente.
  • Evitar o uso de janelas e iluminação natural lateral. No caso da construção de um museu, é possível projetá-lo sem janelas nos espaços expositivos. Quando o espaço já existe devem ser feitos controles de ofuscamento através de brises, películas ou outros aparatos específicos.

Na iluminação artificial:

  • Uso de luminárias adequadas. Existem luminárias específicas para controle de ofuscamento no mercado e a escolha deve ser adequada as necessidades de cada projeto.
  • Controle de Ofuscamento. Este é o fator fundamental para o controle do ofuscamento em exposições e o mais difícil de executar. Quanto mais superfícies especulares, maior a reflexão. Mas a reflexão também pode ocorrer em obras de arte, legendas posicionadas no foco de luz, etc.  Por isso é necessário a contratação de um arquiteto de iluminação.

“Não existe uma solução garantida para este problema; assim, os projetistas precisam estar cientes de todas as fontes potenciais de ofuscamento e reflexão. Os problemas acarretados pelo ofuscamento são complexos e não podem ser evitados quando se projeta apenas com plantas baixas; o problema do ofuscamento exige que o projetista pense constantemente em 3 dimensões e visualize a cena que o usuário experimentará”. (INNES, 2014, p.99)

Veja o exemplo de como foi solucionado o problema das reflexões de luz em obras e balcões de vidro no museu de vida e arte religiosa de Saint Mungo, em Glasgow, Reino Unido (INNES, 2014, p.101):

Problemas de reflexão no projeto do Museu de Vida e Arte Religiosa de Saint Mungo, Glaslow, Reino Unido. A luz reflete em todos os vidros e obras criando ofuscamento. Fonte: INNES, 2014, P. 101.

Solução: redução do contraste com lâmpada dimerizável, santa, e refletor desenvolvido especialmente para este projeto. Fonte: INNES, 2014, P. 101.

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Para saber mais sobre os tipos de iluminação – natural, artificial, difusa, focada, etc – conheça nosso outro artigo: Como acertar na iluminação da exposição?

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Crítica Expográfica é escrito por Renata Figueiredo Lanz, que, além de produtora de conteúdo neste blog também é diretora de criação da Renata Figueiredo | design gráfico + expografia . Para entrar em contato envie um e-mail para renata@refigueiredo.com.br

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Da criação à percepção da exposição: o passo a passo do processo afetivo

Exposição no jardim da Casa das Rosas: de 1 a 20 de outubro de 2019. Foto: Renata Figueiredo-Lanz.

Todas as pessoas que criam e dão vida a uma exposição tem uma visão muito diferente sobre ela em relação ao público que as visita. Durante o mestrado, entrevistei cerca de 20 profissionais de diversas áreas e todos mostravam um brilho nos olhos ao falar de alguma exposição que fizeram e que causou grande emoção.

Porém, quando nas visitas a tais exposições, muitas vezes não era possível enxergar aquela magia e sempre ficou a questão: onde está essa lacuna entre a intenção, com um conteúdo muito bem produzido e a expressão deste conteúdo na expografia?

Em outubro, durante a concepção de um projeto, uma possível resposta surgiu.

A exposição sobre Câncer de Mama criada em outubro de 2020, foi resultado de uma pesquisa e produção fotográfica com 30 pessoas portadoras de câncer metastático que responderam à questão: “O que eu gostaria que você soubesse sobre o câncer de mama”?

Suas respostas quebram paradigmas, preconceitos e nos fazem refletir. Seja sobre a origem, questionando o fator genético, sobre o preconceito de ser contagioso, sobre a forma de detectar ou ainda o ainda gênero afetado, essas 29 mulheres e 1 homem nos mostram que há muito o que aprender.

Durante o projeto, o envolvimento e a emoção são inevitáveis. Ler e reler essas histórias é fruto de grande emoção.

Conheça um pouco sobre a produção do conteúdo, anterior a criação do projeto expográfico.

As fotos artísticas que deram origem a exposição são tão envolventes quanto as histórias. Quando se concebe um painel e a leitura e releitura de cada texto ocorre várias vezes ao dia, bem como o posicionamento de imagens ou ainda a composição dos painéis muda, não é um simples processo de design gráfico e de exposições: é a criação de um vínculo afetivo com aquelas pessoas e o reconhecimento dos seus valores e importância.

Quando a exposição é finalmente montada, depois de um árduo trabalho, chega-se a um outro nível de reflexão, desta vez sobre a expografia. Observando os visitantes percorrerem a exposição, é possível entender a razão pela qual os criadores da exposição o conteúdo tem uma visão tão peculiar, tão emocionante e, às vezes isso não se reflete para um visitante que passa apressado: envolvimento leva tempo.

Neste caso, durante a concepção, cada história foi lida e cada foto observada atentamente, de um panorama bem próximo e individual. Cada pessoa é vista de forma única e individual, diferente de um painel com 30 depoimentos e fotos.

Então nesse ponto, você pode se questionar: será que o excesso, a quantidade tiram a individualidades cada dor e tornam tudo um coletivo só, diminuindo o seu significado? Será que a grande quantidade de histórias expostas faz com que a percepção sobre cada indivíduo seja diminuída em sua individualidade? Sim e não.

Se você passa apressado, a única coisa que vê é a quantidade de informação. Mas, se parar para ler, consegue perceber que cada indivíduo tem sim a sua história e pode sim cativar, emocionar e desenvolver vínculos. A questão reside então no tempo que o visitante dedica a isso.

Ao contrário do que menciono no artigo: “A imagem como substituto do patrimônio material: a fotografia como desvalorização do objeto”, aqui cada indivíduo é identificado, tem a sua história contada e emociona, gerando curiosidade para a próxima foto e história.

A intenção de chocar ao colocar um homem na ponta do painel – e não no meio – atingiu o objetivo esperado: chocar os homens que acreditam que isso seja uma questão apenas feminina. Em algum tempo observando os visitantes pode-se perceber que sim, os homens se identificam e param para ler. Essa quebra sequencial chama a atenção para algo ainda pouco divulgado: homens também tem câncer de mama.

Homens também tem câncer de mama. Foto: Renata Figueiredo-Lanz.

Uma pequena – e quase imperceptível – diferença no design, que faz com que o indivíduo se destaque em um contexto de coletividade.

Mas, sobretudo aquele que parar para olhar a exposição e ler algumas dessas histórias vai atingir o objetivo principal: refletir. O visitante deve sair diferente do que entrou e esse é o objetivo – ou deveria ser – de toda a exposição: gerar reflexão, questionamento e transformação. Cada ser é único e deve ser fortalecido em sua individualidade.

Claro, faça a sua selfie, passeie pela exposição, afinal o local é lindo e a exposição foi feita com muito carinho. Além disso, hoje o marketing vem disso.

Porém, pare, leia e reflita sobre essa visão diferente do outubro rosa: não é mais um anúncio sobre prevenção, é sobre pessoas reais que estão com câncer mas, principalmente, sobre pessoas que estão vivas, tocam em frente e tem esperança. Mesmo com tantas dificuldades, ainda há um lado cor de rosa.

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Conheça museus realmente interativos (e pare de ser enganado)

Atualmente no Brasil os termos “interatividade” e “experiência multisensorial” são alardeados como um grande ganho ao visitante, convidado a fazer filas na frente dos museus.

Chegando lá, a grande decepção. O museu (supostamente) interativo é na verdade um espaço repleto de gadgets tecnológicos que seguem a lógica abaixo, do artigo “O fetiche da interatividade em dispositivos museais: eficácia ou frustração na difusão do conhecimento científico”:

“o uso recorrente e irrefletido das novas tecnologias nas salas de exposição tem levado a uma sacralização equivocada dos dispositivos digitais como melhores alternativas para a instauração da interatividade e do prazer nas experiências museais”*

Ou seja, os gadgets supostamente interativos são prioritários e predominantes na exposição, em detrimento da experiência real. Chegamos agora ao limite em que a exposição é somente o dispositivo interativo, como na exposição sobre Leonardo Da Vinci em São Paulo no MIS Experience.

Porém, hoje procurando outro tema, encontrei um exemplo significativo de interatividade, experiência multissensorial e ainda uma experiência memorável no museu. Isso tudo trabalhado com crianças, criando uma primeira experiência no museu a ser lembrada para o resto da vida, e consequentemente uma memória afetiva que os farão voltar a esse espaço.

As experiências vistas e descritas no vídeo abaixo podem ser analisadas de dois pontos de vista (no mínimo).

  • interatividade e multisensorialidade. Esses conceitos são percebidos realmente acontecendo. Veja o nosso artigo sobre interatividade. Já em relação a experiência multissensorial perceba como os cinco sentidos (tato, olfato, visão, audição e paladar) são efetivamente trabalhados nessas atividades.
  • considera a fase do desenvolvimento infantil e não tenta “encaixotar” a criança em um universo em que não se pode tocar, correr ou experimentar. Segundo Rudolf Steiner**, a criança de 0 a 7 anos usa todas as suas forças para o desenvolvimento do seu corpo. Por isso a idéia de ficar parado em frente a um objeto sem poder tocá-lo ou experimentá-lo parece entediante e gera rápida dispersão e desinteresse. Sensações e impressões que podem ser levadas para toda a vida.

Por outro lado, experiências criadas pelo Tropenmuseum Junior em Amsterdam, não foram premiadas à toa. Criam de fato experiências que são relatadas por adultos anos depois como algo memorável, que criou uma relação afetiva com os museus.

De Qi van China – Chinatour voor scholen no Tropenmuseum

Nela, de fato, a interatividade a experiência multissensorial foram muito além da mera publicidade imediatista.

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